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Ibama vai mapear madeireiras

CB, Brasil, p.9
05 de jun de 2005

Interventor do instituto em Mato Grosso anuncia que fará levantamento das empresas que atuam ilegalmente no estado. PF investiga eventuais conexões de suspeitos de integrar quadrilha com o PT
Ibama vai mapear madeireiras
Designado pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para comandar o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) em Mato Grosso, o interventor Elielson Ayres anunciou ontem que vai fazer um levantamento de todas as madeireiras que operam ilegalmente no estado. Segundo Ayres, as investigações da PF serviram para detectar as madeireiras fantasmas que haviam recebido autorização do Ibama para atuar no estado, responsáveis pelo desmatamento de 43 mil hectares. No entanto, não atingiram um número significativo de empresas clandestinas. Vamos mapear todas essas madeireiras ilegais e realizar daqui um mês operação semelhante a que foi feita no início de junho”, diz o interventor.
Tanto Ayres quanto o procurador da República Mauro Lúcio Avelar, um dos responsáveis pelas investigações, estão certos de que a Operação Curupira, deflagrada na semana passada pela Polícia Federal (PF), não pôs fim ao esquema de venda ilegal de madeira em Mato Grosso. Apesar de elogiar o saldo da operação, que já provocou a prisão de 95 pessoas, Avelar considera que o resultado poderiater ido muito além”.
Ele acredita que há conexões entre a quadrilha presa em Mato Grosso e madeireiras que funcionam em Rondônia e no Pará. Segundo o procurador, há indícios de que os funcionários do Ibama acusados de vender Autorizações para Transporte de Produtos Florestais (ATPF) podem ter falsificado documentos para empresas de outros estados.
Depois de três dias de Operação, falta ainda à PF cumprir 32 mandados de prisão. Até sexta-feira, já haviam sido tomados os depoimentos de 83 pessoas suspeitas de participar do esquema de venda ilegal de madeira, que desde 1990 movimentou mais de R$ 800 milhões. A partir de manhã, representantes do MPF vão acompanhar o interrogatório dos 12 presos restantes, na superintendência da PF no estado.
O ex-diretor de Florestas do Instituto Antônio Hummel, funcionário de confiança da ministra Marina Silva, deverá ser um dos depoentes. Na última sexta-feira, ela defendeu Hummel, assinalando que nem o ministério nem a PF possuem qualquer prova contra o servidor.
Afastados de suas funções, os 52 funcionários do Ibama presos por suspeita de envolvimento com a quadrilha também vão responder a uma ação cível pública na Justiça. Segundo o interventor do Ibama, eles devem ser acusados de improbidade administrativa.
Eles já estão respondendo um processo interno, mas que os afasta apenas por 60 dias. No caso da ação por improbidade, eles ficam afastados até a conclusão do processo e podem ser condenados a ressarcir o erário”, explica o interventor.
Poder político
A PF também está investigando o suposto envolvimento de integrantes do PT no Mato Grosso com membros da quadrilha. Para o procurador Mauro Avelar, esta é uma pequena amostra do poder político” do grupo. Eles financiam prefeitos, deputados e vereadores”, afirma o procurador. Os agentes federais conseguiram gravações telefônicas,autorizadas pela Justiça, que indicam que o ex-gerente executivo do Ibama em Mato Grosso, Hugo José Werle, contribuiu com R$ 5 mil para a campanha do candidato derrotado a prefeito de Cuiabá e presidente regional do PT, Alexandre César, na eleição de 2002.
Segundo as gravações, pelo menos três empresas investigadas pelo Ministério Público Federal (MPF) teriam feito doações para o candidato petista. A Diagem do Brasil Mineração teria contribuído com R$ 30 mil, a Cimifran Indústria e Comércio de Madeira com R$ 5 mil e a Solar Madeiras Especiais com outros R$ 15 mil para a campanha do petista. O objetivo seria garantira permanência do gerente- executivo do Ibama em Cuiabá,Hugo Weler, no cargo. O PT perdeu, mas Weler continuou no cargo até ser preso na última quinta-feira sob a acusação de integrar a quadrilha.

Vigilância em tempo real
A exemplo do que já ocorre no Amazonas, o estado de Mato Grosso vai contar com um sistema mais eficaz e imediato de fiscalização e combate ao desmatamento. O diretor de Proteção Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Flávio Montiel, está em Cuiabá para implantar o Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), que vai possibilitar a atualização dos dados sobre desmatamento a cada 15 dias. Isso permite que possamos redirecionar a fiscalização do Ibama para aqueles desmatamentos que estão ocorrendo”, explicou Montiel. A situação de Mato Grosso é preocupante.
O estado responde a nada menos do que 48% dos 26.130 quilômetros quadrados de floresta amazônica desmatados entre 2003 e 2004. Segundo Montiel, mais de 360 pessoas estarão envolvidas no processo de fiscalização, entre funcionários do Ibama, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal e Exército. O Deter foi desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em Mato Grosso serão cinco unidades espalhadas por diferentes municípios.

CB, 05/06/2005, p. 9

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