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Autor: Elis Bartonelli
10 de Jul de 2018
Desde 2014, a sertanista aposentada Eunice Cariry, de 83 anos, mantém, com a ajuda de doações, a Casa do Índio, que funciona há mais de meio século na Ribeira, na Ilha do Governador. Ela cuida, com a ajuda de uma voluntária, de indígenas que chegam ao local com problemas de saúde e transtornos mentais. Uma denúncia, no entanto, levou o Ministério Público a determinar a busca e a apreensão de três crianças com microcefalia que viviam no imóvel e, que, segundo a queixa, estariam em situação de vulnerabilidade social e financeira. Os pequenos corriam o risco de ir para um abrigo municipal, mas, após uma inspeção, a história teve uma reviravolta.
A juíza da Vara da Infância, Juventude e Idoso da Capital, Glória Heloiza Lima da Silva, resolveu, no dia 28 de junho, conceder a guarda provisória dos cinco índios menores de idade à Dona Eunice, além da curatela dos 11 adultos que vivem no local.
- Vi que a situação era peculiar e que se tratava de indígenas. Fui até lá, acompanhada de uma equipe de representantes de órgãos municipais, e identifiquei apenas uma situação de vulnerabilidade financeira. Não havia nada que comprometesse a integridade física e psíquica e a saúde das crianças. Por isso, na intenção de protegê-los e preservar a convivência do grupo, concedi a curatela e a guarda provisória - disse a magistrada, que determinou também que o município promova ações concretas para garantir educação e cuidados médicos para os 16 moradores.
Dona Eunice não escondeu o alívio com a decisão. Ela escreveu uma carta de agradecimento à juíza: "Queremos ressaltar que a generosidade direcionada para os índios por nós assistidos será sempre lembrada como exemplo do que o sentimento humano ainda pode produzir em favor dos mais indefesos e necessitados. A senhora foi a mensageira da paz e da tranquilidade para todos nós".
SERTANISTA DIZ NÃO RECEBER VERBA PÚBLICA DESDE 2014
Dona Eunice é incansável no trabalho à frente da Casa do Índio. Nos últimos anos, nem as especulações a respeito do destino do imóvel de 800m² e a perda de ajuda financeira a fizeram perder o eixo. Quando é necessário, ela tira dinheiro do próprio bolso e compra medicamentos para os índios que vivem no local - todos têm problemas de saúde.
A sertanista aposentada conta que, até 2014, a Casa do Índio contava com 14 funcionários mantidos por uma Organização Não Governamental (ONG) apoiada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). A equipe contava com professores, auxiliares administrativos, motorista e cuidadores. A ajuda, segundo ela, desapareceu, e hoje os índios sobrevivem com doações de igrejas e de instituições como o Rotary.
MORADORES SE AJUDAM
A equipe de cuidadores se resume a Dona Eunice e a Vânia Maria dos Santos, de 61 anos, única integrante do grupo que permaneceu na Casa do Índio depois que a verba acabou. Os moradores que não têm transtornos mentais também contribuem com o cuidado dos demais.
- Sempre me envolvi nas causas das pessoas necessitadas. Aqui só tem duas saídas para pegarem o imóvel: ou queimam minha imagem ou a mim mesma. Enquanto eu tiver saúde, vão ter que me engolir - avisou Dona Eunice.
Procurada para falar sobre a situação da Casa do Índio, a Funai não se manifestou.
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