O Globo, Opinião, p. 7
Autor: GARCIA, Luiz
16 de Mai de 2008
Ganhou o desequilíbrio
Luiz Garcia
Como dizem os sábios, principalmente os sábios redundantes, há ex-ministros e ex-ministros.
Marina Silva pertence ao aplaudido grupo que, nestes animados últimos cinco anos e meio, foi para casa sem que suas mãos tivessem sido flagradas no interior de alguma humilhante botija.
E ela talvez mereça aplausos especiais por isso.
Sua missão foi complicada desde o início. Cabia-lhe ajudar a manter, principalmente para consumo externo, a imagem de um governo zeloso na proteção ao meio ambiente - mas sem prejudicar metas de crescimento econômico.
Em quaisquer circunstâncias, o equilíbrio entre proteção das florestas e crescimento econômico é complicado. Com Marina no ministério, e caso ela tivesse mantido o prestígio com que assumiu o cargo - seu nome foi o primeiro a ser anunciado, com fanfarras, pelo estreante presidente Lula - esse objetivo talvez fosse viável.
Desprestigiada como ela estava nos últimos tempos, parece que as florestas vão ter de se virar sozinhas.
O desprestígio do Ministério do Meio Ambiente e de sua titular era evidente há bastante tempo. Entre 2004 e 2007, os recursos para combater o desmatamento murcharam em mais de R$ 700 milhões. O programa Amazônia Sustentável aplicou menos de 40% dos recursos previstos nos orçamentos anuais; o de zoneamento ecológico-econômico foi capado em 64%.
Em outra frente de combate, uma medida provisória aprovada pelo Congresso outro dia triplica o tamanho das terras da Amazônia que serão vendidas a posseiros, sem licitação.
Segundo a ativa e numerosa bancada ruralista, esse é mais um passo para transformar o Brasil em "celeiro do mundo". Mas não faltam economistas que consideram essa meta, muito popular em épocas passadas, inteiramente equivocada. "É o Brasil voltando ao papel secundário de mero fornecedor para a matriz", dizem.
Por todos os sinais e precedentes, parece claro que a queda da ministra era inevitável. Como não ficaria bem para o Planalto tomar a iniciativa, optou-se pela manobra do constrangimento insuportável. Ele foi criado com a perda de comando do Plano da Amazônia Sustentável - criado por Marina - para o ministro Mangabeira Unger, titular da pasta genérica dos "assuntos estratégicos".
Quem vê de longe pode imaginar que o conflito entre produção agrícola e proteção das florestas logicamente exige equilíbrio de gestão. Não é possível só pensar em proteger, não é possível procurar apenas produzir.
O governo Lula, ao forçar a demissão de Marina Silva, parece ter escolhido o desequilíbrio.
O Globo, 16/05/2008, Opinião, p. 7
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