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'Hoje premiam-se a corrupção e o roubo de terras públicas na Amazônia', diz Marina Silva

O Globo, Sociedade, p. 29
Autor: SILVA, Marina
03 de jan de 2020

'Hoje premiam-se a corrupção e o roubo de terras públicas na Amazônia', diz Marina Silva
Líder da Rede afirma que Bolsonaro é 'inconscientemente incompetente' ao tratar de meio ambiente e direitos humanos

Renato Grandelle

Marina Silva é direta: não vê a "mínima tendência de melhora" na política ambiental brasileira em 2020. Depois de recolher-se nos primeiros meses do mandato de Bolsonaro, voltou à esfera pública em maio, quando, aliada a outros ex-ministros de Meio Ambiente, divulgou uma carta denunciando o desmantelamento de políticas públicas da pasta. Em seguida, o grupo enviou um documento ao Congresso, reivindicando o fim de projetos que incentivassem o desmatamento na Amazônia. E, em dezembro, a líder da Rede Sustentabilidade participou de protestos contra o governo na Conferência do Clima (COP-25), em Madri.

Em entrevista ao GLOBO, Marina afirma que o desempenho da delegação brasileira na conferência, chefiada pelo ministro Ricardo Salles, foi "horroroso". Também avalia que o governo Bolsonaro ignora o aquecimento global por conveniência política, e que a mudança de rumo na área ambiental pode dificultar a ratificação do acordo comercial do Mercosul com a União Europeia.

A senhora acredita ser possível manter uma coexistência entre o ambientalismo e o agronegócio?

Sim, ambos podem ser integrados e altamente rentáveis. Entre 2004 e 2012, o desmatamento caiu 83%, e a receita anual do agronegócio aumentou, em média, 2%. E havia também uma agenda definida para a gestão de recursos sólidos e outra sobre a perda de biodiversidade.

Como é atualmente a interação entre ambos setores?

Infelizmente não é harmônica. Sempre houve uma fração do agronegócio que reage às políticas ambientais. Quando fui ministra do Meio Ambiente (2003-2008), representantes do agronegócio contestaram o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da mesma forma como ocorreu em 2019, no caso dos dados sobre as queimadas na Amazônia. A diferença é que eu defendi o Inpe, enquanto Bolsonaro o entregou às feras. A agressão a órgãos que trabalham com o meio ambiente culmina em tragédias como o óleo nas praias do Nordeste e o rompimento da barragem em Brumadinho (MG).

Existe uma perspectiva de melhora no ano que vem do governo Bolsonaro?

Na política ambiental, não consigo ver a mínima tendência de melhora. Começaremos 2020 com uma medida provisória (MP 910, conhecida como MP da Regularização Fundiária) que transformará grileiros em proprietários rurais. Hoje premia-se a corrupção e o roubo de terras públicas na Amazônia com finalidade eleitoral. É, também, uma forma de se perpetuar no poder e incitar a violência.

A senhora esteve em dezembro na Conferência do Clima (COP-25), em Madri. Viu alguma diferença, comparando com as convenções em que foi à época em que era ministra?

Fui abordada por delegados de outros países, que não entendiam por que o Brasil se colocou em uma situação tão constrangedora ao pedir dinheiro na discussão que pretendia criar as regras do mercado internacional de carbono. Outra diferença foi a falta de diálogo entre os negociadores do governo e a sociedade civil. Não vi qualquer interação.

Como a senhora avalia o desempenho do país na COP?

Vergonhoso. Não ajudamos a viabilizar o mercado de carbono, não divulgamos metas mais ambiciosas contra a emissão de gases estufa. Chegamos a Madri como o país que queima a Amazônia, que deixou o desmatamento crescer 29,5%, que viu lideranças indígenas serem assassinadas. Estava ali o governo que desmontou o Fundo Amazônia, só porque não concordava com seu mecanismo de governança, que exigia apoio a atividades sustentáveis.

Por que a existência das mudanças climáticas e da influência da ação humana sobre elas é contestada por diversas autoridades no governo?

O governo adota qualquer discurso que defenda a expansão da fronteira agrícola. O negacionismo é uma ação política deliberada, que fornece uma justificativa para desmontar ou interromper as políticas que combatem as emissões de gases estufa em diversas atividades econômicas, sobretudo na indústria e no uso da terra.

O presidente Donald Trump também ataca o aquecimento global. Ele é uma inspiração para Bolsonaro?

Sim, mas há uma diferença. Trump sabe os danos que provoca ao negar a existência do aquecimento global. Quanto a Bolsonaro, não sei se ele tem este conhecimento. Ele é inconscientemente incompetente sobre diversos assuntos, não apenas o meio ambiente, mas também direitos humanos e questões indígenas. Tem uma visão completamente fora do contexto do que a ciência, o bom senso e a ética apontam.

E como a senhora vê o desempenho do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles?

Seu trabalho à frente do ministério é fruto de uma pauta política, em completo descaso com algo que já está causando tanto sofrimento à sociedade - fenômenos cada vez mais corriqueiros, como o aumento da temperatura, a desertificação e o avanço dos oceanos. Julgando a formação acadêmica que ele diz ter, Salles não deve desconsiderar a existência das mudanças climáticas.

Além da criticada agenda ambiental, o governo também adotou um discurso com forte conotação religiosa. O que a senhora (que é evangélica) pensa sobre isso?

O presidente tem direito de ter sua religião, mas o Estado é laico. O governo não pode impor a sua fé à sociedade. Fui candidata e jamais fiz isso. O problema é a instrumentalização da fé pela política e da política pela fé. A (ex-presidente) Dilma (Rousseff) tinha apoio de uma militância religiosa que hoje está com o Bolsonaro. Evangélicos já foram muito perseguidos no passado. Eu, por exemplo, visitei uma cidade em que as pessoas, para ter emprego, tinham que aderir ao catolicismo. Trata-se da polarização provocada pelo retórica do ódio e da intolerância.

O aumento do número de deputados ambientalistas no Parlamento Europeu pode influenciar a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul?

Já está influenciando. O acordo só será ratificado com o aval de todos os países que compõem a UE. E várias nações levantaram questionamentos sobre a política ambiental brasileira. Elas são signatárias do Acordo de Paris e se incomodam porque o governo brasileiro não parece comprometido com a redução da emissão de gases estufa.

Sete ex-ministros do Meio Ambiente, entre eles a senhora, divulgaram documentos este ano, denunciando o desmonte da pasta e pedindo a moratória de projetos no Congresso que ameaçam a Amazônia. Como é o diálogo entre vocês?

Nós temos nos falado porque sentimos a necessidade de uma ação conjunta. Tentamos agir da forma mais impessoal possível. Não é o meu plano, ou o da Izabella (Teixeira), ou o do (Rubens) Ricupero (ambos ex-ministros do Meio Ambiente). É uma causa muito maior do que nossas diferenças.

O Globo, 03/01/2020, Sociedade, p. 29

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