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Gente que ajuda a mudar a cara do pais: Brasil ja tem mais de 200 empreendedores sociais certificados. No mundo ha mais de mil

O Globo, Razao Social, p.1, 12-14
03 de Jan de 2004

CAPA EMPREENDEDORES SOCIAIS SE ESPALHAM PELO BRASIL, COMPONDO UM MOSAICO DE AÇÕES DE INCLUSÃO, DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E RESISTÊNCIA AMBIENTAL

PROFISSÃO: CIDADÃO SOCIALMENTE RESPONSÁVELMIRIAM ASSUMPÇÃO, TENENTE-CORONEL da PM de Minas e empreendedora social com as crianças do trabalho que desenvolve na periferia de Belo HorizonteEles se espalham como os mais eficientes exércitos, mas, afortunadamente, são do bem, como provam as causas que motivam suas batalhas. Empenham-se em cruzadas variadas e diferentes entre si — como o Brasil que beneficiam —, cuidando desde a floresta tropical até o Sul e suas metrópoles. O resultado das ações da tropa impõe à vida real alguns aforismos que, a cada dia, tornam-se banais: inclusão social, geração de emprego e renda, desenvolvimento sustentável, preservação ambiental... De tanto suarem a camisa na guerra contra as carências nacionais, fundaram uma profissão. Praticar e incentivar ações socialmente responsáveis virou coisa de profissional. Dos empreendedores sociais.Os empregos que fazem bem aos humanos e à florestaA eninos doentes, pequenos agricultores, empregadas domésticas, jovens infratores confinados a comunidades miseráveis, desempregados, pescadores pobres, alunos sem escola, vítimas de discriminação, ninguém escapa dos empreendedores sociais. Não por acaso, o Brasil é o segundo país do mundo em número de profissionais da responsabilidade. Pelas contas da Ashoka — organização internacional que referenda empreendedores em 48 países —, são 223 profissionais. Concentração maior, só na Índia, onde conseguiu-se a proeza de materializar problemas sociais mais graves do que os nossos.Por aqui, podemos contar com gente como o músico Rubens Gomes, empreendedor social no Amazonas. Ele desenvolve um trabalho que constrói instrumentos e mistura artes diversas — a criação de empregos para jovens carentes no mato-sem-cachorro da recessão, o uso exclusivo de resíduos e de madeiras certificadas e a produção de violões, bandolins e cavaquinhos, de onde se tira a melhor música brasileira. Criada com seis alunos em 98 no bairro do Zumbi, o mais pobre e violento de Manaus, a Oficina-Escola de Luteria espalhou-se floresta adentro. Ao não se conformar com a pobreza da capital emoldurada pela opulenta riqueza da floresta, Rubens apostou todas as fichas na educação profissional.— Meu objetivo foi criar oportunidade onde há mais exclusão — resume ele, que abandonou o emprego de professor da Universidade Federal do Amazonas para ser empreendedor social. — Acreditamos em criar oportunidades pela transformação de recursos sociais em bens. Um tipo de inclusão que, além de emprego, gera renda.Hoje, a Escola de Luteria tem quatro unidades, duas na capital. Além da oficina, há turmas de informática, numa parceria com o Comitê pela Democratização da Informática, CDI, grife do empreendedorismo. Em Boa Vista do Ramos, a 18 horas de barco rio abaixo, ele criou uma associação que incentiva o manejo florestal, através da produção de objetos artesanais. Com mais de mil jovens beneficiados, Rubens ainda se admira com a falta de ajuda dos empresários locais.— Procurei e sempre ouvi não como resposta — confirma ele, que tem apoio da Fundação Ford, do WWF, da Avina e do Banco Mundial, além dos brasileiros comuns que contribuem através do Criança Esperança. Rubens ratifica o drama de estar longe dos centros urbanos.Com Miriam Assumpção e Lima, tenente-coronel da PM de Minas Gerais, os adversários são outros. Idealista, ela desenvolve programas sociais praticamente desde que entrou para a corporação, 22 anos atrás. O primeiro trabalho foi também o mais impressionante, diante da imagem que se tem da polícia Brasil afora: a conscientização, por meio de palestras, contra a corrupção. — Tentei discutir fatores que levavam à prática. A primeira coisa que fiz foi passar o filme Proposta indecente” para falar sobre as pessoas terem preço — recorda ela, referindo-se ao filme estrelado por Robert Redford, no qual ele paga US$ 1 milhão por uma noite com a personagem de Demi Moore. — Policial não é super-homem, não está imune a essas tentações. Por isso, trabalhei as paixões e os pecados capitais — descreve Miriam, contando que não só a corrupção, mas a violência policial também diminuiu.Hoje, mestre em políticas sociais, a tenente-coronel mantém trabalho iniciado quando comandou a 10ª Companhia, que cuida da Favela do Pai Tomás, a mais violenta da capital mineira. A capacitação de educadores permitiu disseminar pela comunidade de alto risco noções impensáveis de direitos humanos. Agora, a ação continua em outras duas comunidades carentes: no Morro das Pedras, 150 pessoas participam do projeto Férias o Ano Inteiro, de preparação profissional em oficina mecânica; e na Favela do Taquaril, o Cidadãos Planetários, ação de geração de emprego e renda, capacitou 14 empregados para trabalhar numa pizzaria aberta pelo projeto com R$ 48 mil arrecadados num show do Skank, legítimo representante do melhor rock mineiro. A façanha contou com a participação do Instituto Pauline Reichstul, do qual Miriam faz parte.— Não vou parar de fazer trabalho social, para onde for — garante ela, hoje cedida à Secretaria estadual de Defesa Social, para cuidar de meninos infratores. — Esses internos têm horror à Polícia Militar. Fazemos um trabalho de aproximação através da música. Já trouxemos o MV Bill e o Afro Reggae — orgulha-se a tenente-coronel, que segue na batalha ao lado dos seus colegas da tropa social.

PRESENTE EM 48 PAÍSES, A ASHOKA INCENTIVA O TRABALHO DE EMPREENDEDORES QUE BUSQUEM DAR IMPACTO ÀS SUAS AÇÕES PARA MODIFICAR O SISTEMA VIGENTE E BENEFICIAR PESSOAS CARENTES

Receitas para dar criatividade às ações sociaisDo começo: Ashoka é o nome de um imperador indiano, que viveu no ano 3 a. C., e foi o primeiro humano a realizar ações sociais de que se tem notícia. Em sânscrito, a palavra quer dizer ausência ativa de tristeza. Em português e nos idiomas de outros 47 países, significa responsabilidade social, com criatividade, para mudar o sistema social vigente. Associação internacional sem fins lucrativos nem quaisquer ligações com governos, a Ashoka busca impacto social na rigorosa escolha de seus fellows, que recebem bolsas de três anos com valores entre R$ 800 e R$ 4 mil mensais.É gente como Wellington Nogueira, do Doutores da Alegria, que ajuda crianças enfermas em hospitais do Brasil; ou como Valdecir Nascimento, baiana que coordena um programa de formação de cidadania de adolescentes negros com ênfase em trabalhadoras domésticas, para humanizar o trabalho doméstico, ensinando a essas profissionais os seus direitos; ou ainda como Rodrigo Baggio, do CDI (Comitê pela Democratização da Informática), que já incluiu mais de 500 mil pessoas no mundo digital. A Ashoka incentiva quem consegue ampliar o impacto social de suas ações.— A profissão ganha visibilidade com a disseminação das práticas — ensina Anamaria Schindler, vice-presidente de parcerias estratégicas.— O empreendedor tem de ser estrategista, visionário, saber onde vai chegar, que impacto social pode causar — receita Célia Cruz, diretora da associação.A associação também dedica especial preocupação ao perfil ético dos candidatos à certificação. Os fellows mais antigos ajudam na investigação, que também é feita no mercado.— O empreendedor precisa ter o que chamamos de fibra ética, porque vai lidar com o público, a sociedade — explica Anamaria. — Tem de ser impecável, preservar uma atitude ética em toda a sua vida.A vice-presidente da Ashoka avalia que o Brasil avançou na área social, mas alerta que ainda há muito o que fazer. Ela cita como exemplo o fato de que muitas empresas entendem como responsabilidade social o simples cumprimento da lei. E aponta os caminhos para os empreendedores sociais.— É disseminar as práticas, acabar com barreiras entre setores. O empresário não pode mais pensar somente na geração de emprego, renda e lucro. Tudo isso precisar estar conectado às ações sociais — raciocina.Anamaria acredita que estamos no limiar de um momento histórico: num futuro muito próximo, será praticamente impossível uma empresa ser sustentável se estiver dissociada do desenvolvimento de toda a sociedade. Daí, os empreendedores sociais devem ganhar ainda mais espaço.— As empresas estão correndo contra o tempo e podem buscar empreendedores que aliem capacidade inovadora a gerenciamento e liderança. Mas ainda não acontece hoje — ressalva.Pioneiro no setor, Rodrigo Baggio, do CDI, vai além. Ele acha que num futuro próximo, as empresas serão dirigidas por empreendedores sociais.— Os executivos terão obrigatoriamente que se adaptar à nova realidade e aprender sobre o assunto — prevê.

Historia de Sucesso
TETÊ E AS COSTUREIRAS DA COOPA-ROCA
Profissionalismo, dignidade e competência num trabalho que virou grife badalada na moda brasileiraFellow da Ashoka, a socióloga Tetê Leal coordena a Coopa-Roca, cooperativa de costureiras da Rocinha que virou grife badalada da moda nacional. Ela concorda com os requisitos listados pela associação que incentiva o empreendedorismo social. Uma profissão, aliás, mais antiga do que o recente modismo que invadiu o setor.— A função exige sentido de liderança, capacidade de empreender, vontade de pensar a estratégia e força para transformá-la em ações — traduz.E faz. Com qualidade reconhecida mundo afora, a Coopa-Roca funciona num processo coletivo, que dá dignidade a profissionais antes vítimas do preconceito. Todas da Rocinha, passaram boa parte da vida marcadas por serem da comunidade carente encravada em São Conrado, ninho da alta classe média carioca. Tetê começou em 1981, quando pouco se falava em responsabilidade social. Moradora do Leblon que leu Paulo Freire na adolescência, um dia descobriu-se curiosa com a favela gigante, que tomava toda a encosta. Não sossegou enquanto não foi à Rocinha — com o salvo-conduto da empregada de uma amiga, que morava lá.O primeiro trabalho foi com crianças, numa oficina de reciclagem de materiais. Um representante de fábrica de tecidos viu algumas colchas, feitas por costureiras da comunidade. Nascia a Coopa-Roca, que mantém até hoje, com 140 profissionais, uma lógica diferente de funcionamento. E que mudou, para melhor, o modo de viver daquelas pessoas.— Temos uma articulação com o setor privado, numa troca necessária e importante. Mas só isso — explica Tetê, celebrando os tempos atuais. — É importante que empresas estejam atentas às oportunidades nesse tipo de troca. Mas é preciso que elas de fato se responsabilizem, mergulhem nisso, para que haja interação — aconselha a empreendedora.

ASSOCIAÇÃO TEM 1.400 FELLOWS

NO BRASIL, são 223 empreendedores sociais selecionados pela Ashoka, que está presente no país desde 1986.A ASSOCIAÇÃO analisa 600 novos candidatos a bolsas a cada ano, para selecionar 17. Além disso, monitora permanentemente o trabalho de todos os fellows.CADA EMPREENDEDOR recebe uma bolsa que varia de R$ 800 a R$ a 4 mil mensais, com duração de três anos.NO MUNDO, são cerca de 1.400 empreendedores, espalhados por 48 países.

O Globo, 03/01/2004, p. 1, 12-14

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