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Guerras arrasam paraísos naturais

O Globo, Ciência, p. 17
24 de Fev de 2009

Guerras arrasam paraísos naturais
Maioria dos conflitos armados atingiu áreas de grande biodiversidade

Gilberto Scofield Jr.

WASHINGTON. Não são apenas o aquecimento global e os processos não sustentáveis de crescimento em nações emergentes os principais inimigos para a preservação das regiões de maior diversidade biológica, segundo estudo publicado na revista científica "Conservation Biology". Na verdade, uma das maiores ameaças para estes ecossistemas - e para as sociedades que dependem diretamente de sua riqueza para viver - são as guerras e os conflitos civis. A pesquisa analisou o período de 1950 a 2000.

A constatação de que 80% das guerras ocorrem em áreas de riqueza biológica foi obtida após a comparação dos lugares onde ocorreram os grandes conflitos armados dos últimos 50 anos com as 34 regiões de biodiversidade em risco. Elas foram identificadas pela ONG Conservação Internacional a partir da aplicação do conceito de hotspots. Ele associa a riqueza biológica à vulnerabilidade da região.

Mas a preocupação dos pesquisadores não se limita à ameaça a conservação das espécies, algo quase impossível num conflito armado onde o que está em jogo, de um modo geral, é a conquista do poder, às custas do que for. O que o estudo deixa claro é que os conflitos destroem ecossistemas essenciais para a sobrevivência das populações locais.

- Essa conclusão surpreendente, de que os principais redutos de biodiversidade da Terra também são as regiões de maior conflito humano, nos diz que essas áreas são essenciais tanto para a conservação da diversidade quanto para o bem-estar humano - diz o presidente da Conservação Internacional e um dos autores do estudo, Russell A. Mittermeier. - Milhões de pessoas mais pobres no mundo vivem nestas áreas e dependem de ecossistemas saudáveis. Portanto, há obrigação moral, assim como responsabilidade social e política, de proteger esses lugares e os recursos e serviços que eles oferecem.

Segundo o estudo, mais de 90% dos principais conflitos armados - aqueles definidos como resultantes em mais de mil mortes - ocorreram em países que abrigam uma das 34 áreas de rica biodiversidade, enquanto 81% ocorreram na área propriamente dita. Ao todo, 23 regiões foram alvos de enfrentamentos.

- Esse estudo é fundamental nos processos de resolução de conflitos, derrubando de vez a tese da terra arrasada como a melhor estratégia para o pós-guerra - diz o cientista brasileiro Gustavo da Fonseca, que participou do estudo.

- Os países se recuperam mais rapidamente dos conflitos quando a biodiversidade é preservada, pois ela permite o reaproveitamento da mão-de-obra local na reconstrução.

Ele cita o conflito recente na Libéria. O país depois preservou as áreas de florestas, hoje aproveitadas em projetos que ajudam a economia a crescer mais rapidamente. Na época, a venda ilegal de madeira ajudou a financiar a guerra.

O Globo, 24/02/2009, Ciência, p. 17

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