VOLTAR

GOL CONTRA

Diário do Amazonas-Manaus-AM
19 de Jan de 2005

Essa é a reivindicação mais importante. Em carta ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, os índios pedem a mudança do esquema tático, que não permite que joguem no ataque nem na defesa, embolando o meio de campo. Por isso, ultimamente, só o outro time tem feito gols. A carta, assinada pelos dirigentes da COIAB, confirma: "Numerosas terras indígenas, da área de administração da Regional/Manaus, não foram até agora demarcadas, conforme determina a Constituição Federal" Queixam-se que Lula não cumpriu promessas de campanha, sobretudo aquela de criar "uma nova política indigenista com o objetivo de atender os reais e prioritários interesses do povo indígena".

Essa é também a opinião do bispo de São Felix do Araguaia (MT), dom Pedro Casaldaliga, que em entrevista ao jornal espanhol "El País", criticou duramente o tratamento dado aos índios e aos sem-terra: "Desgraçadamente, a política indigenista, a política rural e a reforma agrária, neste governo Lula, se empurram com a barriga. Tenho que reconhecer que o governo está sendo neoliberal....Todo mundo teve paciência e esperança nos dois primeiros anos, agora muitos se cansaram".

O Governo Lula despertou muitas esperanças nos índios, que acreditaram na possibilidade de, finalmente, viver em paz, de terem suas terras demarcadas, suas culturas respeitadas, suas línguas reconhecidas e seus direitos garantidos. Este locutor que vos fala votou, sempre, no Lula, e continua torcendo para que seu governo dê certo. No entanto, entre Lula e os índios, ficamos com os índios. Já se passaram 747 dias de Governo e necas de pitibiribas. Dom Pedro tem razão. Os índios estão de saco cheio.

Felizmente, o movimento liderado pela COIAB - Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira começa a se alastrar por outras regiões, onde conta com o apoio da APOINME - Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas e Espírito Santo, e da recém criada Organização dos Povos Indígenas do Sul do Brasil. Se o Governo Lula não der rapidamente respostas concretas, vai ficar isolado, nessa questão, tanto dentro como fora do país.

A ONU, em sua 59ª Assembléia Geral, realizada recentemente, estabeleceu o 1o de janeiro de 2005 como o início do segundo decênio dos Povos Indígenas. Existe, portanto, uma preocupação da opinião pública internacional pelo destino das minorais étnicas. Lula começa a perder o prestígio lá fora e aqui dentro. Se transformar a questão indígena num caso de polícia, é possível, também, que nas próximas eleições, os eleitores gritem para ele aquilo que a torcida berra na arquibancada. Aí, o problema é que se ele sair, de fininho, quem é que vai entrar, de fininho?

P.S.1 - Os índios de Roraima esperam, há 747 dias, que o Governo Lula homologue a Terra Indígena Raposa/Serra do Sol em áreas contínuas. Esperamos que a quarta edição do Fórum Social Pan-Amazônico, que começa hoje em Manaus, marque claramente sua posição em relação aos direitos indígenas.

P.S.2 - Uma imperícia nossa no envio da crônica, impediu que ela saísse no domingo. Excepcionalmente, está sendo publicada hoje, quarta-feira.

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.