O Globo, Economia, p. 38
11 de Nov de 2012
Gigante chinesa escolhe Brasil como destino de investimentos
State Grid se instala no Rio, investe US$ 5 bi no país e está de olho na usina de Belo Monte
Eliane Oliveira
elianeo@bsb.oglobo.com.br
PEQUIM, XANGAI, ZHANG JIAKOU - É difícil ver o céu na China, mesmo em um dia sem nuvens, devido à poluição. No país, 72,5% da energia consumida vêm de térmicas a carvão, o que levou o governo chinês a investir em fontes renováveis e aumentar a capacidade energética instalada no país. Esse esforço já produz resultados, e o passo seguinte das autoridades chineses é internacionalizar a State Grid, estatal responsável pelo fornecimento de energia a 88% do território da China. O Brasil foi um dos mercados escolhidos por seu tamanho, pela abundância de recursos naturais, pelas boas relações políticas e pelo fato de os brasileiros serem os principais parceiros comerciais dos chineses na América do Sul.
Sem fazer alarde, os dirigentes da estatal chinesa inauguraram este ano um prédio de 17 andares na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, pelo qual pagaram R$ 205 milhões. Em 2010 foi criada a State Grid Brazil Holding (SGBH), que atua na oferta de linhas de transmissão, mas não esconde o desejo de entrar firme na geração (a usina de Belo Monte é um exemplo), na distribuição e na venda de medidores e equipamentos para a produção de energia eólica e solar comercializados pela Nari Technology, braço industrial e subsidiária integral do grupo. A empresa anunciou que vai investir mais de US$ 5 bilhões no Brasil em três anos.
- Tudo nos interessa. As principais empresas do setor elétrico (brasileiro) têm conversado conosco. Temos convidado essas empresas para conhecer nossas instalações. Mas como ainda não temos detalhes do projeto (de transmissão de Belo Monte), não há como definir o parceiro - resumiu o diretor de Investimentos da State Grid Corporation of China (SGCC), Sun Jinping.
Quinta maior empresa de transmissão no Brasil, a SGBH chegou ao país em 2010 e investiu em dezembro daquele ano US$ 989 milhões na compra de sete companhias nacionais de transmissão. Promete pôr em operação mais de três mil quilômetros de linhas no Sudeste, cobrindo, principalmente, Rio, São Paulo e Brasília.
Parcerias também com BNDES
Em 2011, assumiu a construção de duas subestações, em parceria com Furnas, e de dois trechos do linhão da hidrelétrica de Teles Pires. Em maio do ano passado, após concluir a compra de 25% de participação na portuguesa Rede Eléctrica Nacional (REN), a estatal chinesa anunciou a compra de mais sete linhas de transmissão no Brasil. Os projetos, no total de 2.800 quilômetros, pertenciam ao grupo espanhol Actividades de Construccion y Servicios (ACS).
A estatal chinesa acompanha os ajustes que estão sendo feitos no setor elétrico brasileiro. Apresenta suas instalações na China a empresários, parlamentares, representantes da mídia brasileira e outros segmentos. Sutilmente, dá a entender que teria a solução para problemas crônicos no país, como o alto custo da energia e os frequentes apagões. Traz como bandeira a parceria, a contratação de mão de obra local e a promessa de uma relação de longo prazo.
- Viemos para ficar. Para nós, qualquer projeto é viável - enfatizou o presidente e diretor-executivo da State Grid no Brasil, Hongxian Cai.
De acordo com o vice-presidente da State Grid International Development, Chen Guoping, assim como outras empresas, a estatal conta com o apoio do BNDES para financiar suas atividades.
"Tudo nos interessa. As principais empresas do setor elétrico (brasileiro) têm conversado conosco." Sun Jinping, diretor da State Grid.
Recursos em pesquisa e inovação somam US$ 430 bi
Planejamento da empresa segue as diretrizes de Estado
PEQUIM, XANGAI, ZHANG JIAKO E JINAN - A cada cinco anos, a State Grid faz um planejamento de sua política energética, que acompanha as diretrizes de Estado. O foco é a maior eficiência e a redução de custos, alvos que só podem ser atingidos com investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. Para tanto, a empresa investiu US$ 180 bilhões no período de 2006 a 2010 e programou mais US$ 250 bilhões até 2015, ou seja, US$ 430 bilhões em dez anos.
- Somente com mais investimentos em tecnologia é possível reduzir perdas e aumentar a eficiência - disse o diretor de Investimentos da gigante chinesa, Sun Jinping.
Os frutos estão sendo colhidos. A China é o país com mais conexões e interligações com a fonte eólica do mundo. O país também investe maciçamente em energia solar, a gás, nuclear e hídrica. Com o esforço, destacou Jinping, nos últimos 30 anos não houve interrupção de fornecimento de energia de grande alcance no país.
- Precisamos garantir segurança, confiabilidade e preços competitivos - acrescentou.
A China enfrenta grandes desafios. Enquanto o Produto Interno Bruto chinês cresceu na faixa de 10% ao ano na última década, a demanda por energia aumentou bem mais:
- A estratégia e o planejamento energético precisam estar sempre em conformidade com o desenvolvimento econômico chinês.
O gigantismo da State Grid chega à instalação de laboratórios e a simulações de situações com chuva, sol e desastres naturais. Passa pela formação exclusiva de funcionários, com uma universidade na cidade de Jinan. A instituição, fundada em 2008, tem capacidade de treinamento de até 10 mil pessoas. Há aulas teóricas e práticas, uma base de teste de 200 quilowatts com modelos de subestações inteligentes e até um robô de monitoramento, o smart soldier , ou soldado inteligente (Eliane Oliveira).
O Globo, 11/11/2012, Economia, p. 38
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