O Globo, Ciencia e Vida, p.34
30 de Jun de 2004
Ibama lança plano para preservar mamíferos carnívoros
Roberta Jansen
Vistos como ferozes e ameaçadores por muitos, os mamíferos carnívoros são, na verdade, animais extremamente ameaçados, vítimas freqüentes de caçadores e, sobretudo, da depredação de seu habitat natural. Das 26 espécies terrestres que existem no Brasil, nove estão na lista oficial dos animais em risco de extinção do Ministério do Meio Ambiente.
Para tentar mudar esta situação, o Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais (Cenap), do Ibama, e a ONG Associação Pró-Carnívoros anunciaram ontem o lançamento do Plano de ação pesquisa e conservação de mamíferos carnívoros do Brasil, que reúne iniciativas para a preservação de animais como a onça-pintada, o lobo-guará, a ariranha e a lontra, entre outros.
Predadores são elementos-chave de qualquer ecossistema explica o veterinário Ronaldo Morato, do Cenap, um dos coordenadores do plano de ação. Uma extinção no topo da cadeia alimentar pode levar ao desequilíbrio de todo um ecossistema e ao desaparecimento de diversos outros animais.
O desaparecimento da onça-pintada, para citar o exemplo do maior predador da fauna brasileira, poderia levar a uma superpopulação de cervos, capivaras e queixadas. Esses animais, por sua vez, demandariam mais alimentos e poderiam começar a invadir plantações.
As onças têm um papel regulador importante lembra Morato. São predadores oportunistas, matam sobretudo animais velhos e doentes.
Plano tem 75 ações a serem executadas em quatro anos
Além disso, lembra o especialista, esses animais precisam de grandes áreas para viver. Cada onça, por exemplo, demanda, na natureza, 50 quilômetros quadrados.
Ou seja, são elementos estratégicos na conservação de ecossistemas diz Morato. Quando conservamos áreas para esses animais, conseqüentemente estamos conservando para diversos outros.
O plano prevê, inicialmente, a organização dos dados disponíveis e a coordenação das diversas estratégias em curso. Segundo Morato, existe muita sobreposição de dados e pesquisadores fazendo, simultaneamente, estudos sobre os mesmos aspectos.
Os estudos sobre genética populacional e a ampliação do banco de amostras biológicas são prioridades informou o especialista, lembrando ainda que o plano de ação também sugere o desenvolvimento de pesquisas sobre as principais doenças que atingem os carnívoros.
Os pesquisadores também devem buscar meios de estabelecer novas formas para tentar diminuir os conflitos na interação dos grandes predadores e as populações humanas. Ao todo, foram listadas 75 atividades a serem realizadas nos próximos quatro anos.
O Globo, 30/06/2004, p. 34
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