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A gente se vê por aqui

O Globo, Economia Verde, p. 24
Autor: VIEIRA, Agostinho
20 de Mar de 2014

A gente se vê por aqui

Agostinho Vieira

Primeiro foi a Lucélia Santos, agora já circulam pelas redes sociais fotos da Suzana Vieira e da Suzana Werner viajando de ônibus. No ano passado, alguns se surpreenderam ao ver o holandês Clarence Seedorf esperando na calçada o coletivo que o levaria até o treino do Botafogo. Se essa moda pega, talvez estejamos diante de uma solução simples e barata para o problema da mobilidade urbana.
Imagine se cada ator famoso, jogador de futebol, cantor ou empresário resolver dar uma voltinha num transporte de massa? Não precisa ser o ônibus, pode ser o metrô, a barca ou o trem. Também não é necessário fazer isso todos os dias, pode ser uma vez por semana, por exemplo. Se quiser evitar os horários de pico e os veículos cheios não tem problema. O importante é dar o exemplo.
As vantagens seriam enormes. Para começar acabaria com o preconceito. Já consigo imaginar as frases nas camisetas: "Eu, o Neymar e o Fagundes andamos de ônibus". Ou um boné: "Encontrei com a Cléo Pires na barca e me lembrei de você". Mas uma cena realmente impagável seria ver o baleiro do trem gritando que mulher bonita não paga enquanto flagrava a Luana Piovani sentada perto da janela.
Hoje, prevalece a certeza de que andar de ônibus ou de trem é coisa de pobre. Quem consegue juntar algum dinheiro trata logo de comprar um carro. Mesmo que ele passe a maior parte do tempo na garagem ou engarrafado. O que importa é o símbolo de status, a ideia de que se está subindo na vida. Poucas coisas estão mais distantes da ideia de civilização do que estar sozinho num carro preso no trânsito. Quem já visitou qualquer cidade média da Europa sabe que não funciona dessa maneira.
Mas os nossos transportes não estão no nível dos europeus. É verdade. Ou melhor, é uma meia verdade. Algumas linhas de ônibus e de metrô são até razoáveis. O que falta é um padrão mais elevado para todo o sistema e toda a cidade. E essa é a segunda grande vantagem de uma hipotética adesão em massa dos famosos aos transportes públicos. Se a classe média, de um modo geral, passar a usar mais e cobrar mais, os serviços tendem a ficar melhores.
Aliás, esta foi uma decisão anunciada pela Lucélia Santos no início da semana. Há dez dias, quando ela fez sinal para o ônibus da linha 524 (Botafogo-Barra, via Humaitá) não imaginava a repercussão que teria. Agora ela agradece à pessoa que postou a sua foto na internet: "Ela não sabe o bem que fez. Vou entrar nessa luta pela melhoria do transporte público".
E a tal batalha nem seria tão difícil assim. Todas as pesquisas sobre o tema indicam que os usuários precisam de três ou quatro itens para se sentirem satisfeitos. Em primeiro lugar, é importante que o tempo de
Aliás, esta foi uma decisão anunciada pela Lucélia Santos no início da semana. Há dez dias, quando ela fez sinal para o ônibus da linha 524 (Botafogo-Barra, via Humaitá) não imaginava a repercussão que teria. Agora ela agradece à pessoa que postou a sua foto na internet: "Ela não sabe o bem que fez. Vou entrar nessa luta pela melhoria do transporte público".
E a tal batalha nem seria tão difícil assim. Todas as pesquisas sobre o tema indicam que os usuários precisam de três ou quatro itens para se sentirem satisfeitos. Em primeiro lugar, é importante que o tempo de espera pelo ônibus, trem ou metrô seja curto, idealmente entre 3 e 5 minutos. Os veículos precisam ser confortáveis e limpos, o que inclui um bom ar-condicionado. Por fim, é fundamental pagar um preço justo pela passagem e não levar horas para chegar ao destino.
Os aumentos anunciados na terça-feira estão exatamente na contramão desse mundo ideal. As tarifas que mais subiram foram as dos trens e do metrô, respectivamente, 10,34% e 9,37%. Dois meios de transporte que deveriam ser incentivados. O combustível também subiu. O álcool, menos poluente e melhor para o planeta, aumentou 4,02%. Já a suja e muito subsidiada gasolina ficou apenas 0,77% mais cara. Parece que tudo é cuidadosamente planejado para não funcionar.
No Rio, já ultrapassamos a marca de 2,5 milhões de veículos circulando pelas ruas. Até 2016, ano das Olimpíadas, quando grande parte dos nossos problemas deveria estar resolvida, teremos um automóvel para cada duas pessoas. Um sistema que privilegia o individual em detrimento do coletivo não só é injusto como é burro. Estamos perdendo tempo e dinheiro. Segundo o Ipea, nas nove maiores regiões metropolitanas do país, os passageiros ficam, em média, 82 minutos engarrafados.
Um estudo do Instituto Akatu mostra que se esse tempo fosse zerado, o que é impossível, o ganho de produção seria da ordem de R$ 300 bilhões ao ano ou 7,3% do PIB brasileiro. Se a perda fosse reduzida para 30 minutos, meta mais razoável, o ganho de produção seria de R$ 200 bilhões (5% do PIB). Os 82 minutos diários perdidos no trânsito equivalem a seis anos de uma vida produtiva, tempo que podia ser usado para cursar uma faculdade, ficar com a família ou ver um filho crescer. Que tal aproveitar o próximo engarrafamento para pensar um pouco mais sobre isso?

O Globo, 20/03/2014, Economia Verde, p. 24

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