OESP, Metrópole, p A31
29 de Set de 2013
Glaciais dos Alpes devem sumir em 100 anos
O Aletsch, na Suíça, já perdeu 3,5 km e teve espessura reduzida em 300 metros
Jamil Chade / enviado especial / Fiesch, Suíça - O Estado de S.Paulo
Em 1678, os habitantes do pequeno vilarejo de Fiesch fizeram uma promessa solene de rezar todos os anos contra a expansão do glacial de Aletsch, um dos maiores do mundo. Com 21 km de extensão, a geleira aumentava a cada ano a sombra sobre a pequena cidade.
Trezentos e trinta e cinco anos depois, os habitantes do povoado alpino mudaram o tom da oração: rezam para que a geleira não derreta, o que significaria o fim de Fiesch em decorrência de uma inundação de proporções bíblicas.
Desde o século 15, Aletsch já perdeu mais de 3,5 km e a cobertura de gelo foi reduzida em 300 metros de espessura. O caso dessa geleira não é o único. Espalhados pelos Alpes nos territórios da Suíça, da Áustria, da França e da Itália, locais conhecidos pela presença de neves eternas e geleiras monumentais começam a sofrer uma dura transformação.
Na sexta-feira, os cientistas do IPCC confirmaram que o homem é o principal responsável pelo aquecimento da Terra e que, se nada mudar, até 2100 a temperatura média do planeta pode aumentar em até 4,8 "C.
Longe das conferências da ONU, os habitantes não têm dúvidas de que a paisagem mudou e que o aquecimento global é uma realidade incontestável. "Não precisamos medir nada. É só olhar", disse Hans Muller, dono da única padaria local, apontando para fora de sua loja. O negócio é da família desde 1830.
O que se vê a olho nu é reforçado pelos últimos informes sobre o clima. Para cientistas, existe o sério risco de que até 2100 o volume total de glaciais do planeta diminua de 15% a 55%, num cenário mais otimista, chegando a 85% num mais pessimista.
Martine Rebetez, especialista em mudanças climáticas nos Alpes e membro do Instituto Suíço de Pesquisa da Université de Neuchâtel, afirma não ter dúvidas sobre o que está ocorrendo. "Nos Alpes, todos os glaciais estão retrocedendo."
Do lado francês dos Alpes, a história não é muito diferente. As paróquias francesas também apelaram às forças divinas para frear o avanço de geleiras que ameaçavam há quase 400 anos engolir vilarejos. Em 1643, os habitantes de Chamonix organizaram um procissão depois que uma parte da geleira local destruiu um ponto da cidade. No ano seguinte, o bispo de Genebra assumiu a tarefa de lutar contra o gelo e passou a benzer o glacial a cada ano.
Agora, o Mer de Glace - o maior glacial da França, com uma superfície de 30 km2 - perde a cada ano entre 4 e 6 metros de espessura e cerca de 30 metros de tamanho. Entre 1905 e 2005, o Mar de Gelo perdeu 120 metros de espessura. O local que serviu de cenário para romances como Frankenstein, de Mary Shelley, sofreu uma contração desde 1850 de 2,5 quilômetros. O recuo do "mar" deixou em seu lugar pedra.
Esqui. As mudanças também afetam os bolsos e orçamentos de cidades inteiras nos Alpes. Nos próximos 20 anos, metade das estações de esqui da Suíça poderá ser obrigada a fechar. Motivo: a falta de neve. O resultado pode ser um desastre financeiro para regiões que dependem do turismo de inverno.
Alterações no clima redesenham fronteiras
Fiesch, Suíça - O Estado de S.Paulo
Por séculos, foram exércitos que moveram fronteiras. Agora, é a mudança climática que obriga governos a sentar à mesa e negociar novos acordos. Nos últimos anos, 10% da fronteira de 750 km entre Suíça e Itália teve de ser redesenhada. A última grande modificação ocorreu na região de Zermatt, onde a mudança em uma geleira obrigou o governo da Itália a ceder 100 metros aos suíços.
As fronteiras entre os dois países foram fixadas em 1861 e, em 1940, um novo acordo foi fechado. Mas, se em altitudes mais baixas os limites entre países contam com marcos e até grades, nos picos dos Alpes os acordos foram fechados com base na palavra de ambos os lados.
Para estabelecer essas fronteiras, uma divisão física ou um marco natural foi o que as definiu nas altas altitudes. Nas geleiras, o que estabelecia o que era suíço ou italiano era a direção para onde a água corria e o ponto que marcava o divisor de águas. O problema é que esses divisores mudaram de lugar e alguns marcos nem sequer sobreviveram. Nesse caso, as fronteiras passaram a ser uma ficção, já que não estavam nem delineadas por marcos físicos nem por naturais.
Um exemplo foi identificado pelos dois governos nas proximidades da montanha do Matterhorn, onde o pico de uma geleira era o que marcava a fronteira, em 1940. Desde então, a geleira derreteu e o ponto mais alto ficou 100 metros mais distante do que era há sete décadas.
O que para geógrafos é uma questão técnica, para os governos se transforma em um debate político, ainda que na prática não haja qualquer impacto para as populações locais.
O que deixa políticos e militares preocupados é que a prática de rever fronteiras por causa de mudanças climáticas poderia acabar se transformando em uma espécie de prática internacional./ J.C.
OESP, 29/09/2013, Metrópole, p A31
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