CB, Ciência, p. 28
18 de Jul de 2009
Guardiões do cerrado
Sapos, cobras e lagartos são aliados dos cientistas no diagnóstico de como anda o meio ambiente. Dezesseis espécies de anfíbios e répteis estão ameaçadas de extinção
Tatiana Sabadini
Eles são os primeiros a enviar sinais quando alguma coisa está errada com a natureza. E as notícias não são boas. Como bioindicadores, os sapos determinam o que está acontecendo com o meio ambiente. Na lista do Centro de Conservação e Manuseio de Répteis e Anfíbios (RAM), 16 espécies estão ameaçadas de extinção e uma já foi extinta. Além disso, nove lagartos e cinco serpentes completam a lista. Durante toda esta semana, mais de 700 pessoas se reuniram na Pousada dos Pirineus, em Pirenópolis (GO), no Congresso de Herpetologia (1)para tentar mudar esse quadro. O objetivo é descobrir como preservar as espécies de anfíbios e répteis brasileiros. Cada indivíduo também pode fazer a sua parte na luta para a conservação desses animais.
"A primeira forma de conservação é o conhecimento, a população conhece muito pouco da fauna herpetológica", afirma Vera Lúcia Fineira Luz, chefe do RAM. O Brasil tem a maior diversidade de espécies de anfíbios no mundo - são 849 variações - e ocupa a terceira colocação na relação de países com maior riqueza de espécies de répteis, com 708 tipos,- apenas atrás da Austrália e do México. A maioria está localizada na Mata Atlântica e na Amazônia.
No cerrado, existem espécies raras difíceis de encontrar e que também estão ameaçadas, mas que, por enquanto, ainda não fazem parte da lista do RAM. Segundo a bióloga Débora Silvana, um terço das espécies de anfíbios do mundo está ameaçado. O principal motivo é a falta de habitat. O segundo maior causador é o fungo Batrachochytrium dendrobatides, que exterminou populações inteiras na América do Norte, mas que ainda não foi encontrado por aqui. "No cerrado, existem muitas espécies exóticas e a conservação é importantíssima. Um dos planos de ação que estamos discutindo é identificar áreas de conservação-chave e protegê-las", conta a bióloga, que comanda um projeto para saber os efeitos das mudanças climáticas nesses animais.
O desmatamento e a poluição são também ameaças aos anfíbios e aos répteis. Águas contaminadas podem fazer mal à pele de determinadas espécies de sapo. A destruição da mata acaba com o abrigo e a fonte de alimentos dos animais. No cerrado mais de 70% da área nativa foi desmatada. "Os lugares remanescentes são descontínuos e isso causa o isolamento de certas populações", explica Guth Berger Falcon Rodrigues, estudante de biologia da Universidade de Brasília (UnB). A falta de apoio às pesquisas também dificulta o trabalho dos biólogos para descobrir espécies e identificar o lugar onde algumas delas ocorrem.
O que fazer
Para contribuir com a conservação de anfíbios e répteis, a primeira dica é não adquirir animais ilegais. Tartarugas, sapos, lagartos e cobras precisam ter a autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a criação doméstica. "Quem tem um animal desse tem que ter consciência. Algumas pessoas desistem de criar o bicho e soltam na natureza. Isso causa um desequilíbrio no ecossistema, porque ele não pertence àquele ambiente, além disso o animal pode morrer", afirma Marcela Ayub, bióloga, gerente da coleção de herpetologia da Universidade de Brasília (UnB).
Se você encontrar uma cobra, ou lagarto no quintal, deixe o animal em paz. "Eles têm mais medo da gente, do que a gente deles. Muitas vezes eles só estão ali de passagem", afirma Guth Berger. Evite matá-lo ou pegá-lo para levá-lo a outro lugar. Se surgir alguma dúvida sobre o que fazer, ou sobre a espécie do animal, procure o Ibama. Os sapos, ao contrário da crença popular, são inofensivos. A história de que ao tocá-lo ele expele um veneno no olho, que pode até deixar uma pessoa cega, é apenas um mito popular. Portanto, conviva com os sapos, as cobras e os lagartos pacificamente.
Herpetologia
É a parte da zoologia que estuda os anfíbios e os répteis. Os especialistas da área analisam como vivem, como se reproduzem, qual habitat e o comportamento desses animais. Na lista, estão bichos como sapos, lagartos, serpentes e cobras.
Cuidado com o bicho de estimação!
A tartaruga da orelha vermelha é vendida em aquários e pode ser encontrada em feiras e lojas do DF. Antes de adquirir esse animal aquático, no entanto, é preciso saber se ele está legalizado pelo Ibama. As tartarugas são vendidas ainda filhotes e os biólogos alertam: elas podem chegar até os 30cm de comprimento e pesar até três quilos. Quando o filhote cresce, muita gente desiste de criar o animal e o liberta no meio ambiente, o que pode prejudicar a biodiversidade da região. Por isso, pense bem antes de levar um bicho desse para casa. Se você não quer, ou não pode mais criar sua tartaruga, procure o Ibama. Telefone: 3035-3472
CB, 18/07/2009, Ciência, p. 28
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