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A genética foi demonizada

O Globo, Ciência e Vida, p. 51
Autor: SALZANO, Francisco M.
07 de Mar de 2004

A genética foi demonizada

Cientista alerta que movimento contra a ciência impede estudos que beneficiam índios e fomenta preconceito

A idéia original era redimir uma injustiça com um dos pioneiros da genética, o americano James Neel, já falecido. Mas o livro que o geneticista Francisco Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lançou este ano é um alerta sobre o crescimento da anticiência, movimento fomentado por ambientalistas radicais e ultra-religiosos. Considerado um dos maiores especialistas do mundo em genética de populações e um dos mais respeitados cientistas do Brasil, Salzano dedicou quatro décadas de seus 75 anos aos índios brasileiros, em especial os xavantes. Em "Lost paradises" ("Paraísos perdidos"), recém-publicado pela Oxford University Press, Salzano e a antropóloga venezuelana Magdalena Hurtado reúnem artigos de brasileiros e estrangeiros sobre a ética em pesquisa com índios e os desafios à ciência.

Por que o senhor escreveu o livro?

Francisco Salzano: Fiquei preocupado com as conseqüências nocivas que a repercussão das inverdades publicadas em "Trevas no Eldorado" poderiam ter sobre a população indígena e a ciência. Integrei uma comissão da Academia Brasileira de Ciências que analisou o livro e concluiu que não havia nele qualquer verdade. James Neel era membro estrangeiro da academia. Ele foi um dos grandes nomes da genética e sua reputação não poderia ser manchada por mentiras. Depois disso, Magdalena Hurtado, que trabalha há anos com populações indígenas e conhecia Neel, me procurou e elaboramos um projeto.

Mesmo após as acusações de "Trevas no Eldorado" terem sido refutadas, o estrago já estava feito, não?

Salzano: O impacto foi o pior possível. DNA virou palavrão. A genética foi demonizada. Hoje, praticamente não se fazem mais estudos de genética com populações indígenas no Brasil. A resistência maior é de ONGs que seguem a ideologia de que só o que é natural é bom. Criou-se um preconceito contra a ciência.

Que prejuízo os índios podem ter com a falta de pesquisas?

Salzano: Há numerosos fatores genéticos associados à suscetibilidade ou à resistência a doenças. Esses fatores variam entre as populações humanas. Por isso, estudos médicos feitos para beneficiar a população branca dos Estados Unidos, por exemplo, podem não ser válidos no Brasil. E aqui, o que vale para pessoas de origem negra ou branca, pode não valer para os índios e variar mesmo entre os próprios grupos indígenas. A resposta a vacinas pode variar de um grupo para outro. Sabe-se que há grupos indígenas muito vulneráveis a determinados vírus e bactérias. Estudos genéticos contribuem para indicar a melhor estratégia de vacinação, por exemplo. Precisamos inserir o índio nos estudos globais.

Além da saúde pública, que outra contribuição a genética pode dar aos povos indígenas?

Salzano A genética tem contribuído significativamente para a compreensão da História da Humanidade. O DNA é um guia para o passado do homem. Revela histórias de migrações e conquistas de territórios ocorridas há mais de dez mil anos. Estudos genéticos têm mostrado como os antepassados dos atuais índios conquistaram as Américas há muitos milhares de anos. Quem impede esse tipo de pesquisa nega ao índio o direito de conhecer sua história.

Mas também não há risco de os índios serem explorados?

Salzano: Sim. Esse risco sempre houve e não pode de forma alguma ser ignorado. Seja para a pesquisa de genética, de antropologia, de medicina. A exploração pode vir de diversas formas, como pegar amostras genéticas tiradas do sangue, por exemplo, e não retribuir com nenhum tipo de retorno assistencial ou monetário. O próprio Patrick Tierney se aproveitou dos ianomâmis. O que eles ganharam com o livro dele? Eu respondo. Não ganharam um tostão, nenhum tipo de royalty. Recentemente escrevi com outros colaboradores um livro sobre os xavantes, que foram convidados a participar e receberam por isso. É preciso que os comitês de ética estejam sempre vigilantes para impedir abusos. Nosso livro, por exemplo, propõe uma ação coordenada das instituições científicas.

E o risco de biopirataria, de roubo do conhecimento ou do próprio DNA dos índios?

Salzano: Essa é uma questão séria e muito complexa. É preciso levar em conta a ética das pesquisas, avaliar os benefícios que um determinado estudo pode trazer para toda a sociedade e não apenas para uma comunidade. O combate da biopirataria também envolve a discussão sobre patentes. Eu sou contrário a patentes. O conhecimento obtido por pesquisas deve ser partilhado por todos.

O que o senhor acha da defesa do isolamento dos índios?

Salzano: É impossível manter um povo intocado. Isso nunca existiu na História da Humanidade. As pessoas que querem manter os índios assim estão preocupadas, na verdade, com a unidade biológica ou cultural que eles representam. Isso é válido. Mas também não é justo negar a esses povos benefícios trazidos pela ciência. Não podemos deixar pessoas morrerem. Isso vem sendo intensamente discutido e acredito que deveria ser decidido pelos próprios indígenas. Hoje há lideranças indígenas que lutam por autodeterminação e representatividade.

O senhor tem chamado a atenção para o movimento contra a ciência no mundo. Como está a situação?

Salzano: Grupos ou movimentos contra a ciência sempre existiram, mas nos últimos anos ganharam destaque desproporcional ao seu tamanho e representatividade. Vejamos o caso dos alimentos transgênicos, por exemplo. Eles são tratados de forma irracional e inconsistente. Vivemos um momento de pregação da chamada falácia naturalista, a pregação de que tudo o que é natural é bom. Isso é uma evidente mentira. Câncer e Aids, por exemplo, são naturais.

Que grupos anticiência são esses?

Salzano: São principalmente os ultraconservacionistas e os ultra-religiosos, em suas muitas nuances. Eles têm se mobilizado para atrair a atenção do público e são nocivos. Ao pregar falsas promessas de saúde eterna, os ultra-religiosos acabam por dificultar o acesso a tratamentos médicos verdadeiros. Já os ultraconservacionistas querem, em última instância, expulsar o homem da natureza.

Como tem sido a resposta dos cientistas à anticiência?

Salzano: Tímida. Não houve até agora uma reação forte. Nos EUA, por exemplo, há interferência de religiosos no ensino de biologia, querem impedir o ensino da evolução. O pior é que isso está chegando ao Brasil.

Que ameaça a anticiência representa para o Brasil?

Salzano: Primeiro, vejamos o caso das idéias ultra-religiosas. Elas baseiam-se na crença de que só é verdadeiro aquilo que é revelado por Deus. Esse tipo de pensamento bloqueia o acesso à saúde, tolhe o espírito crítico e é nocivo ao desenvolvimento profissional. E não podemos ser ingênuos no caso de certos grupos ambientalistas. Não estamos falando de boas intenções. Eles defendem questões que envolvem interesses econômicos e representam setores poderosos

Entenda a polêmica

'Lost Paradises' é uma resposta a "Trevas no Eldorado", do americano Patrick Tierney. lançado em 2000 com alarde, o livro de Tierney acusa Neel e o antropólogo Napoleon Chagnon de provocarem a morte de milhares de Ianomâmis e os explorarem em pesquisas genéticas.
"Trevas no Eldorado" causou um escândalo, mas investigações de academias de ciência no Brasil e nos EUA revelaram, porém, que o livro havia sido escrito sem provas e baseado em presunções, além de conter erros científicos. Salzano diz, todavia, que o estrago à ciência e aos próprios índios ainda hoje continua a ser sentido. Pesquisas com indígenas hoje estão praticamente paradas no Brasil.

O Globo, 07/03/2004, Ciência e Vida, p. 51

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