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Imagem da Fome

Dourados Agora-Dourados-MS
22 de Jan de 2005

As fotografias que ilustraram a primeira página de O
PROGRESSO ontem e que repercutiram em todo o Mato Grosso do Sul,
revelam o outro lado do discurso de inclusão social que é feito
pelos governantes brasileiros. O retrato de crianças índias em
estado profundo de desnutrição, morrendo de fome e comprometendo
para sempre a formação óssea, psíquica e motora não combina em nada
com um país que sonha em ser grande e que atualmente faz um tremendo
esforço humanitário para socorrer as vítimas das ondas gigantes que
atingiram a costa asiática. A questão é: por que a preocupação de
matar a fome de nações tão distantes quando em solo brasileiro
crianças índias com até quatro anos de idade têm peso de
recém-nascido e nem sequer conseguem andar? Por que o governo não
faz o mesmo esforço para saciar a fome não apenas das crianças
indígenas, mas também de centenas de milhares de famílias que
acordam todos os dias no sertão brasileiro sem saber se terão o que
comer? O mesmo governo e a mesma sociedade que ficam chocados com
as fotos de crianças etíopes em pele e osso deveriam se mobilizar
para por fim no flagelo que atinge as crianças brasileiras. É
louvável toda iniciativa humanitária, inclusive nos casos de
tragédias naturais como a que atingiu a costa asiática, porém seria
muito mais louvável acabar com a fome daqueles que estão tão
próximos mas que tanto governantes quanto a sociedade parecem
ignorar. A situação seria muito mais grave se não fosse a ação do
Hospital da Missão Indígena Caiuás, que há décadas trabalha na
recuperação de crianças índias desnutridas e no tratamento de índios
adultos acamados pela tuberculose, hepatite, problemas respiratórios
e tantas outras doenças. Porém, as imagens captadas pelas lentes do
repórter-fotográfico Hédio Fazan e estampadas na primeira página
deste matutino chocam muito mais porque num Estado rico como o Mato
Grosso do Sul seria admissível que crianças morressem de qualquer
outro mal, menos de fome. Ora, qual a vantagem de o governo
comemorar tanto o aumento na arrecadação de impostos, se crianças
continuam morrendo por falta de comida? Qual a vantagem de se gastar
tanto nos chamados programas de segurança alimentar se índios com
três, quatro anos de idade, de diversas aldeias de Mato Grosso do
Sul, chegam ao Hospital da Missão pesando o mesmo de um
recém-nascido? O governo precisa dar uma resposta à sociedade, que
por sua vez também deve cobrar respostas de governos e governantes.
Fica ainda a constatação que alguma coisa está fora da ordem na
Fundação Nacional da Saúde (Funasa) em Mato Grosso do Sul. Se o
braço do Ministério da Saúde assumiu a responsabilidade de zelar
pela saúde indígena deveria fazê-lo com mais aplicação. Será que a
Funasa tem um raio-x da situação em que vivem os milhares de índios
espalhados por dezenas de aldeias do Estado? Será que a Funasa está
aplicando corretamente os recursos federais que recebe
exclusivamente para a saúde indígena? Será que a Funasa está
recebendo de fato esses recursos ou tudo não passa de propaganda
governamental? Por fim, fica, mais uma vez, um alerta para que a
Fundação Nacional do Índio (Funai) reavalie a atuação em Mato Grosso
do Sul e redefina as prioridades para um dos Estados brasileiros com
maior concentração de etnias indígenas. A Funai está pecando por
omissão e está sendo negligente na missão de proteger os índios,
principalmente as crianças e adolescentes. A Funai não está honrando
as obrigações de tutora dos povos indígenas e, com isto, está
permitindo que crianças continuem morrendo de fome nas aldeias de
Mato Grosso do Sul. A última esperança para que dois órgãos
fundamentais como a Funasa e Funai voltem a atuar com
responsabilidade está nas mãos do Ministério Público Federal, que
deverá, depois das fotos publicadas ontem, cobrar agilidade pelo
menos no combate à fome nas aldeias indígenas.

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