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"Governo deve ouvir todos os índios"

Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
Autor: CARVÍLIO PIRES
08 de Jan de 2004

Uma das lideranças indígenas mais independentes de Roraima, Alfredo Silva, 38 anos, diretor da organização não governamental, Programa de Desenvolvimento Sustentável da Nova Esperança (Pronesp) é solidário a manifestação em defesa de uma solução consensual para a questão fundiária do Estado. Para ele, a tese da criação de extensas áreas indígenas é incompatível com o atual estágio de integração dos índios com a sociedade envolvente.

Em vias de concluir o curso de Letras, na Universidade Federal de Roraima (UFRR), Alfredo Silva participa do movimento pela autodeterminação dos povos indígenas desde 1985. O nível de engajamento e persistência na defesa do que acredita o levou à condição do mais jovem tuxaua de Roraima, em 1985. Ele exerceu a liderança da aldeia Sorocaima II - Município de Pacaraima - durante dois períodos, 85/86 e 91/92.

Já em 2003, ele tornou-se o primeiro índio emancipado do Brasil, depois de esperar 18 meses até a decisão final da justiça federal. A decisão de emancipar-se foi exatamente por não mais aceitar a tutela da Funai. "Eu acho isso imoral! Integrado à sociedade, participando do mercado de trabalho e carregar o estigma de incapaz, de coitadinho, me incomodava muito. Depois, essa história de tutela é um malogro", comenta o presidente do Proesp.

Sobre a manifestação de índios e produtores rurais contrários a homologação da terra indígena Raposa/Serra do Sol em área contínua - inclusive com a extinção dos municípios de Pacaraima e Uiramutã - Alfredo Silva entende que seja um ato democrático e pertinente. "Extinguir estes municípios é tirar dos índios a possibilidade de crescer social e politicamente. Basta dizer que no Município de Pacaraima têm o vereador macuxi, Ozéias. Em Uiramutã tem o vice-prefeito José Novaes. Sem eles, que outro tipo de acesso teríamos na estrutura da sociedade envolvente? Afinal, não podemos nos isolar do mundo", analisa.

Outra questão que incomoda a liderança indígena é a tese das demarcações e homologações em área contínua. Ele acredita que esta estratégia empurra o índio ao nomadismo, situação incompreensível para os grupos étnicos que habitam as reservas São Marcos e Raposa/Serra do Sol. Cita como exemplo a questão do Município de Pacaraima - encravado no extremo norte da reserva São Marcos. "A Funai não pode alegar que desconhecia o problema. Desde 1974, ela (Funai) mantém um Posto Indígena na localidade Boca da Mata. Assim, foi ela quem permitiu o agigantamento da situação criada em Pacaraima".

A insatisfação do diretor do Pronesp é tanta que ele, juntamente com outros índios avaliam o ajuizamento de uma ação judicial contra a União, por perdas e danos. "Enquanto a tutora dos índios permitiu o crescimento de Pacaraima, nós, índios, arcamos com os prejuízos. Agora, querem punir a comunidade que vive ali. O Governo Federal deveria se auto castigar. Ele negligencia e depois quer responsabilizar quem menos tem culpa", criticou. (

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