VOLTAR

Governo causa genocidio de comunidades, diz antropologo

OESP, Vida, p.A10
21 de jan de 2005

Governo causa genocídio de comunidades, diz antropólogo
Para o professor Antonio Carlos Diegues, da USP, política atual de proteção ambiental expulsa povos tradicionais de suas áreas
Lígia Formenti
O antropólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Antonio Carlos Diegues afirma que a política de proteção ambiental no Brasil está condenando comunidades tradicionais, como os caiçaras paulistas, a um genocídio progressivo. Para o professor, que durante anos trabalhou no Departamento de Pesca da Fundação das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), as regras atuais obrigam essas comunidades a mudar de forma brusca comportamentos seculares ou simplesmente as expulsam de áreas que passam a ser de proteção ambiental. Sem alternativas, seus integrantes são relegados às periferias das cidades, engrossando o grupo de miseráveis.
Para Diegues, o processo somente pode ser interrompido com uma revisão dos critérios para definição de áreas de proteção integral e de manejo sustentável. "Comunidades tradicionais são extremamente úteis para preservar a região, mas o que vemos é um processo que praticamente obriga tais populações a abandonarem as áreas onde vivem", afirma.
Ele observa que muitas das comunidades estão nos locais há anos, desempenhando atividades que provocam pequenas mudanças na paisagem. "Mas a própria natureza se encarrega de se restabelecer", garante. No entanto, entre ambientalistas que ele define como "radicais", há a falsa idéia de que também comunidades tradicionais podem provocar prejuízos ao meio ambiente.
O antropólogo afirma que o conceito de natureza intocada não pode ser considerado como regra geral. Mas hoje no País, segundo ele, a grande ênfase se dá para unidades de proteção integral, como parques nacionais e estações ecológicas. Reservas extrativistas e unidades de uso sustentável ficam em segundo plano. As primeiras, diz Diegues, recebem quantias razoáveis de investimentos e pouco sobra para as demais unidades. "Surpreende o fato de tal mentalidade persistir, mesmo tendo à frente do Ministério do Meio Ambiente uma pessoa cujo histórico está ligado ao movimento seringueiro", afirmou Diegues, numa referência à ministra Marina Silva.
Para Diegues, que hoje faz uma palestra no ciclo Diálogos sobre o Popular, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, a ênfase em unidades de proteção integral não se adapta à realidade brasileira. "Grandes parques, a exemplo dos que são mantidos nos Estados Unidos, exigem uma estrutura de fiscalização e equipamentos de que não dispomos", afirma. "Sem recursos, os resultados obtidos são justamente opostos: uma área abandonada, livre para ação predatória."
Diegues considera indispensável uma reavaliação das áreas protegidas. "Não digo reduzir o número de parques, mas instalá-los somente em áreas que sempre estiveram desabitadas", diz. E, nas unidades de manejo sustentável, garantir que comunidades possam desempenhar suas atividades. Como exemplo bem-sucedido, o antropólogo cita a experiência da Ilha do Cardoso, no litoral sul paulista. "Lá, caiçaras são mais eficientes e rigorosos do que muitos fiscais. Eles não querem ver a área de onde garantem seu sustento ser deteriorada."
OESP, 21/01/2005, p. A10

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.