OESP, Internacional, p. A14-A15
10 de Mai de 2013
Iêmen enfrenta onda de violência por escassez de água
A produção da folha do qat consumiu as fontes subterrâneas e agora tribos disputam as nascentes nas montanhas
Thomas L. Friedman
THE NEW YORK TIMES
TAIZ, IÊMEN
Estou no Hospital Internacional do Iêmen, em Taiz, cidade da montanhosa região central do país, que sofre de uma escassez de água tão aguda que as pessoas só podem usar as torneiras por 36 horas a cada 30 dias. Então, precisam encher todos os recipientes possíveis e depois esperar os caminhões-tanque que percorrem os bairros e vendem água como uma mercadoria preciosa.
Visito Mohamed Qaid, trabalhador de 25 anos da vizinha aldeia de Qaradh que foi atingido na mão e no peito por três balas por um homem de Marzouh, outra aldeia vizinha. Os dois lugarejos brigam em razão do fornecimento inconstante da água que eles compartilham e jorra das nascentes nas montanhas.
Desde 2000,seispessoasforam mortas e muitas mais ficaram feridas nos confrontos, ultimamente mais intensos. Uma pessoa foi morta dias atrás. Qaid sofre, mas quer contar às pessoas o que está acontecendo nesse lugar.
Pergunto: "Você foi mesmo atingido por um tiro em virtude da água?" Ele responde com dificuldade: "Não foi uma questão política. Não foi em razão da Irmandade Muçulmana. Foi pela água".
Há uma mensagem aqui. O Iêmen, país de uma beleza de tirar o fôlego e povo maravilhoso, é um desastre em termos de desenvolvimento humano. Aqui a gente vê para onde meio século de má administração política, juntamente com a má administração dos recursos naturais, as distorções na política do petróleo e a explosão populacional levaram o país. Mas o Iêmen está apenas dez anos aproximadamente na frente da Síria e do Egito em termos da crise do desenvolvimento humano que toda a região enfrentará.
O grande ambientalista americano Dana Meadows costumava responder quando perguntavam se talvez era tarde demais para fazer alguma coisa a respeito da mudança climática: "Temos exatamente o tempo suficiente - a partir de agora". O mundo árabe tem exatamente o tempo suficiente - a partir de agora. Não haverá esperança se as pessoas não pararem de lutar por ideologias e diferenças sectárias já mortas e procurarem superar os déficits de conhecimento e liberdade. É preciso também promover os direitos das mulheres-como pede o Relatório da ONU sobre o Desenvolvimento Humano dos Árabes. Como Qaid sugeriu, no Iêmen, as velhas ideologias agora são verdadeiros luxos. A questão é a água.
Vim a Taiz para escrever minha coluna e filmar um documentário para o Showtime, sobre o clima e o despertar árabe.
Viajamos num helicóptero da Força Aérea iemenita com Abdul Rahmanal-Eryani, ex-ministro iemenita dos Recursos Hídricos e do Meio Ambiente, que não tem papas na língua.
"Na década de 80, em Sanaa, a capital, era preciso cavar cerca de 60 metros para achar água. Hoje, é preciso perfurarde850a 1.000 metros para encontrá-la.
O Iêmen tem 15 aquíferos e somente2hojesãoautossustentáveis; todos os outros estão sendo persistentemente esgotados. E onde quer que no Iêmen existam aquíferos se esgotando, encontramos os piores conflitos. Um dos aquíferos mais ameaçados do Iêmen é a Bacia de Radaa", disse.
"E ela é um dos redutos da Al-Qaeda. No norte, na fronteira com a Arábia Saudita, a região de Sadah era uma das áreas mais ricas para o cultivo de uvas, romãs e laranjas. Mas a população esgotou o seu aquífero até um grande número de fazendas secarem", disse Eryani. Criou-se, assim, o ambiente propício para a tribo houthi pró-Irã recrutar jovens trabalhadores agrícolas desempregados para começar um movimento separatista.
Esse desastre ambiental surgiu nos anos70,quando o boom do petróleo e da construção explodiu no Golfo Pérsico. Entre 2 e 3 milhões de trabalhadores iemenitas sem especialização deixaram então as aldeias para o setor da construção, na Arábia Saudita.
"Com o resultado, o campo ficou sem mão de obra", disse Eryani. As mulheres tiveram de cortar árvores para usá-las como combustível e os terraços sofreram erosão por falta de manutenção. Isso provocou deslizamentos nos morros, enchendo de lodo os leitos dos rios sazonais cujo solo rico alimentava três colheitas por ano.
Droga. A acumulação do lodo asfixiou a cafeicultura e fez com que o Iêmen se dedicasse a outras culturas lucrativas. A mais bem-sucedida delas foi a do qat, a folha do narcótico no qual o país está viciado. Mas o qat exige muita água e isso causou a super exploração da água do subsolo.
Entrevistei os líderes das duas aldeias em guerra: Abdul Moimen, de Qaradh, de 42 anos, e Ahmed Qaid,deMarzouh,de40.
Eles têm duas coisas em comum: ambos têm dez filhos e, quando perguntei aos dois o que acontecerá com o fornecimento de água quando seus dez filhos tiverem dez filhos cada, eles responderam em primeiro lugar alguma coisa como "Alá proverá" e depois disseram: "a dessalinização". Mas isso custa muito mais do que o Iêmen tem condições de pagar agora.
"O Iêmen sofreu em razão de duas drogas: o qat e o dinheiro fácil do petróleo", afirma Eryani.
O qat consumiu toda a água e o dinheiro fácil do petróleo seduziu a mão de obra rural que abandonou seu emprego. Mas agora que a Arábia Saudita mandou para casa a maioria dos trabalhadores iemenitas, eles estão encontrando um país praticamente sem água, com poucos empregos e a educação em frangalhos, que ensina mais religião do que ciências.
Mas ainda há esperança. Os iemenitas estão empreendendo um diálogo nacional pacífico e peculiar - ao contrário da Síria e do Egito -, no qual a contribuição das mulheres corresponde a 30%, para produzir uma nova liderança. Eles terão de começar do zero. Mas, entre todos os países árabes do "despertar", eles têm a maior chance de começar logo - se conseguirem. /
TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
OESP, 10/05/2013, Internacional, p. A14-A15
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