O Globo, O País, p. 13
18 de Dez de 2007
Governo negocia fim de greve de fome de bispo
Dom Cappio é procurado por Gilberto Carvalho e recusa oferta de ampliação de projeto de cisternas no Nordeste
Luiza Damé e Luisa Torreão
O presidente Lula autorizou seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, a abrir negociações com o bispo de Barra (BA), dom Luís Flávio Cappio, que está em greve de fome desde 27 de novembro, em protesto contra o projeto de transposição do Rio São Francisco. Carvalho participou ontem de reunião na CNBB e disse que, independentemente da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a liminar suspendendo o projeto, as obras só serão retomadas em janeiro, quando os militares do Exército retornam da folga de fim de ano.
O gesto foi classificado de falácia por aliados de dom Cappio. Os militares que fazem as obras entram de recesso no dia 20 de dezembro e só retomam o trabalho em 7 de janeiro. Carvalho voltará hoje à CNBB, acompanhado de técnicos para discutir o projeto do governo.
Ontem, representantes dos movimentos sociais fizeram jejum pelo país em apoio ao bispo e contra a transposição. Eles pretendem manter o jejum até quarta-feira, mas farão revezamento de pessoas sem comer.
- Isso é jogo político do governo - disse o integrante da Pastoral da Terra Isidoro Revers, uma das sete pessoas que ontem iniciaram jejum na Praça dos Três Poderes, em frente ao Palácio do Planalto.
Carvalho conversou por telefone com dom Cappio no sábado. Consultou-o sobre a possibilidade de suspensão da greve para negociação da proposta de ampliação do projeto de construção de 1 milhão de cisternas no semi-árido nordestino. Mas a proposta não foi aceita.
Há 22 dias em greve de fome, o bispo já começa a apresentar sinais visíveis de cansaço e fraqueza. Desde ontem, ele tem acompanhamento médico do frei Klaus Finkam, do Maranhão, especialista em medicina natural e com experiência em jejum terapêutico. Segundo boletim médico, o quadro geral é de certa fragilidade, mas as funções fisiológicas estão normais. Desde o início do protesto, ele já perdeu oito quilos e está com pressão baixa.
Da Agência A Tarde
Exército adianta obras do São Francisco Liminar paralisou trabalhos antes de folga
Rodrigo França Taves
Enviado especial Cabrobó e Floresta (PE).
Depois de quase seis meses de trabalho, os dois batalhões de engenharia do Exército já podem mostrar avanços na obra de transposição das águas do Rio São Francisco. No eixo leste, que levará água da represa de Itaparica para a Paraíba, antes de a obra ser interrompida semana passada por liminar judicial, os militares já tinham começado a levantar a parede da Barragem de Areias, em Floresta (PE), que terá 1.420 metros de extensão e 15 metros de altura máxima.
As fundações da barragem foram concluídas, e o terreno está sendo aterrado. Os militares estão desmatando a área da represa de Areias. O trabalho de escavação e desmatamento é acompanhado por um arqueólogo, um engenheiro florestal e um biólogo, encarregados de proteger os animais e os possíveis fósseis arqueológicos encontrados.
No canal, a escavação dos 5.820 metros sob responsabilidade do Exército ainda está na fase inicial. Do total, 1.400 metros de canal serão construídos na represa de Itaparica, de onde a água será retirada. Os militares aproveitaram a época de seca no São Francisco para começar a erguer as paredes do canal antes que a área seja inundada.
No eixo norte, que começa em Cabrobó (PE) e vai até o Rio Grande do Norte, o trecho de canal sob a responsabilidade do Exército, com 2.080 metros de extensão, está bem mais adiantado que a obra da Barragem de Tucutu, que os militares também vão construir. Em Tucutu, o 3o Ba talhão de Engenharia encontrou um terreno um pouco mais complicado do que esperava, com um lençol freático muito perto da superfície, o que faz a água brotar, deixa o terreno mole e dificulta a manobra das escavadeiras.
A liminar judicial interrompeu o trabalho uma semana antes do recesso previsto no cronograma. É que os batalhões de engenharia são de Teresina e Picos, no Piauí, e os militares estão sendo liberados para passar o fim de ano com as famílias.
Opinião
Último recurso
Há dois mil anos as Escrituras estabeleceram a separação entre o que é do Estado (Cesar) e o que é de Deus.
Mas nem sempre o princípio é seguido dentro da própria Igreja. Se fosse, o bispo Luiz Flávio Cappio não estaria atentando contra a própria vida - uma heresia - para impor sua vontade num assunto de fundo técnico, já decidido nas instâncias devidas do poder público.
A situação se tornou ainda mais esdrúxula com a nota da CNBB em apoio à greve de fome de Cappio.
Quando a entidade dos bispos brasileiros também resvala para o messianismo, só resta aguardar alguma ação mais enérgica do Vaticano.
O Globo, 18/12/2007, O País, p. 13
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