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Herbário do Inpa ameaçado

A Crítica, Cidades, p. C5
24 de Fev de 2008

Herbário do Inpa ameaçado
Local necessita de reparos urgentes. Se isso não acontecer, acervo corre o risco de ser atacado por insetos e umidade

Antonio Ximenes
Da equipe de A Crítica

O herbário do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) reúne 25 mil espécies e 220 mil amostras de plantas. Trata-se do maior acervo vegetal da Amazônia. Essa riqueza corre risco de morte porque infiltrações atingem parte de suas estruturas no prédio dois, onde estão as samambaias, fungos e plantas indeterminadas, que ainda não foram identificadas. Portanto, muitas podem ser espécies novas, totalmente desconhecidas da literatura, o que seria uma perda irreparável para a ciência.
Como se não bastasse, faltam taxonomistas - especialistas que descrevem, nomeiam e organizam as espécies. No momento, há apenas oito. Seriam necessários, Do mínimo, 40, ou seja, cinco vezes mais.
Com isso, o herbário, que tem 54 anos - foi o primeiro dos dez acervos existentes na instituição - , necessita, urgentemente, de uma reforma para que a umidade não consuma anos de estudos dos pesquisadores, na maior floresta tropical do planeta.
O herbário é o fiel depositário de mais de dois mil tipos nomenclaturais (novas espécies descobertas e registradas na literatura mundial). Nos quatro primeiros armários do herbário, logo na entrada, fica guardado esse tesouro da botânica brasileira.
Mas nem tudo é preocupação. O herbário registra um dos mais sofisticados sistemas de busca, pois está praticamente totalmente informatizado. Por meio do computador pode-se acessar a maioria de suas plantas catalogadas.
Outras áreas do acervo, especialmente no prédio um, onde está o núcleo do herbário, as condições de climatização são boas, mas não ainda excelentes. Ocorre, que os herbários de Nova Iorque e de Londres, os mais complexos em diversidade de espécies globais, mas não da floresta amazônica, estão, à anos luz em relação ao do lapa no que se refere à tecnologia de controle da umidade e das condições gerais de climatização. Mas onde está a maior biodiversidade do planeta? na Amazônia e não na Europa ou nos Estados Unidos, por isso que o herbário de Manaus precisa de investimentos do Governo Federal para não ter de passar pelo dissabor de ver o seu acervo, um dos mais valiosos do mundo no gênero, ser atacado por formigas, insetos, mas, principalmente, pela mortal umidade.

Destaque
A folha da Coccoloba tem 2 metros de comprimento por 1,32 metro de largura. A que está na entrada do herbário principal do Inpa foi coletada na Floresta Nacional do Jamari, no norte de Rondônia, em 1993, pelo pesquisador Carlos Alberto Cid Ferreira.

Carpoteca reúne frutos

A Carpoteca, acervo de frutos do lapa, tem 2,5 mil espécies catalogadas. Sua curadora é a taxonomista Maria de Fátima Figueiredo Melo, uma das mais respeitadas profissionais da área, pelo rigor científico de seus trabalhos. Sua equipe é formada, basicamente, por estagiários, que a auxiliam a organizar o material coletado. Disposta a estruturar uma exposição permanente de frutos da Amazônia, ela trabalha com o excedente de frutos do herbário e tem se mostrado uma administradora impecável. Mas gostaria de ter armários de aço, em substituição aos de madeira, lupas potentes para observação do material e uma manutenção mais rigorosa do sistema de ar condicionado.
Sua estagiária Karla Yamagata, 19, disse que a experiência de manusear os frutos da Carpoteca é o que de mais importante acontece em sua vida acadêmica.

Personagem
Dionísio Fernandes

Seu Dionísio Fernandes Coelho, 77, é o mais experiente mateiro do Inpa. Mesmo aposentado, é considerado uma lenda entre os botânicos. O curador do herbário, Carlos Franciscon 45, o tem na mais alta estima. "0 conhecimento dele sobre a floresta é um tesouro", comentou.
Em sua simplicidade, seu Dionísio disse que sente falta das longas caminhadas pela mata. Dos tempos em que acompanhava os "gringos" letrados em áreas inóspistas. "Minha universidade é a floresta. Conheço as plantas desde menino."

A Crítica, 24/02/2008, Cidades, p. C5

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