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Gestão consciente

Valor Econômico, Especial/Recursos Hídricos, p. F1
27 de Set de 2016

Gestão consciente

Janes Rocha

Há anos o Brasil importa de Israel projetos e equipamentos de irrigação para a agricultura, especialmente nas regiões áridas do Norte de Minas Gerais e do Nordeste. O paradoxo nesse caso é que Israel - que é referência no desenvolvimento de irrigação - tem aproximadamente 500 metros cúbicos de disponibilidade hídrica por habitante por ano (m3 /hab/ano), o que é considerado muito pouco pelas Nações Unidas.
Já o Brasil dispõe de 47 mil m3 /hab/ano em recursos hídricos, nada menos que 13,3% da água de todo planeta. Mesmo assim, não consegue atender a região de seca do Nordeste com tecnologia própria, daí a necessidade de importação.
Os dados, apresentados por Carlos Eduardo Giampá, diretor da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), a partir de estatísticas do Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica (Daee), ilustram a situação do país nesse campo, amplamente debatida entre os participantes do XIX Congresso Brasileiro de Águas Subterrâneas, realizado em Campinas (SP) entre os dias 20 e 23.
Planejamento e gestão parecem fazer mais falta no setor de água e saneamento do que em qualquer outro, principalmente com as mudanças climáticas trazendo novos desafios não só para o Brasil, mas para o mundo inteiro. O diagnóstico dos especialistas presentes ao congresso, no entanto, foi de que a questão é mais política do que técnica. "O problema de gestão da água é político", reiterou Cláudio Pereira de Oliveira, presidente da Abas. "Os administradores públicos em geral não dão importância e os políticos, quando apresentados ao assunto, mostram interesse, mas não abraçam a causa", disse.
Para Newton Lima Azevedo, coordenador de saneamento do Conselho Tecnológico do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp) e representante do Brasil no World Water Council (França), uma verdadeira política pública da água mereceria, inclusive, um órgão exclusivo. "Como está difícil defender a criação de um ministério hoje em dia, poderia ser uma secretaria, um guichê, uma porta", comentou Azevedo que fez a palestra magna do congresso.
O importante, disse, é que o órgão possa enxergar a questão da água em toda a sua multilateralidade e possa implementar uma boa gestão dos recursos: "Não adianta ter dinheiro e tecnologia se não tiver gestão."
Azevedo destacou que é fundamental o envolvimento da sociedade. "Estamos falando nós para nós mesmos, precisamos de uma política pública que envolva a sociedade, integrando todos os planos: recursos hídricos, agricultura, indústria, usuários", disse. "Ou conseguimos sensibilizar as pessoas que bebem água, ou não conseguiremos mobilizar os políticos para uma política pública", reiterou o representante do Seesp.
Promovido pela Abas, o XIX Congresso de Águas Subterrâneas apresentou temas relevantes para gestores públicos e empresários, como melhores técnicas e tecnologias de dessalinização, reúso, redução de perdas nas empresas, tendências em perfuração e recuperação de poços e aproveitamento de água de rebaixamento de lençol freático e aqüíferos.
Os investimentos no setor aumentaram, mas são insuficientes para atingir a universalização até 2033, prevista no Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), alertou o economista Gesner de Oliveira, da GO Associados. A média anual de investimentos no período 2010-2014 foi de R$ 13 bilhões, praticamente o dobro da média dos 15 anos anteriores. Mas a média necessária para cumprir as metas do Plansab é de R$ 20 bilhões anuais.
Gesner de Oliveira, que apresentou uma análise do cenário macroeconômico e sua influência sobre o saneamento, acredita que os grandes desafios do setor, além do cenário econômico desfavorável, são a regulação, a desoneração dos investimentos, o planejamento, financiamento de longo prazo e o valor da água. Das cem maiores cidades brasileiras, 37 coletam menos que 50% do esgoto gerado e 53 tratam menos de 50%. Cinqüenta destes municípios perdem mais de 40% da água produzida e 42 não apresentaram melhoras ou até aumentaram os desvios entre 2013 e 2014.
"Perdemos R$ 8 bilhões por ano em água, o que sugere que basta reduzir a ineficiência e podemos melhorar muito", disse. O volume de perdas, lembra o economista, é equivalente a todo o investimento previsto para 2015, que é o volume mais baixo dos últimos anos. "No ritmo atual, só atingiremos a universalização em 2052", previu.
O provimento de água e saneamento básico requer investimentos de longo prazo e nesse ponto aparece o grande nó: a elevada taxa de juros. Para Oliveira, o financiamento de longo prazo tem que combinar parcerias público-privadas e participação do BNDES. "Investir em infraestrutura é a forma de sair da recessão", afirmou.
O economista defendeu "acabar com o populismo" no uso da água. "Há um custo de capital que precisa ser remunerado e se não houver revisões e ajustes adequados não vão atrair investimentos", disse Gesner Oliveira, frisando que as famílias brasileiras gastam com água e esgoto um terço do que gastam com internet. "O preço da água no Brasil é ridiculamente barato."
A referência à mais recente crise hídrica que se abateu sobre a Região Metropolitana de São Paulo entre 2014 e 2015 é inevitável. A região apresentou grande vulnerabilidade dos sistemas de armazenamento de água de superfície, com 17 cidades da região em estado de alerta para o desabastecimento e 47 em risco.
Para Newton Azevedo, do Seesp, o importante seria não perder de vista as lições aprendidas com o ocorrido. "Quando o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin] anunciou o fim da crise hídrica, ele acabou com a discussão em todo o país", lamentou Azevedo.
Vicente Andreu, presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), reforçou a necessidade de aproveitar a mudança nos padrões de consumo gerados pela crise para tomar medidas adequadas. "A demanda por água em qualquer lugar será crescente e precisamos melhorar as estruturas existentes a partir da gestão", disse Andreu. Ele defendeu a construção de novos reservatórios para abastecimento da população e das necessidades de saneamento básico, tirando o foco do setor elétrico que tem dominado os investimentos em obras com essa finalidade até agora.
"Quando se fala que o Brasil tem 500 dias de reservatório (de água), índice equivalente ao dos Estados Unidos, está muito bom", disse Andreu. "Mas se tirarmos os reservatórios das hidrelétricas, a média cai para 40 dias."
O presidente da ANA destacou a importância de discutir a destinação das bacias mais significativas para o abastecimento do Sudeste, como a do Paraíba do Sul e a do Tietê, hoje operadas prioritariamente para a produção de eletricidade. "O setor elétrico tem alternativas como a geração de energias solar e eólica, mas não há alternativa para a água."

Tecnologias permitem evitar perdas com vazamentos

Janes Rocha

Essencial para a sobrevivência humana, fundamental para a manutenção da biodiversidade e de todos os ciclos naturais, para a produção de alimentos e a preservação da própria vida, a água é um recurso estratégico para a sociedade, empresas e governos. Ainda assim, tanto as superficiais como as subterrâneas são tratadas com descaso no âmbito de regulação, poluição e degradação.
A falta de gestão agrava a situação das perdas de água nos sistemas públicos de abastecimento que, segundo dados do Instituto Trata Brasil, chegaram a 37% em 2014. Este índice está relacionado ao fato de que das 26 empresas estaduais de água e saneamento, 20 têm receitas menores que as despesas.
"Temos que fazer um Proer das empresas de saneamento", diz Newton Lima Azevedo, coordenador de Saneamento do Conselho Tecnológico do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp) e representante do Brasil no World Water Council (França). Ele se referia ao programa de saneamento de bancos falidos adotado em meados dos anos 1990.
Na opinião do engenheiro Peter Cheung, os números sobre perdas de água no Brasil na verdade são subestimados. "Os dados de perdas são furados porque não se mede nada" afirma Cheung, que é consultor em projetos do Banco Mundial, Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), do U.S. Trade and Development Agency (USTDA) e fundador da empresa de tecnologia Optimale.
Segundo ele, a indústria da água e saneamento produz números que não são analisados, embora já existam sistemas que permitem extrair valiosas informações como os "machine learners", robôs que capturam e trabalham indicadores de comportamento e preferências, à exemplo dos que são utilizados pelo Google para fazer ofertas publicitárias para as contas de e-mails.
O sistema vem sendo aplicado pela Optimale na Sanesul, empresa de saneamento básico do Mato Grosso do Sul, para identificar vazamentos e perdas. A queda dos custos de processamento de dados pode ser um aliado dos dirigentes destas empresas, com muito baixo custo, afirmou Cheung. "Não é necessário 'capex' nem infraestrutura física para tratar os dados, os sistemas estão em 'cloud computing', permitindo monitorar os dados em tempo real".
Representantes da indústria francesa Suez falaram no congresso sobre o desenvolvimento das técnicas de dessalinização e reúso que avançam pelo mundo. Depois da Thames Gateway Water Treatment Works, primeira usina de dessalinização britânica, e da espanhola Carboneras, a tecnologia está desembarcando no México que está implantando sua primeira estação. José Paulo Netto, da Maxiagua, falou sobre perfuração e recuperação de poços e Álvaro Dyogo, da Infinitytech, sobre aproveitamento da água da chuva.
Renato Rosseto, gerente da Sanasa, a companhia de água e saneamento de Campinas, apresentou a experiência do município com água de reúso, alternativa encontrada para enfrentar a escassez hídrica de 2015. Parte da rotina da cidade, o reúso foi implementado em diversos espaços públicos como o terminal rodoviário e o aeroporto de Viracopos. "Campinas tem mais de 50% do esgoto tratado, 25 estações de tratamento que aplicam diferentes técnicas", relatou o engenheiro.
Os debates do XIX Congresso de Águas Subterrâneas anteciparam ainda discussões que devem ser abordadas no 8o Fórum Mundial da Água que será realizado no Brasil em 2018. Segundo Vicente Andreu, presidente da ANA, o fórum vai debater dois temas que, na opinião dele, precisam ganhar mais importância: o compartilhamento de águas entre países e a relação recursos hídricos com mudanças climáticas. "No plano local, precisamos aproveitar a realização do fórum para produzir um legado técnico e político para a água no Brasil", comentou Cláudio Oliveira, da Abas.
O 7o Fórum, realizado na Coreia do Sul, destacou a importância da parceria público privada na gestão integrada de recursos hídricos para cumprimento das metas de desenvolvimento do milênio. "O privado não vai colocar dinheiro se não houver planejamento integrado, ambiente jurídico seguro, gestão, tecnologia e parceria", alertou Newton Azevedo.

Valor Econômico, 27/09/2016, Especial/Recursos Hídricos, p. F1

http://www.valor.com.br/brasil/4725907/gestao-consciente

http://www.valor.com.br/brasil/4725909/tecnologias-permitem-evitar-perd…

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