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Ganância selvagem

Veja, Justiça, p. 108
03 de Out de 2007

Ganância selvagem
Documentos indicam mais fraudes de autoria do primatologista holandês Marcus van Roosmalen
Leonardo Coutinho

Em duas décadas de trabalho na Amazônia, o primatologista holandês Marcus van Roosmalen descobriu cinco espécies de macaco. É um recorde que lhe rendeu fama mundial. Com base nisso, a comunidade científica indignou-se em junho passado, quando a Justiça Federal do Amazonas condenou Van Roosmalen a quinze anos e nove meses de prisão por peculato e crime ambiental. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência convocou uma cruzada contra a "criminalização da pesquisa científica". O jornal americano The New York Times classificou o julgamento como "paranóia". O diário inglês The Guardian declarou que o holandês foi vítima da "xenofobia" dos brasileiros. O também inglês The Independent afirmou que Van Roosmalen foi punido por "cuidar de macacos órfãos". Depois de 53 dias de cadeia, o cientista conseguiu um habeas corpus para aguardar novo julgamento em liberdade. Uma vez fora da prisão, Van Roosmalen se disse alvo de uma conspiração urdida por madeireiros e pelo governo brasileiro. Documentos obtidos por VEJA corroboram, porém, que o holandês levava uma vida dupla: dedicava uma parte de seu tempo à ciência e outra a enriquecer à custa dos cofres públicos.
Um dos documentos é a conclusão do processo administrativo que resultou na demissão de Van Roosmalen do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde ele trabalhou de 1986 a 2003. O Inpa descobriu que o cientista usava o nome do instituto para engordar seu patrimônio pessoal. Um exemplo disso é um convênio firmado em 1993 por Van Roosmalen com a produtora inglesa de TV Survival Anglia, para a realização de três documentários sobre a Amazônia. Embora o Inpa jamais o tenha autorizado a negociar nenhum acordo em seu nome, o primatologista aparece no contrato como procurador do instituto. A Survival Anglia pagou 95.000 dólares a Van Roosmalen. A fraude foi descoberta em 1998 por um executivo da produtora, Nicholas Gordon. Em 2002, ele relatou o caso à Polícia Federal. Só então o Inpa tomou conhecimento de que tinha sido envolvido em um golpe. Gordon contou à polícia que não revelou o crime antes porque tinha medo do holandês. "Ele disse que me mataria se eu sujasse o nome dele", afirmou o executivo, que sucumbiu a um ataque cardíaco em 2004.
O Ministério Público estuda denunciar Van Roosmalen por essa e outra fraude semelhante, na qual também aparece a Survival Anglia. A produtora inglesa pretendia remunerar o Inpa pelos tais documentários, doando-lhe terras na Amazônia. Por orientação do primatologista, as escrituras foram feitas no nome dele próprio. Mais: parte da área fica em uma reserva indígena. Os procuradores avaliam, agora, se já têm provas suficientes para voltar a processar Van Roosmalen por peculato, grilagem de terras e falsificação de documentos, o que pode lhe render uma nova condenação de até dezoito anos de cadeia. A advogada do primatologista, Creuza Cohen, diz que seu cliente é vítima da Justiça brasileira. Mas, ao que tudo indica, Van Roosmalen descobriu muito mais que macacos na Amazônia.

Veja, 03/10/2007, Justiça, p. 108

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