OESP, Economia, p. B8-B9
04 de Ago de 2013
Gás de xisto, uma revolução americana
Exportação a preços competitivos deve mudar cenário global de energia
Denise Chrispim Marin - ENVIADA ESPECIAL / PITTSBURGH
Em apenas quatro anos, a exploração de gás de xisto nos Estados Unidos iniciou uma revolução energética capaz de alterar o cenário econômico do país. A atração de investimentos produtivos, antes vista como impossível, tornou-se inevitável, assim como a autossuficiência em fontes de energia. Com ou sem cota - tema polêmico e ainda não definido -, os EUA estarão em poucos anos exportando gás natural em volume suficiente para mudar o panorama mundial.
A reserva americana de gás de xisto é estimada em 2,7 trilhões de metros cúbicos, nos cálculos da Administração de Informação sobre Energia (EIA) de dezembro de 2010. É suficiente para abastecer o mercado por mais de 100 anos. Mas pode ser maior. A extração começou há poucos anos, está em constante avanço tecnológico e contribuiu para a produção de 27,4 quatrilhões de BTUs (British Thermal Unit, unidade de energia para medir quantidades de gás) no ano passado.
Tamanha oferta de gás de xisto, a custos relativamente baixos de produção, permite a venda do gás natural americano a US$ 4 por milhão de BTUs - o menor preço do mercado mundial. Em 2020, serão 31,3 quatrilhões de BTUs - 14% mais, nas previsões da EIA. Atualmente, essa nova fonte responde por 34% do total de gás natural extraído no país.
O McKinsey Global Institute inclui o gás de xisto entre os cinco setores capazes de mudar a economia americana. Entre 2007 e 2012, essa extração aumentou, em média, 50% ao ano. A consultoria estima que, até 2020, o gás vai adicionar de 2% a 4% ao Produto Interno Bruto (PIB) anual dos EUA - algo entre US$ 380 bilhões e US$ 690 bilhões - e gerar 1,7 milhão de empregos diretos, especialmente para trabalhadores com nível superior de escolaridade.
O setor vai trazer consigo potencial para revitalizar o setor energético, atrair investimento de indústrias intensivas em energia e impulsionar a economia. Entre US$ 55 bilhões e US$ 85 bilhões deverão ser adicionados ao PIB industrial americano até 2020, em investimentos de companhias petroquímicas, de fertilizantes, siderúrgicas, de vidro e outras. Espera-se o renascimento da indústria manufatureira do país.
No PIB do conjunto dos setores de construção, transportes, serviços e comércio, entre US$ 210 bilhões e US$ 380 bilhões serão agregados. Mais US$ 1,4 trilhão deverá ser investido em curto prazo em infraestrutura e gasodutos, com geração de 1,6 milhão de postos temporários de trabalho. Esse boom deverá se estender por quase todo o país, dado o fato de as 48 reservas de gás de xisto estarem em 28 Estados americanos. Desse conjunto, 26 reservas estão em exploração. Somente na formação geológica de Marcellus, que abrange a Pensilvânia, Nova York, Ohio e Virgínia Ocidental, há de 5 mil a 6 mil poços em operação.
"Nos últimos cinco anos de recessão, essa foi a atividade que salvou vários Estados", afirmou Christopher Guith, vice-presidente do Institute for 21st Century Energy, da US Chamber of Commerce. "O gás de xisto vai mudar o panorama mundial, assim como a Apple e a Microsoft estão fazendo nos últimos anos, porque vai tocar em toda a economia e na vida das pessoas", disse. "O que queremos é fazer com que essa mudança se torne ainda mais positiva", completou Guith.
As entidades de empresas produtoras de gás de xisto ambicionam deslocar o carvão como fonte - altamente poluidora - de energia elétrica no país. Hoje, 50% da eletricidade é gerada em térmicas a carvão. Mas o lobby político desse setor no Congresso não permitirá a fácil conquista desse mercado. O gás de xisto já vem substituindo o diesel em ônibus e caminhões, apesar de poucos postos terem o combustível.
O preço atual de venda de gás natural, de US$ 4 por milhão de BTUs, é imbatível. A Rússia escoa gás natural para a Alemanha a US$ 11,36. Na Indonésia, custa US$ 17,72. No Brasil, cerca de US$ 18. Os produtores estimam que, ao atingir um volume substancial, o preço rondará US$ 6 por milhão de BTU em dez anos. A Europa, atual consumidora de carvão americano, está ansiosa por essa fonte limpa e barata. O Japão, especialmente depois da tragédia de Fukujima, está ainda mais desejoso.
Há muito a ser feito antes da corrida aos mercados externos. Cinco projetos de instalação de usinas para transformar o gás em GNL estão em estudos. Dos quatro terminais portuários de gás na Costa Leste, todos voltados à importação, três deles estão fechados. O de Boston opera, mas precisa ser convertido para a exportação. Há apenas um terminal de exportação em funcionamento no país, no Alasca, que escoa volume limitado de gás para o Japão. O gargalo físico é um desafio. Mas não tão difícil de ser superado quanto a resistência do governo Barack Obama.
A Casa Branca é reconhecida como adversária pelos setores de energia fóssil dos EUA. Mesmo assim, os produtores acreditam ser possível dobrá-la com um argumento sensível: o potencial de geração de empregos. Segundo David Wochner, especialista da consultoria K&L Gates, o governo americano está neste momento preocupado em adequar oferta e preço, no mercado interno, antes de facilitar a exportação. Não quer se ver diante do risco de escalada do preço do gás no país. Sem a dimensão mais precisa das reservas, a equação pode demorar a surgir.
Novo mercado preocupa empresas brasileiras
A produção de gás de xisto nos Estados Unidos e seu baixo preço de venda deixou em suspenso projetos de companhias brasileiras. Para a Coalizão das Indústrias Brasileiras (BIC, na sigla em inglês), a possibilidade de fuga de investimentos produtivos do Brasil para os EUA é tão real quanto o risco de o etanol ser substituído pelo gás natural como combustível de transição.
A Odebrecht avalia os riscos na construção de hidrelétricas na América Central. Empresas comercializadoras estudam a lógica desse novo mercado, cientes dos riscos aos negócios em curso, e geradoras de energia temem a repetição, no Brasil, dos erros e da desorganização inicial da produção nos EUA. O País têm reservas estimadas em 6,9 trilhões de metros cúbicos, em especial no Vale do Rio São Francisco, onde mais de 30 poços estão sendo pesquisados.
"O gás de xisto está revolucionando o mercado de energia e a produção nos Estados Unidos, com reflexos sérios para o Brasil", diz Célia Feldpausch, diretora executiva da BIC, e organizadora de duas missões de executivos brasileiros, em Pittsburgh, sobre o gás de xisto.
Khary Cauthen, diretor do Instituto Americano do Petróleo (API), lembra que o etanol era uma "vaca sagrada" nos EUA há dez anos. O setor produtor teve seus créditos tributários facilmente derrubados no ano passado pelo Congresso, antes defensor arraigado desses subsídios. O álcool tende a ser substituído pelo gás natural na mistura obrigatória à gasolina, em longo prazo.
No Brasil, dois leilões de áreas de gás natural estão programados para outubro e novembro. A Petrobrás monopoliza o transporte e a comercialização. O mercado aberto impera nos EUA desde a exploração - os locais são alugados pelo proprietário da terra - até a venda aos setores usuários do gás natural. A rede de gasodutos tem 38 mil quilômetros.
A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA COALIZÃO DAS INDÚSTRIAS BRASILEIRAS (BIC), INTEGRANDO A MISSÃO DE EMPRESAS DO BRASIL A WASHINGTON E PITTSBURGH
Braskem descarta importação e agora aposta no Brasil
Denise Chrispim Marin - ENVIADA ESPECIAL / PITTSBURGH
Observadora de camarote da revolução do gás de xisto na Pensilvânia, a Braskem promete não deslocar investimentos no Brasil para terras americanas nem importar o insumo dos EUA. Segundo o presidente da Braskem America, Fernando Musa, a empresa não se beneficia neste momento da abundância e dos preços baixos do gás de xisto. Mas não deixará de fazê-lo nos próximos anos.
"A competição no mercado brasileiro é a nossa prioridade. Nossos investimentos nos EUA não vão ocorrer em detrimento dos nossos projetos no Brasil", afirmou Musa ao Estado. "O custo do gás não é 100% da equação."
A sede da Braskem América está na Filadélfia, na Pensilvânia, Estado sentado sobre a maior jazida de gás de xisto do país. Nessa região, a empresa mantém seu Centro de Tecnologia e Inovação e uma unidade produtora de 350 toneladas métricas de polipropileno, a matéria-prima para plásticos. A empresa têm ainda unidades produtivas em Virgínia Ocidental e no Texas, onde está seu escritório comercial.
Para Musa, o gás de xisto se tornou uma "nova fronteira industrial" para a Pensilvânia e os EUA. Como executivo-chefe das operações no país, sua tarefa será identificar as oportunidades geradas por essa fronteira para alavancar a capacidade produtiva e a competitividade da empresa. Nos próximos 12 meses, a Braskem deverá se decidir entre duas opções que já se apresentaram.
A primeira é investir como sócio minoritário numa nova unidade de polipropileno nos EUA, valendo-se do propano mais abundante no chamado gás de xisto úmido. A segunda opção será firmar um contrato de longo prazo de fornecimento prioritário de propeno com uma empresa local, assim como vem fazendo com a texana Enterprise. Nos próximos 6 a 18 meses, novos projetos de instalação de unidades para a transformação do propano em propeno, a matéria-prima do polipropileno, devem ser anunciados. Com base nesse novo cenário, a Braskem tomará sua decisão.
No Brasil, a Braskem aposta no gás natural da camada pré-sal. Se o preço final for menos competitivo que o do gás natural dos EUA, a empresa terá de aumentar sua competitividade em outros fatores, disse Musa. Em princípio, explicou, pode-se argumentar que o custo de produção do gás nessas plataformas será "zero" porque o objetivo delas é extrair petróleo. O transporte se dará por um único duto ao continente, e não por um emaranhado de gasodutos, por 30 anos. Os poços de gás de xisto têm duração efêmera, de cerca de dois anos.
A possibilidade de importação de gás natural - de xisto - dos EUA não está no horizonte da Braskem. No Brasil, suas unidades transformam o etano no polietileno, a matéria-prima para o PVC. Esse gás mais raro, porém, tem de ser mantido em temperaturas muito baixas e, para o transporte, exige caros navios refrigerados. O preço, estima Musa, deverá ser alto demais.
Ambientalistas veem risco na extração do gás de xisto
Tecnologia de injeção de água para retirar o gás de xisto provoca disputa entre companhias e organizações de defesa do meio ambiente
Denise Chrispim Marin - ENVIADA ESPECIAL / PITTSBURGH
A produção de gás de xisto nos EUA deve abandonar a tecnologia de injeção de água, em poucos anos, e incorporar outra com menor risco de contaminação de fontes de água potável. O setor avança com rapidez nessa linha, ansioso por reduzir os pesos da regulação e da antipatia dos vizinhos dos seus poços. Mas até a nova tecnologia ser incorporada, a extração estará assombrada pelos riscos à saúde pública e ao meio ambiente e pela briga feroz entre ambientalistas e companhias do setor.
Um total de 86,4 milhões de metros cúbicos de água - com aditivos químicos tóxicos - é injetado a cada ano apenas nos poços da formação geológica de Marcellus, a maior fonte de gás de xisto dos EUA, que abrange quatro Estados americanos. Cerca de 1/3 desse volume de água retorna à superfície com a aparência de lama, carregada de compostos orgânicos, metais, radioativos e detritos de rochas. Risco potencial de contaminação está presente em toda a operação (veja ao lado).
O casal Stephanie e Chris Hallowich e seus dois filhos viveram a pior experiência. A família aguarda o julgamento da ação contra produtoras de gás que operavam nas proximidades de sua casa, em Mount Pleasant Township, na Pensilvânia. Stephanie e Chris mencionam a propriedade como "a casa dos nossos sonhos". Mas viver no local os expôs a sintomas como dor de cabeça e garganta, sangramento no nariz e queimação nos olhos.
A família abandonou a "casa dos sonhos" e iniciou a batalha judicial contra quatro empresas - Range Resources, Williams Gas/Laurel Mountain Midstream, Markwest Energy Partners, Markwest Energy Group - e o Departamento de Proteção Ambiental da Pensilvânia. Esse é apenas um dos casos acompanhados pela organização Clean Water Action.
Na lista da organização ambientalista estão outros 803 casos de indivíduos e famílias ameaçados pela produção de gás de xisto somente na Pensilvânia. Entre elas, muitas autorizaram a exploração do gás em suas propriedades, com a promessa de receber o equivalente a 12% da produção - algo como até US$ 35 mil ao mês.
Segundo Steve Hvozdovich, da Clean Water Action, fontes de água potável estão sendo contaminadas. A regulação ambiental não é dura na Pensilvânia, afirmou ele, e a fiscalização tem sido negligenciada. "As empresas alegam que a produção é segura e têm um forte lobby no governo do Estado. Mas há risco de 50 a 50 de contaminação", afirmou Hvozdovich.
"O risco para a água foi distorcido grosseiramente. Estamos sofrendo pressão constante para mudar o processo de produção por causa de um mito", afirmou Lee Fuller, vice-presidente da Associação de Produtores Independentes da América (IPAA).
Fuller acredita que a proibição do processo de fracionamento das rochas, por meio da injeção de água com aditivos químicos sob alta pressão, "vai matar a produção de gás de xisto". Mas Christopher Guith, da Câmara de Comércio dos EUA, avalia ser possível a adoção de uma tecnologia que não envolva o uso da água em três a quatro anos. "Essa área está avançando tão rapidamente que já está ultrapassado o que hoje conhecemos."
Para Khary Cauthen, diretor do Instituto Americano do Petróleo (API), a briga tem motivação mais profunda. "Os ambientalistas que defendiam o uso do gás natural há dez anos agora são contrários. A questão, para eles, é ser contra o combustível fóssil."
As empresas falam em revestir a tubulação com aço e cimento, para evitar vazamentos. A questão principal é o que fazer com a água poluída que retorna à superfície. A reutilização da água no processo de extração de gás é uma opção, assim como seu tratamento, para voltar aos rios. Mas há temores de negligência nesses processos.
A Range Solutions, com 350 poços em atividade na formação de Marcellus, mantém 12 tanques a céu aberto para armazenar essa água poluída. As paredes dos tanques são revestidas com malhas impermeáveis, e o lago de lama é cercado. Mas Hvozdovich, da Clean Water Action, disse ter visto malhas rasgadas e aves boiando no local.
Segundo Molly Walton, pesquisadora do Programa de Energia e Segurança Nacional da Johns Hopkins University, nenhum dos riscos é grave ou incontornável a ponto de paralisar a produção de gás de xisto. Os estudos sobre a contaminação das águas, completou ela, têm mais de cinco anos e não refletem mais a situação atual.
O resultado preliminar de um estudo do Departamento de Energia (DoE) trouxe boas-novas aos produtores na semana passada: não houve evidência de contaminação dos aquíferos da Pensilvânia pelo processo de fragmentação das rochas. Mas não há ainda razões para o governo retirar sua atenção sobre esse tópico.
As empresas temem limites ao uso da água pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), o principal regulador federal, com base no resultado do estudo do DoE, em 2014. Esses limites trariam, em princípio, um denominador comum. Nos EUA, porém, a Pensilvânia é rica em rios e populosa em quase todo o território. O árido Texas, outro grande produtor, tem escassez de recursos hídricos e população concentrada em grandes centros urbanos.
OESP, 04/08/2013, Economia, p. B8-B9
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