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Grande chance na Rio+20

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: RIBEIRO, Suzana Kahn e SIMONI, Walter Figueiredo de
10 de Fev de 2012

Grande chance na Rio+20

SUZANA KAHN RIBEIRO
WALTER FIGUEIREDO DE SIMONI

Estamos em um momento importante de redefinição dos rumos da economia global. A crise dos mercados financeiros, a vulnerabilidade da economia de diversos países e uma série de problemas ambientais indicam uma realidade clara: existe um problema com o atual modelo de desenvolvimento. Esta constatação não é nova, mas hoje temos uma confluência de fatores que apontam para a consolidação de novos caminhos para o desenvolvimento.
A teoria econômica tem como objetivo definir a alocação de recursos finitos dentro da nossa sociedade. A escassez, como conceito central de toda a teoria econômica de Smith a Keynes, é fundamental para o debate dos novos rumos da economia global. Esta economia visando a um crescimento infinito opera dentro de um sistema que não precifica corretamente suas escassezes. Quando as fundações da economia tradicional foram criadas, não existia uma percepção clara dos limites dos nossos ecossistemas. Na era da economia de Adam Smith e David Ricardo, as limitações vistas eram mais tangíveis e óbvias, relacionadas ao consumo de minerais, terra fértil, madeira e outros recursos naturais. Hoje, porém, pressões criadas pelo nosso modelo de consumo se tornam cada vez mais evidentes, trazendo à tona realidades não reconhecidas no século XVIII. A ciência evoluiu para melhor entender as pressões humanas nos sistemas naturais e seus limites, mas a teoria econômica, os mercados financeiros e até mesmo a nossa própria percepção ainda não acompanharam tal evolução.
Hoje, estamos às vésperas da realização da Rio+20, 40 anos após a primeira conferência de meio ambiente de Estocolmo. Esta é uma reunião que possui um potencial de mudança global, pois podemos ver sinais de uma verdadeira integração de objetivos ambientais e sociais no processo de tomada de decisão tanto nas esferas públicas quanto privadas. Pode-se dizer que a Rio+20 não será uma reunião sobre o meio ambiente, e sim sobre um desenvolvimento mais inclusivo, eficiente e de baixo carbono. Esta é uma oportunidade única para concepção de ferramentas que criarão uma nova economia, em que cada ator, público, privado, financeiro ou do terceiro setor, terá um papel fundamental no nascimento desse novo paradigma.
Dentro desta realidade, é fundamental que o Estado retome seu papel de indutor e regulador do desenvolvimento, favorecendo a adoção de práticas econômicas e processos produtivos inovadores, calcado no uso racional e na proteção dos recursos naturais e na incorporação de classes sociais excluídas à economia, por meio do acesso ao emprego, ao trabalho decente e à renda.
A criação de um ambiente institucional seguro, com regulamentações claras e novas ferramentas que permitam o direcionamento de fluxos de capitais, sinaliza para onde deve ir o investimento. Limites legais para emissão de poluentes são o exemplo clássico disso, mas também se inclui a criação de mecanismos financeiros que permitam o direcionamento de fluxos financeiros para a proteção de ecossistemas, o aumento de eficiência de recursos e o próprio pagamento por serviços ecossistêmicos para aqueles que o protegem. Dentre novos mecanismos disponíveis para a integração do modelo econômico com políticas ambientais, se destacam a construção de novos ativos ambientais e a criação de mecanismos de mercado. O mais conhecido destes é o Mercado de Carbono. Outras questões ambientais podem ser tratadas dentro de tais mecanismos.
A crise global e o momento político representado pela Rio+20 nos apresentam uma oportunidade única. Poderemos redefinir o modelo de desenvolvimento em que, ao contrário do que a economia tradicional frequentemente indica, a natureza não é grátis.

O Globo, 10/02/2012, Opinião, p. 7

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