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Ilhados em SP, índios buscam manter sua cultura viva

FSP, Brasil, p. A15
16 de jul de 2006

Ilhados em SP, índios buscam manter sua cultura viva
Morosidade de instituições isola guaranis na periferia

Tomás Chiaverini
Colaboração para a Folha

Do terreno descampado onde ergueram barracos de madeira compensada, os guaranis da aldeia Pyau avistam os 4,9 milhões de metros quadrados de mata do parque do Jaraguá. Instalados a 15 metros da rodovia dos Bandeirantes (zona norte de SP), vivem em área de ocupação, depois que a aldeia Jaraguá -menor terra indígena demarcada do país- tornou-se pequena para o número de habitantes.
O espaço mal comporta as 57 casas. Por isso, os 233 habitantes da Pyau ("nova", em guarani) deixaram de cultivar a terra. Sobrevivem de benefícios do governo e de cestas básicas doadas por ONGs. Os homens não podem plantar ou caçar e passam o tempo vendo TV e fumando "petynguás" -cachimbo indígena. As crianças brincam com cachorros sarnentos e embalagens de refrigerante em meio ao esgoto.

Nascido em Itanhaém (litoral sul de SP), o cacique e fundador da aldeia Pyau, Guyra Pepo, 65, já morou Barra do Una e em Parelheiros. No final da década de 80, chegou à aldeia do Jaraguá, de 1,7 hectare. Sem espaço para plantar, decidiu criar uma horta para onde, pouco tempo depois, mudou-se com a família e fundou a Pyau. "O pessoal falou que não tinha dono, então fiquei, mas passou um ano e o dono veio."

Mesmo sob condições distantes das ideais, os índios da Pyau mantêm parte da cultura. As crianças só falam guarani até os seis anos, quando são alfabetizadas em português e, diariamente, reúnem-se para entoar cantos e rezas de agradecimento ao deus Nhanderu, divindade máxima guarani.

Ninguém trabalha fora da comunidade e, todos os dias, quando anoitece, os habitantes da Pyau se reúnem na casa de reza. Ali eles cantam orações e discutem os acontecimentos do dia, sempre envolvidos pela fumaça dos petynguás e de fogueiras acesas dentro da casa, a única feita de madeira e, seguindo a tradição, com a porta voltada para o nascer do sol.
Para não romper a relação com o ambiente que ainda resta, pelo menos duas vezes ao ano as crianças da Pyau são mandadas para a aldeia Peguaoty, situada dentro do parque Intervales, a cerca de 30 quilômetros de Registro (sul do Estado de São Paulo).

Há, no Estado, 15 parques que abrigam aldeias. Cinco delas são terra indígena e uma está em processo de demarcação na Funai.
Os índios buscam o reconhecimento da Pyau como terra indígena. A homologação está em andamento na Funai. O trabalho de identificação e delimitação foi concluído e aponta para o direito dos guaranis à área.

A Funai, contudo, não aceitou os argumentos dos antropólogos e pediu uma revisão do trabalho, ainda sem prazo para ser concluído. "A gente não consegue provar a tradicionalidade dessa área", diz Nadja Havt Bindá, antropóloga e coordenadora de identificação e delimitação de terras da Funai. Os mecanismos de homologação atuais são baseados no fato de que os índios ocupam a terra a ser homologada antes de qual quer outro dono.

A solução pode vir de um acordo com a Dersa (empresa de desenvolvimento rodoviário), que propôs a compra de terreno próximo à aldeia como compensação por supostas irregularidades na execução do Rodoanel.

TOMÁS CHIAVERINI participou do 41o Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha, patrocinado pela Philip Morris Brasil

NA INTERNET - Canto das crianças (áudio) e entrevista com cacique www.folha.com.br/061714

FSP, 16/07/2006, Brasil, p. A15

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