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Humanidade é condenada pelo aquecimento

JB, Saúde, Ciência & Vida, p. A24
03 de Fev de 2007

Humanidade é condenada pelo aquecimento

Juliana Anselmo da Rocha

O maior e mais bem fundamentado relatório já produzido sobre o aquecimento global atesta que a humanidade é a grande culpada pelo fenômeno. De acordo com o documento divulgado ontem pelo Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), vinculado à ONU, a ação humana tem pelo menos 90% de chances de ser a maior responsável para o aumento previsto entre 1,1 e 6,4 graus - sendo mais provável entre 1,8 e 4 graus - das temperaturas na Terra até 2100.
Modelos matemáticos aplicados pelos pesquisadores mostraram que o Brasil, por estar situado em uma latitude média, não será inicialmente prejudicado com a subida no termômetro. O país está entre os cinco maiores emissores de dióxido de carbono (CO2) - o vilão do aquecimento. Curiosamente, 75% do é liberado pela Floresta Amazônica. O resto sai das chaminés das indústrias, automóveis e outras fontes.
Os pólos, especialmente o Ártico, são as regiões mais afetadas. Nos últimos 100 anos, as temperaturas no Norte subiram quase o dobro da taxa média mundial. Satélites mostraram que a extensão da camada permanente de gelo no Ártico encolheu 2,7% por década.
- O IPCC forneceu os dados científicos mais precisos sobre o efeito estufa. Agora, é com a sociedade decidir o que fará a respeito - conclui Gabriela Hegerl, principal autora e organizadora do relatório.
O painel, que reúne 2.500 cientistas de mais de 130 países, previu mais enchentes, ondas de calor e um aumento de 18 a 59 centímetros no nível do mar no século 21. O impacto na Terra duraria por até mil anos, mesmo com o corte total das emissões de CO2.
- Estamos sofrendo as conseqüências de nossas ações no passado, desde o começo do século 20 - pondera Roberto Schaeffer, professor do Programa de Planejamento Energético da COPPE-UFRJ e um dos colaboradores do relatório de contenção de danos do IPCC, a ser liberado em maio. - Temos pouca condição para mudar o cenário até 2100, mas isso não significa que não devamos fazer nada. As gerações futuras agradecerão nossas atitudes.
Ao comparar as previsões com dados históricos sobre clima, os cientistas perceberam que o calor dos últimos 50 anos é incomum dentro dos padrões dos últimos 1.300 anos. O derretimento provocado pela última vez em que as regiões polares foram significativamente aquecidas forçou o aumento de quatro a seis metros no nível do mar. Para o IPCC, a camada de gelo da Groenlândia já corre perigo: seu desaparecimento somaria mais sete metros aos oceanos.
- Esse aumento no nível do mar afetaria muito as áreas costeiras. No Rio de Janeiro, por exemplo, acredito que parte de Copacabana ficaria sob a água - diz André Madeira, meteorologista do Clima Tempo.
Madeira aposta que, com o aquecimento global, o Rio sofrerá com períodos mais quentes e secos, intercalados com tempestades severas.
- Com certeza as ilhas do Pacífico vão sumir - completa.
No relatório anterior do IPCC, de 2001, a ação humana tinha 66% de chances de ser responsável pelo aquecimento global. Seis anos depois, o índice passa para 90%. A expressão usada pelo relatório para descrever o impacto humano, "chances muito altas", foi escolhida depois de questionamentos de nações como China e Estados Unidos, grandes responsáveis pelas emissões.
- Demoramos para chegar a um consenso em tópicos polêmicos, mas o texto final está de acordo com as expectativas dos governos - explica Gabriele
Entre os sinais que convenceram cientistas e burocratas sobre o perigo do fenômeno podem ser listadas a seca prolongada na Austrália e Amazônia e as ondas de calor na Europa.
- Diante dessa emergência, não há tempo para meias medidas. É hora de uma revolução - alertou o presidente francês Jacques Chirac. - Estamos no portal histórico do irreversível.
O texto divulgado ontem é a primeira parte de quatro documentos que serão lançados ao longo do ano. Schaeffer explica que o próximo trecho, que chega em abril, tratará dos impactos do aquecimento na perda da biodiversidade, no aumento do número de casos de doenças como a dengue e contaminação de recursos hídricos.

JB, 03/02/2007, Saúde, Ciência & Vida, p. A24

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