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Grupos estrangeiros terão 40% da produção brasileira de etanol até 2015

OESP, Negócios, p. B16
04 de Nov de 2010

Grupos estrangeiros terão 40% da produção brasileira de etanol até 2015
Crescimento. Projeção feita pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar em congresso na Suíça leva em conta a velocidade da entrada do capital estrangeiro no setor no País: participação de grupos de fora passou de 7% da produção em 2007 para os atuais 22%

Jamil Chade Correspondente / Genebra

Nos próximos cinco anos, 40% da produção brasileira de etanol estará nas mãos de estrangeiros. A projeção foi apresentada ontem pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) no Congresso Mundial do Etanol, que reúne em Genebra as maiores indústrias de biocombustíveis.
A projeção foi considerada por empresários como o melhor espelho da revolução silenciosa que sofre o setor no mundo. Após dois anos de uma crise sem precedentes, os produtores de etanol passam por uma profunda reestruturação. A liderança de aquisições e fusões, porém, não está nas mãos de grupos agrícolas, mas sim de grandes empresas petroleiras do mundo.
Ontem, Shell, BP, Petrobrás e outras multinacionais do setor de energia anunciaram que se preparam para fazer investimentos substanciais nos próximos anos no setor de etanol. Para elas, o biocombustível é a opção "mais realista" para complementar o petróleo nos próximos 30 anos e, nessa estratégia, o Brasil é o principal alvo.
"Para as multinacionais de energia, o etanol é visto como uma fonte de energia mais acessível que o petróleo no Ártico, as reservas nos países da Opep ou a gasolina da Venezuela", admitiu James Primrose, chefe de estratégia da BP Biocombustíveis. "Estamos vendo a entrada das multinacionais do petróleo no etanol e isso promoverá uma mudança enorme no setor", disse Alexis Duval, diretor financeiro da francesa Tereos.
"Na prática, estamos vendo o nascimento de um novo setor", disse Christoph Berg, gerente da consultoria F.O. Licht. O Brasil, segundo consultores, multinacionais e usineiros, está sendo o campo de provas dessa transformação. Em cinco anos, cem usinas se somaram às trezentas que já existiam no País e os investimentos chegaram a US$ 20 bilhões. O resultado foi uma ampliação da participação do capital internacional no setor considerado até pouco tempo como carro-chefe da diplomacia comercial do presidente Lula.
"Em 2007, apenas 7% do setor do etanol do Brasil estava em mãos estrangeiras. Nossa previsão para 2010 era de que essa taxa chegaria a 12%. Mas o que vimos foi que o número hoje já é de 22%", disse o representante chefe da Unica para a União Europeia, Emmanuel Desplechin.
Essa tendência vai continuar e até se aprofundar. "Nos próximos cinco anos, a projeção é de que 40% do setor seja já internacionalizado no Brasil", destacou. Segundo ele, os investimentos desde 2005 permitiram uma expansão da produção do etanol de 70% no País.
Consolidação. Outra tendência que deve ser acelerada é a da consolidação do setor. O processo ganhou velocidade nos últimos dois anos diante da crise e do fato de que muitos usineiros não sobreviveram. Mas, hoje, os dez maiores grupos que atuam no Brasil controlam apenas 28% da produção.
A Petrobrás já prometeu investir US$ 3,5 bilhões em etanol até 2014, principalmente em alianças com grupos estrangeiros. Segundo Marcelo Messeder, diretor da Petrobrás Biocombustível, a meta é a de ter uma expansão na produção de 193% em quatro anos. Já as exportações aumentariam 135% nesse período.
Um dos contratos fechados neste ano pela Petrobrás foi com a Tereos. Ambas investirão US$ 2,4 bilhões até 2013 para transformar a Guarani, controlada pela Tereos, em uma líder no setor.
Outra gigante que aposta no etanol no Brasil é a Shell, que investiu US$ 12 bilhões em uma joint venture com a Cosan para criar a primeira multinacional do setor. Em entrevista ao Estado, Luis Scoffone, vice-presidente da Shell para energias alternativas, admitiu que a multinacional busca novas usinas para comprar. Segundo ele, o investimento anunciado até agora é apenas "uma parte da história". "Nossas metas vão bem além do Brasil", afirmou.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101104/not_imp634372,0.php

Etanol nacional consegue 'vitória' nos Estados Unidos

Renée Pereira

A decisão dos californianos de rejeitaram nas urnas uma proposta que pretendia suspender a lei aprovada em 2006 pelo governador Arnold Schwarzenegger para conter a emissão de gases poluentes foi interpretada como mais uma vitória para o etanol brasileiro. Só nesse Estado americano, o consumo de combustível é maior que em todo o Brasil, segundo o representante da Unica, Joel Velasco.
Para atender às metas do programa de redução de emissões, a Califórnia terá de aumentar o consumo de etanol, o que pode abrir espaço para o Brasil. Além dessa decisão, a partir do dia 15 o Congresso americano começa a discutir se renova ou não a tarifa de importação do combustível e o subsídio dado ao etanol de milho. O espaço para a definição é curto. Serão apenas duas semanas antes de o Congresso entrar em recesso.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101104/not_imp634373,0.php

Brasil contesta regras europeias para o etanol

Jamil Chade correspondente / Genebra

Usineiros brasileiros atacam a proposta de lei da União Europeia para estabelecer critérios ambientais para a entrada de etanol no mercado europeu e pedem que parte do projeto seja abandonado. Ontem, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) questionou oficialmente a política de Bruxelas para o comércio do etanol e deixou claro que, se a UE seguir com seu projeto, o Brasil poderia levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Nessa briga, os usineiros brasileiros ganharam o inesperado apoio de multinacionais europeias, como Shell e BP, que têm pesados investimentos no País.
A UE quer estabelecer uma lei que só permitiria a importação de etanol produzido de forma sustentável. O exportador brasileiro teria de provar que o etanol representa economia de pelo menos 35% nas emissões de CO2 em comparação com a gasolina. Na Alemanha, a exigência já começa a valer em 2011.
Por essas contas, o etanol de cana produzido no Brasil não seria afetado, já que a redução de emissões de CO2 seria equivalente a 71%. O que o Brasil teme é que esse número seja depois manipulado no Parlamento Europeu. "No Parlamento, não é a ciência que conduz o processo, é a política. O número final pode acabar sendo um leilão", afirmou o representante chefe da Unica para a União Europeia, Emmanuel Desplechin.
Os usineiros brasileiros criticam também os estudos feitos pela UE. Na opinião deles, a ciência não está madura para justificar uma nova legislação e os resultados do levantamento da UE mostram que as discrepâncias sobre o impacto ambiental do etanol são tão profundas que desacreditam o próprio estudo. "Qualquer política pública baseada em resultados tão contestáveis poderia ser facilmente questionada na OMC", alertou Desplechin.
Ontem, em um documento de 16 páginas entregue à UE, os brasileiros pediram formalmente a revisão do cálculo do impacto ambiental do etanol e o adiamento de qualquer imposição de leis. "Estamos ao lado do Brasil nesse ponto e achamos que a proposta da UE pode ser muito prejudicial para a construção de um mercado global de etanol", afirmou Luis Scoffone, vice-presidente da Shell para energias alternativas. Rob Vierhout, presidente da Associação de Bioetanol da Europa, admitiu que projeto da UE é falho. "O risco de briga na OMC é real." Ele chamou as exigências europeias de "prematuras".

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101104/not_imp634374,0.php

Multinacionais investem em usinas de biodiesel no Brasil
Gigantes estão fazendo investimentos em várias regiões brasileiras, de olho na facilidade de obtenção da soja

Eduardo Magossi

As grandes tradings multinacionais de commodities estão descobrindo o mercado brasileiro de biodiesel. Em menos de duas semanas, gigantes como Cargill, ADM e Noble anunciaram investimentos na construção de usinas de biodiesel em várias regiões brasileiras. Também nas últimas semanas, a Brasil Ecodiesel anunciou que está unindo seus negócios com a Maeda Agroindustrial.
O ponto em comum entre todas essas operações é a facilidade de obtenção da soja. "Estas empresas não precisam buscar a soja fora de casa e não estão sujeitas às variações do mercado", explica o presidente da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), Odacir Klein. Hoje, o óleo de soja representa perto de 80% da matéria-prima utilizada na produção de biodiesel.
A verticalização dessas empresas também indica uma preocupação em relação ao escoamento do óleo de soja resultante do esmagamento da soja em grão. "Já é fato que o mercado de carnes, tanto bovina quanto suína, está crescendo de forma cada vez mais intensiva e a utilização do farelo de soja como ração animal tende a crescer", informa Amaryllis Romano, economista da Tendências Consultoria.
Segundo ela, quanto mais farelo for produzido, mais óleo de soja ficará disponível. "A demanda doméstica por óleo é limitada e a entrada dessas tradings no mercado de biodiesel revela que elas estão montando uma estratégia para escoar este óleo de soja que, de outra forma, poderia ficar represado", diz. As exportações de derivados de soja do Brasil são limitadas pela Lei Kandir, que penaliza com impostos as vendas externas de óleo e farelo e beneficia a exportação do grão.
Investimentos. A Cargill anunciou a construção de usina para produção de biodiesel no Mato Grosso do Sul, com investimentos de R$ 130 milhões. A unidade entrará em operação em 2012 e funcionará em anexo à fábrica de esmagamento de soja da empresa, devendo produzir 200 mil toneladas de biodiesel por ano.
O Noble Group vai investir US$ 200 milhões em sua primeira indústria de esmagamento de soja e produção de biodiesel no País. A fábrica será em Mato Grosso e deverá ter produção anual de 200 mil toneladas. Com início das operações também esperado para 2012, a ADM vai construir sua segunda usina de biodiesel no País em Santa Catarina, com produção estimada de 164 mil toneladas. O valor do investimento não foi revelado.
A Brasil Ecodiesel, que até meados deste ano estava comprando de fornecedores todo o óleo de soja usado em sua produção, vai contar, agora, com a matéria-prima da Maeda Agroindustrial, grande produtor de soja e algodão, duas matérias-primas importantes para o biodiesel.
Para Klein, os investimentos em novas usinas indicam também que essas empresas acreditam que o atual represamento do mercado interno vai acabar. Atualmente, é obrigatória por lei a adição de 5% de biodiesel no diesel mineral, o B5, embora a capacidade instalada hoje no País seja suficiente para adição de 10%. "Essas multinacionais esperam um aumento da mistura no mercado interno brasileiro."
O Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel do governo brasileiro previa inicialmente o B5 apenas em 2013. A adição de 5% foi adiantada em função da grande capacidade instalada do Brasil, hoje em torno de 5,1 bilhões de litros, mas demanda efetiva de apenas 2,4 bilhões de litros. "O setor precisa de um novo marco regulatório e esses investimentos externos indicam que a expectativa internacional é de que haverá um novo marco com aumento da mistura", explica Klein.

Legislação
Atualmente, é obrigatória por lei a adição de 5% de biodiesel no diesel mineral, o B5, embora a capacidade instalada hoje no País seja suficiente para adição de 10%.

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OESP, 04/11/2010, Negócios, p. B16

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