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IBGE admite erro no censo agropecuário

OESP, Economia, p. B5
06 de Nov de 2009

IBGE admite erro no censo agropecuário
Pesquisa que havia revelado aumento da concentração de terras indica, na verdade, pequeno recuo no índice

Alexandre Rodrigues e Jacqueline Farid, Rio

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou ontem que cometeu um erro no cálculo do índice que mede a concentração de terra no País, divulgado no fim de setembro. O Censo Agropecuário do IBGE apurou que em 2006 o índice de Gini no sistema fundiário havia atingido 0,872, indicando piora na concentração de terras em uma década.

O número correto, segundo o instituto, é 0,854, o que leva à interpretação inversa: um pequeno recuo em relação ao resultado de 0,856 apurado no censo de 1995/1996. Pela escala de Gini, quanto mais o resultado se aproxima de 1, maior é a concentração.

Segundo o coordenador do Censo Agropecuário, Antônio Carlos Florido, o erro foi identificado pelo agrônomo Rodolfo Hoffmann, especialista em economia agrária que dá aulas no Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp). Alertado pelo professor, o IBGE refez o processamento dos dados do censo e descobriu o erro.

Embora o equívoco tenha sido notado na segunda semana após a divulgação do censo, a correção só foi informada ontem, numa nota à imprensa, pelo IBGE, que também postou um discreto comunicado em seu site.

Florido atribuiu o resultado incorreto a uma falha técnica no processamento dos dados apenas no cálculo do índice nacional. O resultado dos Estados, que mostrou aumento da concentração de terra em São Paulo (de 0,758 para 0,804) e recuo em Estados como Maranhão (de 0,903 para 0,864) estão certos, segundo ele.

O técnico do IBGE disse que o trabalho foi feito às pressas para divulgação e não houve tempo para revisão. "Um software lê os microdados e pode ter havido falha no processamento. Com o contato do professor, refizemos os cálculos também pela metodologia dele e confirmamos que o índice era mais baixo", afirmou.

Ele admite que a correção altera a interpretação de que a concentração agrária está crescendo, mas ressaltou que o número tão próximo ao do censo anterior indica a manutenção do retrato desigual da propriedade no campo. A metodologia do Censo já havia sido questionada pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, e pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que discordaram dos resultados.

"Já tínhamos contestado porque vemos que acontece o contrário. Lamentamos ver o aparelhamento do IBGE, que hoje não oferece mais a mesma segurança e confiabilidade nos seus dados. Duvido que foi erro técnico, foi intencional. Esse censo escancarou a intenção explícita de separar a pequena propriedade do agronegócio", disse a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da CNA. "Quando soltam os dados, buscam as manchetes. Na hora de corrigir, vem tudo pequenininho, escondido, sem entrevista coletiva."

O Ministério da Agricultura informou que Stephanes já havia sido informado do erro e assessores do ministro elaboram um relatório para apontar outros erros. Só após esse trabalho, ele comentará o assunto. O Ministério do Desenvolvimento Agrário não quis se pronunciar. O Estado não conseguiu contato com Hoffmann.

OESP, 06/11/2009, Economia, p. B5

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