VOLTAR

Hora de semear vento para colher energia

CB, Opinião, p. 19
Autor: FURTADO, Marcelo; ROSA, Luiz Pinguelli; TEIXEIRA, Paulo
05 de Ago de 2008

Hora de semear vento para colher energia

Marcelo Furtado
Diretor-executivo do Greenpeace Brasil
Luiz Pinguelli Rosa
Professor da Coppe/Universidade Federal do Rio de Janeiro e secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
Paulo Teixeira
Deputado federal (PT-SP)

A corrida mundial por recursos naturais, principalmente energia, obriga a sociedade a enfrentar o dilema da sustentabilidade ou do desenvolvimento econômico a qualquer preço. Ao mesmo tempo, o aquecimento global e seus impactos socioambientais e financeiros ocupam cada vez mais espaço na agenda política nacional e internacional.

Ao longo da sua história, o Brasil construiu uma matriz energética limpa se comparada a outras economias desenvolvidas e em desenvolvimento. Mais de 80% da energia elétrica gerada no país hoje provêm de fontes renováveis - nos demais países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 15,3% da matriz é renovável.

Para continuar crescendo, o Brasil deve conciliar o aumento da demanda de energia com a redução das emissões de gases de efeito estufa do setor energético, o que implica diversificar a matriz com o uso de fontes renováveis. A exploração da biomassa, dos ventos, do potencial solar, do uso de biodigestores e de políticas de eficiência energética é chave para viabilizar o desenvolvimento sustentável do país, como indicam estudos realizados pela academia e sociedade civil, como o relatório Revolução Energética, do Greenpeace.

De acordo com o Atlas Eólico Nacional, do governo federal, o potencial de geração de energia a partir dos ventos, no Brasil, é de 143 mil MW - número que aborda apenas a geração em terra e não contempla o potencial de turbinas eólicas instaladas no mar. A energia eólica já é uma tecnologia de geração de larga escala madura, segura e competitiva no mercado global.

A indústria eólica internacional movimenta 30 bilhões de euros/ano, com taxas de crescimento de 27% ao ano nos últimos dois anos. A capacidade instalada mundial pulou de 59 mil MW em 2005 para 94 mil MW no fim de 2007. A Índia já ocupa a quarta posição no ranking mundial de geração eólica, e a China, que hoje tem o quinto maior mercado do mundo, dobrou sua capacidade entre 2005 e 2006.

A energia eólica é comparativamente mais econômica do que gerações de grande porte a partir de térmicas nucleares ou fósseis. Relatório da Associação Brasileira de Energia Eólica apontou a competitividade desse tipo de energia se comparada às térmicas fósseis no Brasil. O estudo conclui que a implantação de usinas eólicas reduziria o custo de operação do Sistema Integrado Nacional em até R$ 4 bilhões no período de 2009 a 2011 e diminuiria o risco de racionamento.

Em um país com as dimensões continentais do Brasil, regionalizar as estratégias de aproveitamento energético é prerrogativa fundamental para garantir estabilidade no fornecimento de eletricidade e desenvolvimento regional. O potencial eólico do Nordeste é de 75GW, mais da metade do índice nacional, e 25GW concentram-se no Ceará. A região tem um regime de ventos complementar ao de chuvas: quando chove menos e o nível dos reservatórios das hidrelétricas diminui, o volume de ventos é maior. Tais condições favorecem o estabelecimento de uma política que aproveite essa complementaridade hídrico-eólica e mantém os reservatórios a níveis seguros, mesmo em períodos de seca.

A energia eólica oferece alternativa concreta e imediata à implantação de termelétricas a combustíveis fósseis na Região Nordeste. O funcionamento das termelétricas depende de matéria-prima poluente, cara, escassa e de fornecimento instável. Além disso, acarreta graves impactos ambientais e altos custos no mercado spot. Outro atrativo é a relativa rapidez com que os parques eólicos podem ser instalados - dois anos depois do início das obras as usinas podem entrar em operação.

Um passo importante para aproveitar o potencial eólico nacional foi dado em meados de junho, em Fortaleza (CE). A capital cearense foi palco de um encontro histórico que reuniu os governos do Nordeste, altos executivos do Banco do Nordeste e do BNDES, representantes da iniciativa privada e da sociedade civil organizada para discutir a viabilização da energia eólica com o o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. Na ocasião, o ministro afirmou que haverá leilão de energia eólica no início de 2009, mas não detalhou o montante de energia que será negociado nem falou sobre a regularidade dos leilões seguintes.

A energia eólica está pronta para crescer na matriz elétrica brasileira. Explorar essa tecnologia ampliará as vantagens do Brasil na geração de energia limpa. O país pode ter papel determinante no desenvolvimento de um grande parque industrial destinado a atender à demanda mundial do setor eólico por turbinas e outros equipamentos. Não devemos ignorar essa oportunidade e abrir mão desse verdadeiro salto tecnológico. Semear vento hoje é ter a certeza de colher frutos sustentáveis no futuro.

CB, 05/08/2008, Opinião, p. 19

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.