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Ilha de Trindade: defesa no paraíso estratégico

OESP, Política, p. A8
08 de Jan de 2017

Ilha de Trindade: defesa no paraíso estratégico

Pablo Pereira / TEXTOS
Wilton Júnior / FOTOS
ENVIADOS ESPECIAIS / ILHA DE TRINDADE

A Ilha de Trindade, território brasileiro mais a leste da costa, é um paraíso ecológico e ponto estratégico para a defesa nacional. Localizada na ponta de uma cadeia de montanhas vulcânicas de 3 milhões de anos, a porção de terra com 10 quilômetros quadrados exige constante vigilância da Marinha, que, na área, mantém desde 1957 o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (Poit). A convite dos militares, o Estado acompanhou uma missão de abastecimento e troca de guarda, em uma viagem com duração de nove dias, dos quais quase sete a bordo do navio de guerra Amazonas.
A partida foi no dia 8 de dezembro para a última Missão Trindade de 2016. Na ida, o Amazonas navegou 70 horas direto depois de deixar a Ilha de Mocanguê, em Niterói, chegando à ilha na manhã do dia 11. A bordo, 120 pessoas, entre elas um grupo de pesquisadores que estudam aves, algas marinhas, temperaturas oceânicas e tartarugas-verdes e só sairá de Trindade quando fevereiro chegar. E os militares? Para eles, a volta para casa deve ocorrer em abril.
"Trindade está na mesma latitude de Vitória, a mais ou menos 600 milhas, cerca de 1,1 mil km, da costa do Espírito Santo, próxima das nossas principais bacias petrolíferas", disse o comandante do Amazonas, capitão de fragata Luiz Antonio dos Santos Júnior. "Está próxima da zona de desenvolvimento econômico e tem também importância científica e ambiental", afirmou. Mais de 90% do tráfego naval de mercadorias ocorre nesta região patrulhada pela Marinha, que concentra também quase 90% da extração de petróleo do País.
A ilha representa ponto estratégico na geografia brasileira. É um posto avançado em uma área do Atlântico que tem um arco de oito ilhas do Reino Unido. "A Marinha enxerga a Ilha de Trindade como um posto avançado fundamental para a defesa do País", afirmou Santos Júnior.
Destacado para o 1.o Distrito Naval, do Rio, o Amazonas é equipado com um canhão de 30 milímetros na proa, outros dois canhões (25 mm) - um deles com acionamento remoto - e duas metralhadoras .50 nas laterais. E tem ainda dois pontos para acoplagem de fuzis 7.62 mm, dois lançadores de foguetes de iluminação e um canhão d'água. Cada viagem para Trindade custa, segundo a Marinha, cerca de R$ 500 mil.
O barco de 90,5 metros de comprimento, 4,5 m de calado, radares sofisticados, sistema para dessalinizar a água do mar e autonomia de 35 dias não é somente uma arma da Marinha. "É um navio de combate, mas, pelas características, se transforma em uma embarcação multitarefa", afirmou o comandante.
Usado também nas operações bimestrais de abastecimento da Ilha de Trindade, o Amazonas tem capacidade para carregar até seis contêineres de carga.
A Viagem. Na missão de dezembro, o Amazonas seguiu a uma velocidade média de 14,5 nós (27 km/h) - ele pode chegar a 25 nós (46 km/h). A expedição navegou com vento de norte formando um mar de nível 3 (de uma escala de 0 a 12). A viagem, segundo o comandante, estava tranquila, mas no segundo dia os efeitos do movimento constante das ondas apareceram com força. Os civis, marinheiros de primeira viagem, sumiram.
Passariam horas a fio enfiados nos alojamentos, rezando para santos antieméticos (remédios para enjoo). Na parede dos banheiros, uma implacável ordem militar: "Sujou, limpou".
No terceiro dia da viagem, os navegantes estavam mais adaptados ao comportamento instável do monumental volume d'água. Foi possível, então, ficar em pé na popa e os mais resistentes investiram na prática de ginástica no convoo, o convés preparado para receber helicóptero. Com o povo mais disposto, o comandante ordenou exercícios de adestramento militar no mar.
Lançados na água em uma lancha, marinheiros armados simularam abordagem de barco suspeito de tráfico de drogas, uma manobra antiterror e de defesa contra ataques de piratas. "Este tipo de adestramento segue procedimentos da força naval dos Estados Unidos", disse um militar.
Entre os militares estava o suboficial Anderson Conceição, de 41 anos, com 25 anos de Marinha, que embarcou, com mais 15 militares, para uma missão de quatro meses. Em Trindade, ficam sempre 32 militares. Experiente mergulhador, ele já esteve na ilha por cinco vezes. "A ilha é fantástica. A gente dá apoio aos pesquisadores", disse o militar, que tem 20 anos de serviços como mergulhador e já participou de ações humanitárias.
A volta. No dia 13, uma terça-feira, às 17 horas, o Amazonas deixou a ilha após a cerimônia da troca de comando do Poit - o capitão de corveta Ixon Martins entregou o posto ao colega Valdir Gouvêa Rêgo, que ficará no local até abril. No dia seguinte, deslizando em mar quase perfeito - classe 1, segundo a oceanógrafa Marília Kabke Wally -, a bandeira permaneceu a meio mastro em sinal de respeito à morte do cardeal d. Paulo Evaristo Arns, falecido em São Paulo, aos 95 anos. Além de um capelão católico, a tripulação tinha ainda a companhia de um pastor da Igreja Batista, o tenente José Roberto.
Novos exercícios militares, como resgate de homem ao mar, movimentaram o Amazonas no último dia de viagem, na volta de Trindade. A embarcação avançava a 10 nós em águas de 4,2 mil metros de profundidade, segundo o sonar do passadiço. Para conforto do imediato do navio, o comandante Marco Aurélio Barros de Almeida, o número 2 do Amazonas, a atividade foi completada sem anormalidades.
A travessia oceânica de nove dias do Amazonas, porém, não terminaria no Porto de Vitória sem antes "premiar" tripulação e passageiros com uma última, e inesquecível, noite de um Netuno carrancudo. Já na costa do Espírito Santo, o navio de guerra da Marinha enfrentou chuvas e fortes ventos. Para resistir ao mau humor da divindade grega dos mares, o jeito foi apelar para os santos químicos dos antieméticos.

Praias são berçários de tartarugas-verdes

Quando os biólogos do Projeto Tamar forem cavucar em fevereiro as areias da Ilha de Trindade, a ciência poderá responder com detalhes se o esforço da tartaruga-verde (Chelonia mydas) Número 001, de 1m23cm de casco, provavelmente com mais de 30 anos, valeu a pena. Na noite do dia 11 de dezembro, ela saiu do mar se arrastando na areia por volta das 22 horas. Iluminada pela Lua crescente, cavou por quase uma hora na Praia dos Andrada, onde colocou dezenas de ovos.
Depois da postura, a tartaruga foi examinada pelos técnicos do Projeto Tamar Suellem Melo de Andrade Santiago, de 25 anos, Roberto Carlos de Lima Filho, de 22, e Lucas Tavares de Souza, de 23. Em campana à beira-mar, com lanternas de luz vermelha "para não estressar o animal", eles aguardaram pacientemente a desova para depois medir e identificar o animal. Cada uma das tartarugas enterra na areia de 70 a 120 ovos. Na madrugada do dia 12, pelo menos outras cinco tartarugas repetiram o ritual.
"A gente tira as medidas, vê se há outras anilhas para identificar o animal e coloca a nossa anilha para acompanhar a movimentação dela", disse Lima Filho. "Há registro de tartarugas de Trindade na costa da África", contou.
A cena noturna desse contato humano com a tartaruga é tocante. Por vezes, o animal se arrasta até sobre as pedra da praia, com dificuldade, para alcançar as areias fofas onde cava, põe seus ovos, os cobre tentando enganar predadores, como os caranguejos-amarelos, que estão à espreita.
No momento do anilhamento, fixação da placa de metal com pontas finas aplicada nas cartilagens de uma nadadeira, a tartaruga sente a picada. Essa é a parte final da operação. Os biólogos conferem se a marcação está firme e o bicho, incomodado, procura logo fugir para a água.
Medição. Naquele dia, a menor tartaruga foi a 006. Ela tem 1m04cm, disse Souza, encarregado das anotações da posição, das medidas e do horário daquele encontro na penumbra da Praia dos Andrada.
Com patrocínio principal da Petrobrás no projeto, os jovens pesquisadores terminaram as duas noites, acompanhadas pelo Estado durante a permanência na ilha, nas Praias dos Andrada e das Tartarugas, satisfeitos.
As selvagens tartarugas-verdes de Trindade são raridade - estão ameaçadas de extinção. De acordo com Suellem, "apenas uma em cada mil", das simpáticas criaturas que podem chegar a 1m50cm e pesar até 169 quilos, escapa dos predadores. Com cerca de 25 a 30 anos, elas vão procurar machos diversos para garantir o seguimento da espécie. E, então, em noites enluaradas de futuros dezembros, voltarão a cavar camas nas quentes areias da Ilha de Trindade.

Algas de Trindade impulsionam pesquisa para cremes faciais

Uma outra equipe de pesquisas em Trindade, composta por Carolina Gonçalves Ito, de 26 anos, da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), e Michelle Christine da Silva, de 27 anos, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), planeja ficar na ilha por dois meses. O trabalho delas é coletar algas marinhas a uma profundidade de até 3 m em 16 praias da montanha vulcânica.
As pesquisadoras querem entender o processo de absorção de metais pelas algas, que podem ser componentes da indústria de cosméticos, usados em cremes faciais. "As algas devem ser coletadas nas pedras e não podem ser usadas aquelas que estão expostas ao Sol", disse Carolina, que analisa macroalgas. "Algas são bioindicadores da presença de poluição", afirmou.
A pesquisa, coordenada pela professora Franciene Pellizzari, da Unespar, pode medir, portanto, a presença de metais na área para estabelecer um padrão básico que possa ser comparado às espécies de algas, que são cerca de 200, em outros locais. "A ideia é identificar os compostos e depois, eventualmente, usar a química para produção", disse Michellle, que deve completar mestrado em 2018 em Oceanografia. "O que destaco é o potencial bioativo da pesquisa", afirmou.
Nas algas, explicou a pesquisadora, há aminoácidos e antioxidantes, com ação tensora, como a que existe no colágeno. Há também compostos que podem ser usados na indústria da cerveja - para manter a espuma em suspensão.

OESP, 08/01/2017, Política, p. A8

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