O Globo, Panorama Político, p. 38
Autor: LEITÃO, Míriam
09 de Mai de 2004
Ganho ecológico
Míriam Leitão
A Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável tem um plano ousado: mapear a situação da Amazônia - ecológica, demográfica, econômica - para ajudar na formulação de políticas públicas para a região. Isso será feito com um convênio com a Universidade de Columbia. Além disso, quer fazer um balanço de todos os ativos ambientais do Brasil que o prepare para a competição internacional.
- Meio ambiente para nós é oportunidade de negócios - diz o pesquisador Angelo Augusto dos Santos, que integra o time comandado pelo empresário Israel Klabin.
A Fundação funciona como uma rede multidisciplinar de pesquisadores, Ph.D.s e especialistas com a mesma preocupação: o meio ambiente.
Neste contexto, um novo mercado, que pode vir a ser bastante rentável para países como o Brasil, que têm ainda grande área do seu patrimônio ambiental preservada, está surgindo. A Chicago Climate Exchange foi montada para negociar "ativos de carbono", ou seja, a redução das emissões poluentes.
- Se uma empresa tem um custo maior para reduzir suas emissões de carbono, ela pode comprar de outra, que tenha um custo menor, a redução a que se comprometeu. 0 que os Estados Unidos descobriram quando houve a chuva ácida (de enxofre) foi que não é preciso que cada empresa reduza a poluição, mas sim a redução na média. Isso é que cria o mercado de carbono - explicou Walfredo Schindler, diretor da Fundação.
Este é um dos princípios do Protocolo de Kioto, que não está ainda em vigor pela não adesão dos EUA e da Rússia: Mas, mesmo sem o protocolo, a bolsa de Chicago está fazendo negócios. E também já começam a ser criados mecanismos voluntários de crédito de carbono entre as grandes empresas.
Cinqüenta companhias americanas, entre elas, grandes como a Ford e a Motorola, comprometeram-se a abater 1 % de suas emissões de carbono por ano até chegar a 10%. Juntas, elas são 4% das emissões americanas.
- Para atingir este objetivo, elas têm três caminhos: investimento no processo produtivo, que é o mais caro; compra de crédito de carbono de empresas americanas ou compra de crédito de carbono do Brasil, que é o único pais fora do Nafta a ter acesso a este mercado e com presença na Chicago Climate Exchange - conta Israel Klabin.
Os especialistas acham que o Brasil precisa entender suas oportunidades neste novo cenário.
Há quem acredite que a vitória de John Kerry levaria naturalmente a adesão dos Estados Unidos ao Protocolo de Kioto. Já os pesquisadores da Fundação
acham que a vitória de Kerry não garante nada porque é preciso passar o protocolo pelo Congresso americano. Porém, a longo prazo, o mundo terá que caminhar nesta direção para evitar um colapso.
- 0 total das emissões na forma de C02 é de 8 bilhões de toneladas de carbono por ano. 0 planeta só consegue metabolizar 50% disso. Nos últimos 150 anos, a humanidade aumentou em 31% a concentração de C02 na atmosfera terrestre - diz o professor Eneas Salati, especialista em clima.
Ele mostra a Terra envolta numa fina camada azul e assusta:
- Toda a vida depende desta camadinha bem fina e frágil. Nela que estamos jogando o carbono. Isto está provocando mudanças climáticas dramáticas. 0 que aconteceu em Santa Catarina nós não temos a mais longínqua dúvida de que é uma mudança que o homem fez no clima.
Um de seus gráficos mostra como essas mudanças acabam influenciando nos custos das empresas.
Clarissa Lins, economista, está lá para puxar todos os ambientalistas de volta ao chão e lembrar que o Brasil tem que crescer, atender às necessidades de sua população e não pode manter o meio ambiente intocado para o proveito do mundo industrializado que já destruiu grande parte do próprio patrimônio.
Israel Klabin reage:
- 0 segundo inimigo, depois das emissões, é o desflorestamento. Não queremos salvar a arvorezinha, o bichinho, estamos tentando salvar o planeta. Está nos faltando força para forçar políticas públicas.
Angelo Augusto dos Santos lembra de uma das chances abertas para o Brasil é o boi verde:
- Mas precisamos buscar certificação internacional. Se conseguirmos, poderemos ter um diferencial de preço para a carne. A Embrapa desenvolveu sementes de soja para todos os ecossistemas do Brasil. Por isso, o Brasil não precisa devastar a Amazônia para plantar soja. O mercado de carbono é outro caminho. O biodiesel, feito de vários vegetais, pode reduzir o uso de combustível fóssil e, além disso, assentar os Sem Terra com um projeto viável economicamente.
Entender o assustador mundo novo e se preparar para ele. Este é o melhor recado da Fundação.
O Globo, 09/05/2004, Panorama Político, p. 38
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