CB, Política, p. 4
08 de Out de 2007
A herança dos militares
O presidente Lula retoma grandes obras lançadas pelo regime
autoritário, como Angra 3, Transamazônica e eclusas de Tucuruí
Lúcio Vaz
Da equipe do Correio
O ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, preso quando enfrentou a ditadura militar, trabalha agora para concluir grandes obras lançadas pelos generais. A mais antiga delas é a Transamazônica, anunciada em 1970, na época do "milagre brasileiro", período de crescimento econômico aliado ao aumento da concentração de renda e da pobreza. Também se arrastam até hoje as obras das eclusas de Tucuruí e a usina termo nuclear Angra 3 , do finalzinho do regime militar. Lula também quer terminar a grande obra iniciada no governo do aliado José Sarney, a ferrovia Norte-Sul. Reportagem publicada ontem no Correio mostrou que 15 grandes obras, com orçamento total de R$ 17 bilhões, se arrastam há 15, 20 e até 50 anos.
A usina Angra 3, com potência de 1.350 MW, teve início em 1983.
Obra polêmica, pelas conseqüências ambientais, foi paralisada em 1986. Mas a União já havia investido US$ 750 milhões. Os equipamentos importados estão estocados há 20 anos na usina Angra 1. O governo Lula decidiu concluir a obra a partir do próximo ano. Haverá nova polêmica com os ambientalistas.
Lançada pelo governo gaúcho em 1981, a termoelétrica Candiota 3, com 350 MW, movida a carvão mineral, foi paralisada em 1985. Os equipamentos importados ficaram estocados em depósitos da França. Dez anos depois, a usina foi federalizada e preparada para a privatização.
Mas a única tentativa de venda fracassou em 1998. No governo Olívio Dutra, os equipamentos foram trazidos para o Brasil e armazenados em Candiota (RS).
O projeto foi assumido pela Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE), empresa controlada pela Eletrobrás. A CGTEE vendeu a energia em leilão e viabilizou a construção da usina, com financiamento de US$ 430 milhões do China Bank. As obras iniciaram neste ano, e a entrada em operação está prevista para 2009.
Norte-Sul
Lançada em 1987, com orçamento de R$ 3 bilhões (a preços de hoje), a Ferrovia Norte-Sul foi paralisada dois anos após, por falta de dinheiro. Ficou pronto apenas o trecho de 96 quilômetros entre Açailândia e Imperatriz, no Maranhão. Os trabalhos foram retomados em 1994. Até 2002, já no governo Fernando Henrique Cardoso, foram construídos mais 119 quilômetros, entre Imperatriz a Aguiarnópolis (TO). No governo Lula a ferrovia já recebeu R$ 700 milhões. A subconcessão de um trecho para a Companhia Vale do Rio Doce vai gerar R$ 1,47 bilhão.
Será feito o trecho Araguaína-Palmas até o final do próximo ano, promete o governo.
Iniciada em 1970, no governo Médici, a Transamazônica foi projetada para 5 mil quilômetros, mas não chegou à metade disso, quando foi interrompida em 1974, ainda sem a pavimentação asfáltica. A maior parte está intransitável e tomada pela mata.
Em 2000, foi iniciada a pavimentação no trecho Marabá-Altamira-Itaituba, com 1.132 quilômetros. Mas faltou dinheiro de novo e foram feitos apenas 166 quilômetros. Paralisada em 2002 por falhas no licenciamento ambiental, a Transamazônica foi retomada em junho deste ano. Lula incluiu a obra no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciou investimentos de R$ 950 milhões e prometeu a sua conclusão até o final de 2010.
A construção das eclusas de Tucuruí (PA) teve início no governo Figueiredo, em 1981. Interrompida em 1989, por falta de recursos, foi retomada em 1998. O empreendimento já consumiu R$ 654 milhões. Retomada em abril deste ano, deve receber mais R$ 611 milhões, sendo concluída em 2010.
O secretário-executivo do Ministério dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, explica o atraso nesses projetos nas duas últimas décadas: "O país entrou em um processo de ajustamento fiscal pesado, com reflexos na área de infra-estrutura. As grandes obras perderam fôlego, e até pararam. Somente agora estamos retomando o ritmo dos investimentos. Obra custa dinheiro. Não adianta lançar o projeto sem ter a garantia das dotações orçamentárias".
CB, 08/10/2007, Política, p. 4
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