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Ibama não consegue deter devastação no sul da Bahia

A Tarde-Salvador-BA
Autor: Ana Cristina Oliveira
20 de Nov de 2001

A devastação da Mata Atlântica no
sul da Bahia avança de maneira descontrolada, sem que o Ibama tenha conhecimento da real
dimensão do problema. Em municípios como Pau Brasil, Una, Arataca, São José da Vitória e
Camacan o barulho das motosserras denuncia os crimes ambientais.
Exemplares de jequitibás e jacarandás, alguns deles centenários, estão vindo abaixo pela
voracidade das motosserras, que trabalham sem parar, a serviço de produtores rurais
desiludidos com a crise do cacau que mudou a paisagem regional nos últimos dez anos.
Ao longo de trechos da BR-101, os densos cacauais cobertos pela mata que tornavam única a
paisagem da região viraram pasto para gado ou foram substituídos por culturas como a do
café, que obrigou a devastação de grandes áreas, principalmente no município de Arataca.
Na BR-415, no trecho Itabuna-Ibicaraí, as plantações de cacau cederam espaço para o gado e,
na BA-001, a devastação promovida pelos madeireiros ameaça a reserva biológica, onde o
Ibama enfrenta dificuldades para salvar o mico-leão-da-cara-dourada da extinção.
A situação há muito é denunciada pelos índios pataxós, que vêem caminhões carregados com
madeira saírem das fazendas na área da reserva, que se estende pelos municípios de Pau
Brasil, Camacan e Itaju do Colônia, sem que nada os detenha. "Durante o dia e pela
madrugada só se ouve o som das motosserras, e, à tardinha, os caminhões passam
carregados de toros", diz o ex-cacique Nailton Muniz.
A vice-cacique Marilene dos Santos afirmou que este problema foi um dos fatores que
motivaram os hã-hã-hães a acelerarem a retomada de suas terras, para impedir que os
fazendeiros invasores desertifiquem a área, antes de devolvê-la ao povo patoxó. "Nessas
matas a maioria das tipos de caça desapareceu, em razão da devastação de espécies que
serviam de alimento e abrigo para elas", diz a líder pataxó.
Orquídeas e bromélias
Com a devastação dessas espécies florestais também estão desaparecendo as bromélias,
orquídeas, samambaias dentre outras da rica flora regional, que ocorrem no mesmo
ecossistema que alimenta o cacau. Quem passa pela BR-101, no entroncamento do município
de São José da Vitória, vê grupos de adolescentes vendendo mudas de orquídeas, algumas
raras, como forma de sobrevivência. Não raro, os carros que passam no local param para
comprar, principalmente as orquídeas, em razão da variedade e da grande beleza das flores.
Há informações de que caminhões do Sul do País chegam todo mês para levar centenas de
mudas, que são tiradas de dentro da mata por pessoas que ganhariam apenas alguns trocados
para colaborar com o contrabando, que faria parte de uma extensa rede para exportar as
espécies para os Estados Unidos e Europa.
Segundo orquidófilos, toda a região cacaueira é berço de grande diversidade de orquídeas,
principalmente São José da Vitória e Canavieiras. Na serra do Conduru, nas margens da
BA-001, a rodovia que liga Ilhéus a Itacaré, nas proximidades do distrito de Serra Grande, há
uma área de intensa cobertura vegetal, em que os biólogos encontraram a maior diversidade
de espécies do mundo por hectare.
Parte desse patrimônio, que está numa Área de Proteção Ambiental (APA), também não
escapa dos depredadores, que na calada da noite penetram na mata e já estão deixando sua
marca em forma de grandes clareiras, que só recentemente foram identificadas por
trabalhadores rurais da localidade.

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