Veja, Brasil, p.68 e 70
12 de Out de 2005
Greve do barulho
Bispo fica sem comer, atrai muita atenção e nenhum resultado, mas faz o país se lembrar de seus grotões pobres
Julia Duailibi, de Cabrobó
A greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio, de 59 anos, durou dez dias, custou-lhe 4 quilos, rendeu-lhe uma notável popularidade e não produziu resultado algum. No dia 26 de setembro, dom Cappio começou a greve de fome com o objetivo de impedir o início das obras de transposição do Rio São Francisco, empreitada de 4,5 bilhões de reais em torno da qual gira um imenso carrossel de dúvidas quanto à sua viabilidade (veja reportagem). Na quinta-feira passada, depois de negociar durante cinco horas com o ministro Jaques Wagner, que se deslocou até a zona rural de Cabrobó, no sertão pernambucano, para negociar o fim da greve de fome, dom Cappio encerrou seu protesto com as mãos abanando. O governo prometeu liberar 300 milhões de reais por ano para revitalizar o São Francisco, ofereceu ao bispo uma audiência com o presidente Lula e, indo ao ponto central, disse que vai "prolongar o debate" sobre a obra, sem dar nenhuma garantia de que adiará seu início. A greve de dom Cappio não serviu para nada. Ou quase nada: no fundo, voltou a lembrar o país da existência dos grotões de miséria, desesperança e ilusões míticas.
A comunidade em que dom Cappio fez sua greve de fome é paupérrima. Ele passou os dias de jejum dentro de uma modesta capela, encravada num sítio cuja casa não tem água encanada nem esgoto e cujo piso é de terra batida. A capela fica a uns 300 metros da beira do São Francisco, cujas águas, embora resplandecentemente azuis, exalam um odor de urina. Em apenas dez dias, em razão de seu gesto, o bispo Cappio passou a ser alvo do fervor religioso, que naquelas bandas é sempre muito ativo o que muda é o santo. Os habitantes locais começaram a compará-lo ao padre Cícero, o grande mito religioso do Nordeste. "Ele é santo. Vim aqui para me abençoar", disse Maria da América da Silva, 74 anos, referindo-se ao bispo em greve de fome. "Bem que padinho Ciço avisou para tomar cuidado que o rio ia dar cacimba", diz Isaura Pereira da Silva, 67 anos, fazendo uso da expressão "dar cacimba" que significa virar um laguinho. A rotina do lugar foi subitamente quebrada pela greve, com a atração de emissoras de televisão, romaria de devotos e de políticos em busca de exposição, jornalistas e helicópteros...
Na região em torno da capela do bispo, Cabrobó virou uma atração. As moças, perfumadas, com batom nos lábios e sapatos de saltos altos, indiferentes à poeira alaranjada do sertão, apareciam nas redondezas para paquerar. Ou, como diz Lucineide Gonçalves, 22 anos, para "ver gente". As crianças, com suas roupas de domingo, eram levadas por parentes e corriam, brincavam, choravam, na algazarra amena das aglomerações em que todos conhecem todos. Com pouco mais de 20 000 habitantes, a cidadezinha de Cabrobó só viu tempos movimentados assim entre 1999 e 2000, período em que agentes da Polícia Federal executaram a operação para combater as vastas plantações de maconha da região. Era uma época, porém, em que Cabrobó, dizem os moradores, só aparecia na televisão como "coisa ruim". Agora, não. "Quando acabar isso tudo, vai ser é triste demais", dizia Benildo Pereira da Silva, 27 anos, pouco antes da notícia de que o bispo suspendera a greve de fome. "Eu acho que aqui vai virar um ponto turístico", dizia, otimista, Leonilda Farias, 29 anos, estudante de matemática.
A greve de fome do bispo Cappio, embora não tenha resultado em nada, acabou sendo um bom negócio para todos. O governo vendeu uma imagem de tolerante, ainda que não tenha selado nenhum compromisso claro. O bispo deu uma reforçada em sua aura de santidade, por oferecer a vida pelo rio e pelas populações ribeirinhas que vivem dele. E a cidade de Cabrobó teve com que se divertir durante quase duas semanas. Na quinta-feira à tarde, quando anunciou o fim da greve, Cappio foi aplaudido pelos presentes. Para comunicar sua desistência, o bispo, homem vaidoso e consciente do espetáculo que protagonizava, pegou um microfone e leu sua decisão para o povo. Disse que acreditava na proposta do presidente Lula, de adiar o início das obras. Ao fim, talvez açoitado pela dúvida, arrematou: "Se acontecer isso (se Lula não cumprir a promessa de revitalizar o rio antes de iniciar as obras), eu volto para Cabrobó". Certo. O show não pode parar.
Veja, 12/10/2005, p. 68, 70
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