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A hora da verdade do clima

O Globo, Revista O Globo, p. 38-40
13 de fev de 2005

A hora da verdade do clima

Por Roberta Jansen e Janaína Figueiredo, de Buenos Aires

Oito anos depois de ter sido assinado e após quase ser abandonado por falta de apoio, entra, finalmente em vigor dia 16 o Protocolo de Kioto - o tratado internacional que prevê a redução das emissões de gases do efeito estufa. O acordo determina que países desenvolvidos devem diminuir em 5,2% suas emissões poluentes (em relação aos valores de 1990) até 2012. Embora as reduções previstas no protocolo sejam consideradas pouco significativas, o acordo tem um peso simbólico enorme: é a primeira vez que governos se unem para combater o aquecimento global.
E o problema é grave. Diversos estudos já apresentaram provas de que a temperatura da Terra está, de fato, aumentando em razão da atividade humana. Pior: uma pesquisa divulgada no fim do mês passado por especialistas da Universidade de Oxford sugere que o aumento pode ser de até 11 graus Celsius, o dobro do que se imaginava.
Um outro estudo, encaminhado ao G-8, revela que em menos de dez anos o aquecimento global chegaria a um ponto irreversível. A conseqüência seria o aumento considerável de secas e enchentes, falta de água, desaparecimento de florestas, aumento do nível do mar e intensificação de doenças tropicais.
- Os resultados são muito preocupantes, há muitas evidências de que o clima já está mudando e não há como ficar muito tranqüilo - afirma o meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). - O protocolo é um primeiro passo simbólico, mas é muito importante porque vai ensejar uma busca de desenvolvimento tecnológico para geração de energia limpa para um mundo climática e ambientalmente mais sustentável.
O Glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, considera a entrada em vigor do Protocolo de Kioto uma vitória.- É bobagem dizer que não adianta nada - diz o cientista. - O tratado é uma vitória, um início. Se deixarmos para lá, vai até a catástrofe. Mas, claro, chegará um momento em que teremos que tomar decisões sobre nossas políticas econômicas. O atual modelo econômico do mundo se mostra inviável.Simões, que acaba de voltar da Antártica onde estudou o impacto das mudanças climáticas, lembra que já há diversos indícios fortes de desequilíbrio na região que abriga 90% do gelo do planeta. Ele ressalva que o impacto ocorre na Península Antártica, onde o degelo vem se intensificando nos últimos anos, o que poderia contribuir com até 10% do aumento do nível do mar. A mudança afetaria também a circulação atmosférica e oceânica, provocando a ocorrência cada vez mais freqüente de anomalias climáticas. Mais gelo no interior da AntárticaNo interior do continente, entretanto, o efeito é inverso: com o aquecimento do planeta, o gelo ali deve aumentar.- Os cientistas acham que o aquecimento será suficiente para diminuir quase ao mínimo o gelo marinho que se forma sazonalmente ao redor do continente antártico - explica o pesquisador. - Sem esse gelo, a região onde a água evapora para precipitar no interior vai estar muito mais próxima do continente. Portanto, o interior da Antártica vai ficar mais úmido, ou seja, vai cair mais neve. Cientistas e negociadores do acordo concordam que a não adesão dos EUA (os maiores poluidores do mundo, responsáveis pela emissão de 35% do CO2 lançado na atmosfera) ao protocolo é um problema sério. - Kioto será menos eficiente sem os EUA. Mas acreditamos que o governo americano vai terminar se unindo aos demais países. Não podemos esquecer que os EUA demoraram cerca de 50 anos para aderir à Organização Mundial de Comércio. Esperemos que neste caso o processo seja mais rápido - afirma o embaixador argentino Raúl Estrada Oyuela, representante especial para Assuntos Ambientais da chancelaria argentina e um dos artífices da assinatura do protocolo.Os cientistas apostam que haverá grande pressão sobre o país.
- A primeira pressão será tecnológica - sugere Carlos Nobre. - Daqui a alguns anos as tecnologias desenvolvidas em Europa, Japão e Canadá serão menos poluidoras e terão o mesmo custo. E os EUA terão tecnologia obsoleta.A pressão será também política, avalia Nobre, como visto na semana passada, quando o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, aliado de George W. Bush, exortou os EUA a se comprometerem mais com os problemas climáticos.
- Finalmente, haverá a pressão interna, com diversos estados americanos aprovando metas de redução de emissões.Brasil, China e Índia (que estão entre os dez maiores poluidores do planeta) deverão ser pressionados a também estabelecer metas de redução numa segunda etapa do protocolo, a partir de 2012. Por enquanto, a entrada em vigor do protocolo é considerada uma importantíssima vitória dos países em desenvolvimento em sua luta por conseguir que sejam os países ricos os que assumam compromissos para reduzir suas emissões.- O protocolo é um instrumento que reconhece, de forma muito clara, a diferença de responsabilidades de países como o Brasil - disse ao GLOBO o chefe da Divisão de Política Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Itamaraty, André Corrêa do Lago. - A agenda ambiental é importante para os países quando suas populações já resolveram problemas básicos de saúde e alimentação.Brasil pode lucrar com acordoJá o embaixador argentino Raúl Estrada Oyuela sustenta que países como Brasil e China devem iniciar uma negociação para assumir, no futuro, algum tipo de compromisso para reduzir suas emissões:- A prioridade destes países deve ser o crescimento e nada deve ser feito para limitar isso. Mas todos deverão ajudar no combate ao aquecimento.Para o Brasil, Kioto pode render grandes frutos graças à iniciativa, lançada pelo próprio governo brasileiro, do Mecanismo do Desenvolvimento Limpo (MDL). Trata-se de um instrumento que permite que países desenvolvidos possam reduzir suas emissões - como estabelece o protocolo - realizando projetos nos países em desenvolvimento. O governo brasileiro já assinou memorandos de entendimento com Itália, Holanda, Canadá e Espanha, o que permitirá transferência de recursos e tecnologia.

O Globo, 13/02/05, Revista O Globo, p.38-40

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