O Globo, Ciência, p. 30
09 de Jul de 2008
G-8 aceita reduzir gases-estufa
Grupo propõe diminuição de 50% das emissões até 2050 por 200 nações
Gilberto Scofield Jr.
Enviado especial
Os países integrantes do G-8 (EUA, Japão, Rússia, Grã Bretanha, França, Alemanha, Canadá e Itália) propuseram ontem que as 200 nações que discutem o aquecimento do planeta no âmbito das Nações Unidas adotem a meta de reduzir em 50% suas emissões de gases do efeito estufa até 2050, comunicado que foi recebido com frieza pelo G-5, grupo de emergentes composto por Brasil, China, Índia, África do Sul e México, e com protestos pelas ONGs de defesa do meio ambiente.
Apesar das críticas, líderes europeus que há muito pressionavam George Bush a assumir um compromisso público sobre o tema, viram o movimento como positivo. Na proposta anunciada pelo primeiro-ministro japonês, Yasuo Fukuda, o G-8 concorda que, além deste objetivo a longo prazo, metas de curto e médio prazos devam ser estabelecidas, mas nenhum número foi fixado.
Ao propor que o foco do combate ao aquecimento seja mantido no âmbito das Nações Unidas -- que deverá definir as novas metas que substituirão o Acordo de Kioto em dezembro de 2009, em Copenhague -- e em metas de longo prazo, o grupo tenta esconder rachas entre seus próprios integrantes, uns mais ousados na proposta de cortes, como a Alemanha e a Inglaterra, e outros bem mais conservadores, como Rússia e EUA.
G-5 e ONGs querem metas mais imediatas
O assessor de economia internacional da Casa Branca, Dan Price, elogiou o comunicado e disse que, com ele, os ricos enfatizavam que a solução do problema depende da ação de todos.
Pode ser. Mas há relutância entre os países. Ao fim do encontro do G-5 ontem, em Sapporo, no Japão, o presidente do México (país coordenador dos trabalhos), Felipe Calderón, afirmou que os países emergentes não aceitam a acusação de serem os responsáveis pelo aquecimento global:
- Não se pode culpar as economias em desenvolvimento por algo que é responsabilidade inquestionável das nações desenvolvidas - disse Calderón.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, fez coro:
- Não estamos dizendo que os países emergentes não irão contribuir e já nos mostramos dispostos a avançar em metas voluntárias mensuráveis se os ricos aprofundarem os cortes que eles precisam fazer a curto prazo.
No comunicado divulgado pelo G-5, os emergentes apostam no chamado "Mapa do Caminho de Báli" (referência à cúpula sobre o aquecimento climático realizada pela ONU em Báli no ano passado) e que prevê, por parte dos países ricos, um corte entre 25% e 40% das suas emissões até 2020, em comparação a 1990, algo entre 80% e 95% de redução sobre estes níveis em 2050. A meta foi frontalmente combatida pelos EUA - o maior emissor de gasesestufa do mundo. As reações mais enfáticas à proposta dos países ricos vieram mesmo das ONGs. Antonio Hill, porta-voz da Oxfam International, reagiu com ironia:
- Nesse ritmo, em 2050, o planeta já estará frito e os líderes do G-8 já estarão há muito esquecidos.
Daniel Mittler, do Greenpeace, acusou o G-8 de adiar ações que deveriam ser imediatas
O Globo, 09/07/2008, Ciência, p. 30
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