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Governo abandona transposição do São Francisco após eleição de Dilma

OESP, Nacional, p. A4, A6-A7
Autor: COELHO, Fernando Bezerra
04 de Dez de 2011

Governo abandona transposição do São Francisco após eleição de Dilma

EDUARDO BRESCIANI
ESTADÃO.COM.BR
WILSON PEDROSA
ENVIADOS ESPECIAIS , FLORESTA (PE)

Cenário de propaganda eleitoral da presidente Dilma Rousseff e responsável por parte de sua expressiva votação recebida no Nordeste, a transposição do Rio São Francisco foi abandonada por construtoras e o trabalho feito começa a se perder. O Estado percorreu alguns trechos da obra em Pernambuco na semana passada e encontrou estruturas de concreto estouradas e com rachaduras, vergalhões de aço abandonados e diversos trechos em que o concreto fica lado a lado com a terra seca do sertão nordestino.
O Ministério da Integração Nacional afirma que é de responsabilidade das empresas contratadas a conservação do que já foi feito e que caberá a elas refazer o que está se deteriorando. Informa ainda que vai promover novas licitações em 2012 para as chamadas obras complementares, trechos em que a pasta e as empreiteiras não conseguiram chegar a um acordo sobre preço. Segundo o ministério, as obras estão paralisadas em 6 dos 14 lotes e em um deles o serviço ainda será licitado.
Marcada por controvérsias, a obra da transposição começou a sair do papel em 2007 e, no ano seguinte, com os canteiros em pleno funcionamento, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua então ministra-chefe da Casa Civil e mãe do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) fizeram uma vistoria pela região para fazer propaganda da ação. Os dividendos eleitorais foram colhidos no ano passado por Dilma. Em Pernambuco, Estado onde começa o desvio das águas, ela obteve mais de 75% dos votos válidos no segundo turno da eleição. Nas cidades visitadas pelo Estado, onde as obras estão agora abandonadas, o desempenho foi ainda melhor. Em Floresta, a presidente obteve 86,3%; em Cabrobó e Custódia, 90,7%; e em Betânia, 95,4%.
Prometida para o final do governo Lula, a obra tem seu prazo de entrega sucessivamente adiado. A nova previsão é concluir os 220 quilômetros do eixo leste, de Floresta a Monteiro (PB), até o fim de 2014 e terminar no ano seguinte os 402 quilômetros do eixo norte, que sai de Cabrobó para levar água ao Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
A obra está atualmente orçada em R$ 6,8 bilhões, 36% a mais do que a projeção inicial. Segundo o ministério, foram empenhados R$ 3,8 bilhões para a obra e pagos R$ 2,7 bilhões às construtoras.
Abandono. Durante três dias, a reportagem percorreu cerca de 100 quilômetros da extensão dos canais da obra. O abandono foi a tônica da viagem, com canteiros completamente parados. As únicas exceções foram as partes da transposição sob responsabilidade do Exército.
Em um dos trechos visitados, na divisa das cidades pernambucanas de Betânia e Custódia, cerca de 500 metros de concreto estão totalmente quebrados, com pedaços se soltando do solo. Esse trecho terá de ser refeito para a água do São Francisco passar. O padre Sebastião Gonçalves, da diocese de Floresta, foi quem encontrou o trecho destruído durante vistoria frequente que faz pelas obras. "As empresas abandonaram as obras e já começou a se perder o trabalho feito. É um desperdício inexplicável."
A parte que aparece com as maiores avarias está no lote 10 da obra, que teve as obras iniciadas pelas construtoras Emsa e Mendes Júnior.
Segundo moradores da região, as máquinas começaram a ser retiradas desde o início do ano passado. Há cerca de dois meses, os funcionários foram demitidos, deixando os alojamentos como aspecto de cidade fantasma, onde só restam vigias e alguns funcionários administrativos.
"É uma situação caótica, está tudo parado", reclama Manoel Joaquim da Silva, coordenador do sindicato dos agricultores familiares de Floresta e companhia constante do padre Sebastião Gonçalves no acompanhamento das obras.
A Mendes Júnior informou não participar mais do consórcio, enquanto a Emsa não enviou respostas aos questionamentos. O Ministério da Integração disse já ter sido informado das rachaduras e notificado a Emsa por meio de ofício no dia 26 de outubro. Segundo a pasta, as obras da empresa serão retomadas em janeiro de 2012.
A reportagem encontrou início de deterioração em outro lote da obra, o de número 9, também no eixo leste. Paredes de concreto começam a rachar próximo ao local onde será construído o aqueduto sobre a BR-316, também em Floresta. Em outra área, vergalhões de aço para a construção de uma ponte para o canal passar foram abandonados e parte do material já foi até roubado. O lote é de responsabilidade das construtoras Camter e Egesa. O Estado não recebeu resposta da Egesa e não conseguiu contato com a Camter.
Contraste. No eixo norte, o contraste entre as obras do Exército e o abandono por parte das empreiteiras está bem próximo. Dez quilômetros à frente de onde homens fardados seguem seu trabalho, há um canteiro abandonado do Consórcio Águas do São Francisco ainda com máquinas para a fabricação de concreto que sequer foram retiradas. Percorrendo mais dez quilômetros, encontra-se um grande vão onde as explosões foram feitas, mas o canal ainda não recebeu concreto.

Passado o investimento, ficou o prejuízo
Paralisação dos canteiros derrubou movimento no comércio e deixou moradores sem emprego

Eduardo Bresciani, Estadão.com.br e Wilson Pedrosa, Enviados especiais, FLORESTA (PE)

A paralisação em diversos trechos das obras da transposição do Rio São Francisco provocou demissões em massa e colocou em dificuldades pequenos empresários que fizeram investimentos de olho na movimentação dos operários. O cenário de alojamentos fantasmas representa um prejuízo para uma região já pouco acostumada a investimentos.
A comerciante Rosa Feliciana Rodrigues investiu recursos próprios para fazer um mercadinho na residência em que mora na Agrovila 6, no município de Floresta (PE). Depois de cerca de um ano de movimento forte, ela viu sua clientela sumir aos poucos com a redução dos ritmos das obras. Diz ter levado calote de alguns dos trabalhadores e agora tem deixado o comércio desabastecido para não ter prejuízos maiores.
"Foi um ano de bom movimento, depois foi parando. De uns quatro meses para cá não tem mais ninguém. Não tenho comprado mais mercadorias por não ter pra quem vender", conta ela, que hoje deixa apenas entreaberta a porta do estabelecimento.
O desemprego também atingiu os moradores da região que foram recrutados para trabalhar nos canteiros de obras. Gerson José de Lisboa trabalhou durante dois anos e oito meses na transposição como operador de motosserra e armador de ferragens. Em junho, foi demitido sob a justificativa da paralisação. "Tem uma promessa de voltar em janeiro. Se não tiver como, vou ter que voltar para a roça", conforma-se Gerson, que recebia R$ 792 por mês.
Seu irmão, José Edison de Lisboa, também trabalhou na obra, mas já tinha deixado a atividade antes, em 2010, por causa do baixo salário. "Na época a gente recebia só R$ 600. Não dava para continuar", disse.
O Ministério da Integração Nacional afirmou que a obra chegou a contar com 9 mil trabalhadores, e atualmente tem apenas 3,8 mil pessoas atuando nos canteiros. A pasta informa, porém, não haver mais possibilidade de recuperar todos os postos de trabalho porque o estágio atual do empreendimento necessita de menos mão de obra. A expectativa é que, no final de 2012, quando as ações retomarem o ritmo forte, 6 mil operários estejam atuando na transposição.
Outra preocupação de operários demitidos é com dificuldades futuras. O coordenador do sindicato dos agricultores familiares de Floresta, Manoel Joaquim da Silva, destaca que alguns dos agricultores da região atuaram na obra e poderão ter problemas para se aposentar. "Essas pessoas "sujaram" a carteira e foram demitidas em pouco tempo. Agora vão ter problema para conseguir uma aposentadoria rural no futuro", aponta. Na visão dele, a oportunidade de trabalho não foi boa para quem largou seu cotidiano na agricultura porque, no final, teve de retornar à atividade de origem sem conseguir ganho profissional. / E.B. e W.P.

Na rota do canal, posto de saúde e assentamento
Problemas causados pela construção, como rachaduras nas casas decorrentes das explosões, preocupam moradores de regiões do entorno da obra

Eduardo Bresciani, Estadão.com.br e Wilson Pedrosa, Enviados especiais, FLORESTA (PE)

Mesmo com a obra em andamento há cerca de três anos, pendências sobre a transposição do Rio São Francisco ainda não foram totalmente resolvidas junto aos moradores das regiões que terão a paisagem mudada pelo canal. Problemas de pequenas comunidades que podem perder serviços essenciais, como um posto de saúde, não foram solucionados. Rachaduras em casas decorrentes das explosões para a construção também trazem preocupações a moradores.
No assentamento Serra Negra, distante 65 km do centro de Floresta (PE), a preocupação maior é sobre o que será feito com o posto de saúde do local. A construção que abriga o posto está na rota da transposição e até agora os moradores não sabem qual será a solução. Segundo Edilene Alves, agente de saúde que trabalha no local há 15 anos, são feitos cerca de 40 atendimentos por dia na unidade.
"Se o posto fechar vai ser um caos porque as pessoas da região vão ter que ir para o centro de Floresta", conta ela, lembrando que 400 famílias são cadastradas no posto de saúde.
Na mesma localidade, moradores ainda esperam solução para danos provocados pela obra. A aposentada Maria do Socorro da Silva, de 61 anos, convive com o "medo de sua casa cair" desde o ano passado. A residência está com rachaduras que vão do teto até o chão na sala, em um dos quartos e na cozinha.
Segundo ela, o problema é resultado da detonação de explosivos para a formação do canal, que passará a cerca de 300 metros de sua casa. Maria do Socorro conta ter recebido uma visita de um encarregado da obra. "Ele veio, olhou, mas não resolveu nada até hoje."
O Ministério da Integração afirma já ter encontrado uma solução para o problema do posto de saúde. De acordo com a assessoria, serão repassados recursos para a Prefeitura de Floresta construir uma nova unidade de atendimento na localidade em algum terreno que não será desapropriado. Não foi informado, porém, o prazo para esta ação.
Em relação às rachaduras nas casas, o ministério afirmou que analisa as reclamações dos moradores e comunica às empresas para providenciar reparos.
Benefícios. O assentamento Serra Negra foi oficializado em 1990, mas até hoje não tem água encanada. Carros pipas foram colocados a disposição para atender aos moradores e os poucos poços furados também tem escassez de água.
Vizinha do canal, a comunidade espera conseguir acesso aos benefícios da obra, mas ainda não está definido de que forma isso poderá ser feito. Em outros trechos, cercas já foram colocadas para impedir que qualquer pessoa possa chegar ao local.

Houve problemas nos projetos e desaceleração
Apesar da paralisação em alguns lotes, ministro afirma que os eixo leste ficará pronto até 2014 e o norte até 2015

Entrevista: Fernando Bezerra Coelho, ministro da Integração Nacional

EDUARDO BRESCIANI, ESTADÃO.COM.BR / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra de Souza Coelho, trata como "desaceleração" o momento das obras da transposição do Rio São Francisco, carro-chefe da pasta. Ele culpa projetos básicos insuficientes pela paralisação em alguns lotes. Nega caráter eleitoral e afirma que a orientação da presidente Dilma Rousseff é retomar a obra e concluí-la o mais rápido possível. "Queremos construir o eixo leste até 2014 e o eixo norte no final de 2015", afirma o ministro.

De que forma essa interrupção das obras em alguns lotes da transposição pode afetar o cronograma?

Quero fazer uma ponderação de que não se trata de uma interrupção da obra. Neste ano de 2011 estamos vivenciando uma desaceleração no ritmo em consequência das dificuldades e dos problemas que enfrentamos pela contratação de projetos básicos que se revelaram frágeis quando da execução. A obra já não cabia dentro dos contratos e muitas frentes não puderam ser abertas. É uma desaceleração em função da renegociação e recontratação de diversas frentes de serviço. Estamos fazendo rescisões parciais e vamos fazer levantamento das obras complementares que serão licitadas até fevereiro de 2012 e com contrato assinado até junho de 2012.

Os lotes que estão paralisados serão redivididos?

Vamos fazer isso para complementar a obra. Como não se consegue terminar obedecendo ao limite legal de 25% de aditivos estamos fazendo as rescisões do que não cabe no contrato. Vamos pegar saldos ou obras complementares e juntar. Por exemplo, tudo que ficou no eixo leste terá uma nova licitação para ter uma única firma responsável pela conclusão.

De quem é a responsabilidade pelos trechos que começam a se deteriorar?

As empresas são as responsáveis. Os canais têm de ser entregues em boas condições para estarem cheios de água. Em projetos de irrigação, se você faz o canal e não coloca água rapidamente, ainda mais com o sol escaldante do sertão, você tem trincamentos e rachaduras. Está previsto no contrato fazer a recuperação.

Quando as obras serão concluídas?

Queremos construir o eixo leste até 2014 e o eixo norte no final de 2015. Vamos ter no final de 2012 um piloto pronto de pouco mais de 20 quilômetros no início do eixo leste com uma demonstração de tudo que tem na obra, captação, bombeamento, elevação, aqueduto e barragem. Esse piloto vai começar a funcionar até o final do próximo ano e lá vamos treinar e capacitar os operadores que vão trabalhar na gestão do canal.

O ano de 2014 é de eleições presidenciais. Essa obra já foi acusada no passado de ser eleitoreira. Prometer agora a conclusão para esta data não reforça essa tese?

Pelo contrário, se fizermos uma avaliação fria essa pecha não cabe mais. É uma obra importante para dar segurança hídrica ao Nordeste. Os questionamentos sobre a importância da obra estão vencidos pelo intenso debate. Temos de cuidar de retomar, acelerar e entregar o quanto antes. Essa é a orientação da presidente Dilma.

Nenhuma chance de nova prorrogação dos prazos?

Não, estamos trabalhando com este prazo, que é adequado. Todas as providências que estão sendo tomadas nos permitem uma confiança grande que haveremos de cumprir.

OESP, 04/12/2011, Nacional, p. A4, A6-A7

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