VOLTAR

Grandes obras elevam risco de degradação da floresta

Valor Econômico, Caderno Especial, p. F2
21 de Ago de 2014

Grandes obras elevam risco de degradação da floresta

Por Eduardo Belo
De São Paulo

Grandes obras na região amazônica são normalmente o primeiro passo para a abertura de novas frentes de desmatamento e degradação da floresta. Mesmo conhecendo o problema, autoridades e agentes financeiros evitam entrar em detalhes sobre as compensações ambientais necessárias a esses empreendimentos e limitam as informações a respeito.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informa que "exige o cumprimento de todas as legislações aplicáveis e regularidade ambiental" em todos os empreendimentos que financia. Segundo o banco, uma análise de risco socioambiental é feita para cada projeto para criar estudos complementares e solicitar informações adicionais.
Entre as práticas da instituição estão recomendar a reformulação de projetos, oferecer recursos para reforço de medidas mitigadoras em condições especiais e estimular a realização de investimentos sociais e ambientais para o desenvolvimento econômico local. Quando não é possível conciliar as medidas necessárias, o BNDES nega o financiamento. De acordo com a área de comunicação do banco, para o projeto da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, foi concedido um crédito de R$ 3,2 bilhões para ações ambientais e sociais.
Ainda assim, a falta de coordenação entre agentes financeiros, entidades licenciadoras e os órgãos do Poder Executivo responsáveis pelos investimentos tornam Belo Monte passível de críticas. "Deveríamos olhar para a região e fazer uma abordagem das bacias hidrográficas e fazer um plano de desenvolvimento regional daquela bacia, baseado em um zoneamento, em suas aptidões, uso do solo, e a partir desse plano de desenvolvimento estabelece como a produção de energia poderia ou não ser um fator desejável e como ela se relaciona com esse processo endógeno de desenvolvimento", afirma Virgílio Viana, superintendente da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). "Isso não é feito".
Viana aponta a carência desse tipo de ação coordenada justamente no projeto de Belo Monte, "em que todos saem perdendo: os índios, que não foram consultados, a cidadezinha, que recebe um fluxo migratório grande e tem um pós-obra que vai ser um tormento depois que terminou a atividade econômica".
Belo Monte nem é o pior caso, na visão de Nicias Ribeiro, secretário de Energia do Pará. Para ele, a Eletronorte já havia preparado "há 15 ou 20 anos" um Plano de Inserção Regional que contempla não só questões ambientais como também econômicas e sociais. Entre elas, a previsão de aumento das vagas escolares e leitos hospitalares, além de saneamento nos municípios de Altamira e Vitória do Xingu. Segundo Ribeiro, investimentos em habitação ajudaram a retirar metade das 4 mil famílias que viviam em habitações precárias sobre palafitas em Altamira.
Na visão do superintendente geral da FAS, o melhor caso de contrapartida ambiental entre as grandes obras da Amazônia é a construção do gasoduto Coari-Manaus. Em operação desde 2009, o gasoduto tem 660 quilômetros de extensão e mais 140 quilômetros de ramais e transporta 5,5 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Segundo Viana, a construção foi precedida de "audiências públicas de verdade", criadas para discutir interesses das comunidades. Desde a reserva de Urucu, o gasoduto corta sete municípios antes de chegar à capital do Estado.
O resultado das audiências públicas fez com que a Petrobras alterasse o traçado da obra com base nas reivindicações e nos novos estudos de impacto ambiental realizados após as audiências. O gasoduto passou a contar com ramais e city gates - saídas de gás - em todas as cidades ao longo do traçado.
O impacto populacional foi reduzido pela adoção de 70% de mão de obra local. Outra vantagem, segundo Viana, foi a inexistência de estradas vivas ao longo do gasoduto, o que impede a ocupação das margens e a exploração ilegal de madeira. Sem estradas, a Petrobras foi obrigada a criar uma rede de fibra ótica para inspecionar o duto. O projeto proporcionou o acesso à rede de fibra ótica por todos os municípios, o que só está se efetivando este ano, diz o superintendente da FAS. No total, segundo a Petrobras, a construção do gasoduto custou R$ 4,5 bilhões.

Valor Econômico, 21/08/2014, Caderno Especial, p. F2

http://www.valor.com.br/brasil/3661798/grandes-obras-elevam-risco-de-de…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.