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Garimpo na Terra Yanomami põe em risco indígenas isolados

Amazônia Real - https://amazoniareal.com.br/
25 de mar de 2021

Garimpo na Terra Yanomami põe em risco indígenas isolados
Levantamento identificou um aumento de 30% de degradação ambiental; liderança Yanomami diz que território está "doente, sofrendo e sangrando"

Por Amazonia Real
Publicado em: 25/03/2021

Uma área degradada de 2.400 hectares é o tamanho do rastro de destruição que o garimpo ilegal do ouro deixou na Terra Indígena Yanomami, localizada ao extremo Norte do Brasil, entre os estados de Roraima e Amazonas. Somente em 2020, foram registrados 500 hectares de degradaçao no território dos Yanomami, resultado da presença de mais de 20 mil garimpeiros associada à intensificação de material pesado e sofisticado para a extração do minério - um crescimento de 30%.

A atividade ilegal se prolifera, se aproxima cada vez mais das comunidades indígenas e coloca em risco os grupos de indígenas isolados. É o que aponta relatório inédito lançado pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e Associação Wanasseduume Ye'kwana (Seduume), que representam os povos indígenas originários deste território.

Os dados do documento "Cicatrizes na Floresta - Evolução do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami (TIY) em 2020", lançado nesta quinta-feira (25), chega para denunciar como a atividade ilegal se prolifera no território, subindo os rios, com crescentes núcleos de invasores e com novas rotas de acesso ao interior da floresta.

De acordo com o relatório, os indígenas Moxihatëtëma, que vivem em isolamento voluntário no território, estão pressionados pelo aumento da circulação de garimpeiros na região da Serra da Estrutura, localizada a poucos quilômetros de suas comunidades, e correm risco de genocídio. O novo levantamento também denuncia como o avanço dos garimpeiros no território indígena tem levado doenças às comunidades, sobretudo a malária e a Covid-19, confirmando denúncia que os Yanomami fizeram ano passado, conforme reportagem da Amazônia Real.

"À malária e às demais doenças infecciosas somou-se a Covid-19, transmitida diretamente por trabalhadores no garimpo que continuaram circulando livremente pela TIY - foram registrados 949 casos da doença até outubro de 2020, com forte incidência em Waikás (26,9% da população), Kayanau (9,5%)13, dois exemplos de área onde a doença se disseminou após o autoisolamento das famílias indígenas ser quebrado pela convivência forçada com garimpeiros", diz trecho do relatório.

Água suja, rio amarelado e buracos por toda a parte é no que tem se transformado a terra indígena, segundo atestaram os indígenas. "Homem garimpeiro é como um porco de criação da cidade, faz muito buraco procurando pedras preciosas como ouro e diamante. Há vinte anos conseguimos mandar embora esses invasores e eles retornaram. Estão entrando como animais com fome, à procura da riqueza da nossa terra. Está avançando muito rápido. Está chegando no meio da terra Yanomami. O garimpo já está chegando na minha casa", afirmou a liderança Davi Kopenawa, presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), em declaração publicada no relatório.

Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, esteve no sobrevoo realizado em dezembro em seu território. Em entrevista à Amazônia Real, ele disse que ficou "com dor no coração, bastante preocupado e revoltado com a destruição absurda que viu".

"Essa destruição causada pelo garimpo é uma ferida, um buraco grande. Mostra que a nossa terra, a nossa mãe-terra, está doente, sofrendo e sangrando. Ela pegou numa doença muito forte", descreveu ele, emocionado.

As denúncias sobre a invasão na Terra Indígena Yanomami são históricas e se repetem ano após anos, a cada recrudescimento dos ataques dos garimpeiros e seus financiadores. Conforme Dário Yanomami, é dever do Estado brasileiro proteger e expulsar os invasores e não tem por que as autoridades não cumprirem seu dever.

"Esse relatório vai ser para o mundo todo. Significa que o garimpo está se agravando, está piorando e aumentando. Hoje, muita gente não acredita no que a gente está falando e muita gente é a favor do garimpo, de pegar ouro do nosso território", afirmou. Segundo Dário Yanomami, se há dois anos a Hutukara e seu, pai, Davi Kopenawa, denunciaram que haviam 20 mil garimpeiros, hoje, este número foi ultrapassado.

O líder Yanomami mostrou-se indignado com a ausência não apenas de fiscalização, mas também de uma ação mais rigorosa do poder público, sobretudo os da Segurança e da Polícia, para punir tanto os invasores do território quanto os financeiros da atividade criminosa.

"Os brancos não respeitam a nossa área demarcada. É uma área proibida para eles. Se eu fosse fazer um malocão no centro da terra deles [dos brancos] eles iriam me expulsar. Ano passado, fizemos denúncia da campanha Fora Garimpo e Fora Covid. Mas não tem funcionado. Então, nós temos direito de reclamar, de cobrar, de criticar. O governo não está cumprindo seu dever e sua responsabilidade. Por isso, continuamos cobrando para retirar imediatamente os garimpeiros".

Em julho de 2020, Dario Yanomami chegou a reunir-se com o vice-presidente do país, general Hamilton Mourão, em Brasília, quando ele cobrou ação emergencial para retirada dos garimpeiros e denunciou o assassinato de dois Yanomami. Mourão se comprometeu a reabrir as Bases de Proteção a Índios Isolados, mas desacreditou os dados das lideranças indígenas. Em sua conta no Twitter, Mourão disse que eram em torno de 3, 5 mil garimpeiros ilegais e não 20 mil, como diziam os indígenas.

A liderança Yanomami cobrou atuação mais eficiente e permanente da Polícia Federal, do Exército e do Ministério Público Federal. Para ele, estes órgãos não fazem sua obrigação de investigar, punir e prender os responsáveis pelo garimpo.

"Se nós indígenas derrubar uma mangueira de uma área que não é nossa, vamos ser presos. Esse crime ambiental [garimpo] está nos prejudicando e já nos prejudicou, mas as autoridades não punem os responsáveis", alertou.

O relatório foi elaborado a partir de análises de imagens de satélite da constelação Planet e Sentinel 1, mapeamento mensal das áreas degradadas na terra indígena, e organização de informações oriundas de denúncias e relatos das comunidades. Um sobrevoo do Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal na TIY, realizado em dezembro de 2020, produziu o registro fotográfico que complementa o levantamento.

Segundo o levantamento, o rio Uraricoera concentra mais da metade (52%) de toda a área degradada pelo garimpo identificada por sensoriamento remoto, segundo o levantamento. Até recentemente, o garimpo "tatuzão do mutum" concentrava a maior parte da exploração. Hoje, além dele, surgiram outros "tatuzões", tais como: a lavra próxima à comunidade de Aracaçá; o "Tatuzão Brabinho", abaixo do Mutum; o garimpo vizinho à comunidade Korekorema; e o Tatuzão "Cabaré", abaixo de Waichannha.

O relatório aponta também que, no início de 2020, surgiram relatos de uma investida de garimpeiros com a intenção de conectar as minas do rio Catrimani à exploração no rio Novo, por meio de uma trilha que cortaria o divisor de águas local, na cabeceira do Apiaú. A trilha partiria das vicinais próximas à Terra Indígena Yanomami cruzando a Floresta Nacional (Flona) de Roraima e seria percorrida por quadriciclos por baixo do dossel das árvores, dificultando a detecção por satélite. Existe o risco de que essa movimentação possa induzir ao contato com o grupo, traz a denúncia.

O documento demanda uma série de recomendações às autoridades e órgãos públicos, com destaque para a apresentação urgente de um plano integrado de desintrusão total do garimpo na Terra Indígena Yanomami, a retomada de operações periódicas na terra indígena para destruição da infraestrutura clandestina instalada e o avanço das investigações para identificar e responsabilizar os atores da cadeia do ouro ilegal.

Empresários e políticos apoiam garimpo

Davi Kopenawa (Foto: Alberto Cesar Araújo/Amazônia Real)

Para Davi Kopenawa, principal liderança indígena do povo Yanomami, há um temor de que haja conflito entre indígenas e invasores. "Estou muito preocupado, pois o garimpeiro não está sozinho, são grandes grupos, andam armados, apoiados por empresários, pelo governador de Roraima e pelo presidente Bolsonaro, assim como outros empresários do Brasil. Aqui em Roraima, os garimpeiros, empresários e políticos não respeitam os povos indígenas, só querem tirar as nossas riquezas", declara, no relatório.

O documento aponta o aumento de conflitos entre indígenas e invasores como um dos efeitos da maior presença garimpeira na Terra Indígena Yanomami, a exemplo do assassinato de dois jovens Yanomami na região do rio Parima, em julho de 2020. Já no início deste ano, em 25 de fevereiro, indígenas da comunidade de Helepe sofreram um ataque de garimpeiros que resultou em um indígena gravemente ferido e na morte de um garimpeiro - ao se retirarem, os garimpeiros ameaçaram retaliação. No passado recente, situações similares resultaram em chacinas como a de Haximu, em 1993, primeiro caso de genocídio reconhecido no Brasil.

De acordo com o relatório, a intensificação da área degradada pela exploração aurífera clandestina na TIY coincide com uma fragilização das políticas de proteção territorial na região, deixando a Terra Indígena vulnerável a invasões, e a população vulnerável, incluindo as mulheres, que são constantemente assediadas e agredidas.

Em dezembro de 2020, por exemplo, uma adolescente Yanomami foi sequestrada por garimpeiros na região de Surucucu, gerando uma situação de alta tensão social na comunidade, conforme consta no relatório.

No dia 17 desde mês, a Justiça Federal de Roraima determinou que a União, no prazo de dez dias, apresentasse um cronograma para retirada dos invasores do território, sob pena de multa diária de R$ 1 milhão.

Conforme o juiz federal Felipe Bouzada Flores Viana, corre-se o risco de genocídio indígena caso nada seja feito. "Ora, a população de garimpeiros não indígenas quase perpassa a de indígenas; nada sendo feito atualmente, e ante a corriqueira notícia da fartura de ouro na região, não é pequeno o risco de que se veja criada outra 'Serra Pelada' no local, agora com características ainda mais funestas".

A decisão favorável aos povos indígenas foi resultado de grande mobilização do líder Davi Kopenawa Yanomami e da Hutukara Associação Yanomami (HAY), além de organizações da sociedade civil, que desde 2019 denunciam a omissão do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) na retirada de garimpeiros em atividade ilegal na região, principalmente, em tempos da transmissão do novo coronavírus.

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