OESP, Metrópole, p. A30
21 de Set de 2014
Híbrido pode ser nova ameaça para palmeira juçara
Segundo cientistas, a concorrência desigual entre as plantas pode fazer com que a espécie nativa perca espaço na Mata Atlântica
Fábio de Castro
Pressionada há décadas pela extração ilegal de palmito, a palmeira juçara pode estar ameaçada por estratégias traçadas justamente para salvá-la. O principal exemplo é a espécie híbrida que surgiu da mistura entre a juçara e o açaí da Amazônia. Cientistas temem que a nova palmeira invada o espaço da juçara na Mata Atlântica. A concorrência desigual contribuiria com o desaparecimento da palmeira nativa.
Hoje, a juçara só é encontrada com relativa abundância no interior de unidades de conservação, em áreas de difícil acesso. Por seu grande valor de mercado, o palmito que produz a torna alvo de uma intensa exploração predatória há pelo menos 50 anos. Segundo a Polícia Ambiental, entre 2009 e 2013, foram apreendidos no Estado de São Paulo 98.279 unidades de palmito in natura e 87.672 vidros de palmito ilegais.
Muitas estratégias foram pensadas para diminuir a pressão sobre a palmeira, mas nenhuma parece ter sido capaz, até agora, de reduzir o corte ilegal. Embora não haja consenso, as alternativas mais defendidas para salvar a juçara são a substituição pela cultura da palmeira pupunha ou o manejo da juçara para a exploração de sua fruta, semelhante à do açaí.
Colocada em prática há mais de 30 anos, a criação da palmeira híbrida deixou de ser uma solução para se transformar em potencial ameaça, na opinião de especialistas.
A primeira experiência de hibridização foi feita no Vale do Ribeira, região com as maiores reservas de palmito juçara. Em 1973, o agricultor Jorge Tuzino, de 90 anos, trouxe as primeiras mudas de açaí para o bioma. Após 12 anos de persistência, usando abelhas para a polinização, Tuzino criou o híbrido entre as duas plantas.
"Ao contrário da juçara, o açaí sobrevive à extração do palmito, porque tem múltiplos troncos. O híbrido produz palmito claro e sem fibras, como o da juçara, mas pode ser explorado de forma não predatória. Além disso, ele não produz sementes, só flores. Sendo estéril, não afeta a juçara e não prejudica a mata", disse Tuzino.
Com cerca de 18 hectares, a propriedade de Tuzino em Miracatu (SP) é tomada por palmeiras de juçara, de açaí e do híbrido. O mesmo ocorre em sua outra propriedade, com 60 hectares. Ainda assim, ele acredita que a iniciativa "não deu certo". "Fiz tudo para preservar a palmeira juçara porque, sem ela, a Mata Atlântica não tem vida. Mas os ladrões roubam tudo e eu estou desistindo." Só nos últimos 15 meses, ele diz ter feito mais de 20 boletins de ocorrência. "Roubam até durante o dia. Cada quadrilha chega a cortar 5 mil palmeiras de uma vez."
Apesar das boas intenções de Tuzino, cientistas que estudam a juçara temem a iniciativa do ponto de vista biológico e ecológico. Para Dalva Matos, professora da UFSCar, ainda que não se reproduza, o híbrido pode ameaçara palmeira. "Se o híbrido se espalhar, os animais que comem a fruta da juçara passarão a se alimentar dele também. Isso diminui a dispersão da juçara, que ficaria cada vez mais escassa. Além disso, o híbrido tem vários caules, produzindo mais inflorescências. A competição com a juçara pode ser desigual." Entretanto, ainda faltam estudos que comprovem a hipótese.
Dúvidas. Segundo Dalva, ninguém confirmou que o híbrido seja estéril. Há incertezas sobre seus impactos na floresta. Ela participou de estudo sobre os riscos ecológicos da hibridização entre juçara e açaí, coordenado pela cientista Marilene Leão Alves Bovi, do Instituto Agronômico (IAC). A entidade havia realizado pesquisas de hibridização nos anos 1980. Mas o trabalho foi interrompido após a morte de Marilene no acidente de avião da Gol, que matou 156 pessoas na Amazônia em 2006. "Após a tragédia não retomamos a pesquisa." Teve ainda o roubo de palmeiras. "O IAC fez em 1973 uma área de plantio de juçara para pesquisas. Em 1993, fomos coletar os dados para reavaliação, mas as palmeiras haviam sido roubadas e o trabalho ficou sem conclusão."
O IAC abandonou as pesquisas com juçara e híbridos e se concentrou nos trabalhos sobre a pupunha, de acordo com as pesquisadoras Maria Luiza Tucci e Lilian Anefalos. Pesquisas confirmaram a possibilidade de que a pupunheira se tornasse um cultivo agrícola.
Mas para Raquel Pasinato, bióloga do Instituto Socioambiental, a substituição pelo palmito da pupunha também traz problemas. "É típico caso de monocultura. A pupunha vem com um pesado pacote de insumos químicos, que não é sustentável para a agricultura familiar. A pupunha pode até substituir o palmito, mas não vai trazer solução para o problema social do Vale do Ribeira."
Segundo Pedro Brancalion, da USP, o híbrido é uma aposta arriscada. A melhor solução para a juçara seria a exploração da polpa da planta, em vez do palmito. Ao gerar renda para comunidades locais, a estratégia evitaria a extração ilegal. "Quando as comunidades plantam juçara para extrair a polpa, precisam da árvore viva para gerar renda. Essa é a melhor proteção."
Replantio de palmeiras atrai animais de volta a quilombo em SP
Nascido na comunidade quilombola de Ivaporunduva, Vandir da Silva, 63 anos, testemunhou uma abundância de palmeiras juçara incomparável com o que se encontra hoje em áreas habitadas da Mata Atlântica. Situado no município de Eldorado (SP), no coração do Vale do Ribeira, o quilombo também tinha uma diversidade muito maior de pássaros e mamíferos. "Era tanta juçara que não parecia ter fim. Os cachos ficavam cheios de tucanos. Vinham macacos e porcos do mato. As onças apareciam para comê-los", disse Vandir.
No entanto, ao longo dos anos, a exploração intensa do palmito pelos próprios quilombolas reduziu drasticamente o número de palmeiras na região. "Comecei a cortar palmito quando eu tinha 10 anos. Hoje, quando eu penso na quantidade de palmeiras que eu derrubei, sinto até remorsos. Mas não havia outro jeito: era palmito na canoa e dinheiro no bolso", afirmou. Na década de 80, segundo ele, palmiteiros de fora da comunidade começaram a surgir. "Foi aí que sumiu tudo", disse.
Em 2002, um projeto de repovoamento da juçara foi organizado pelo Instituto Socioambiental no quilombo. "Temos 200 hectares bem repovoados. Hoje já vemos jacutingas, cotias e ouvimos os macacos por perto", declarou. Segundo ele, alguns vizinhos plantaram o híbrido de juçara e açaí. "Nós tentamos avisar o pessoal que o híbrido pode ser perigoso para a juçara. Aqui no terreiro, temos plantado pupunha". /F.C.
OESP, 21/09/2014, Metrópole, p. A30
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