Midianews-Cuiabá-MT
20 de Nov de 2003
O presidente da Funai, Mércio Gomes, anunciou, em reunião com a bancada do PPS na noite desta terça-feira, que vai lançar uma campanha para salvar o rio Xingu. "Os índios me contaram que nunca um homem conseguiu atravessar, em pé, o Xingu. Isso atualmente está acontecendo, tamanha é a devastação nas margens e na cabeceira do rio", advertiu Mércio. Com a destruição das matas ciliares, principalmente para a produção de soja, o Xingu ficou assoreado, com enormes bancos de areia. Mércio afirmou que os índios têm papel fundamental na preservação do rio.
O antropólogo lembrou que os rios Tocantins e Araguaia, em Goiás, estão poluídos pelas fazendas de soja e avisou que tentará evitar que o mesmo ocorra com o Xingu. "Vamos fazer uma campanha com o seguinte lema: pode-se plantar soja, mas não nas matar ciliares. A lavoura de soja não pode ser feita ao custo da poluição dos rios, porque esse é um patrimônio real do Brasil e a preservação da água cada vez mais será uma bandeira importante".
O país, lembrou, detém 17% da água potável do planeta. Mércio disse que ela é um dos componentes essenciais no patrimônio nacional, um dado a ser discutido em fóruns internacionais, tal como a preservação da Amazônia ou do cerrado. "O desenvolvimento do Brasil é perfeitamente conciliável com a preservação. É verdade que o país só se fez na base dos pequenos proprietários, sem-terra e ricos que chegaram e arrombaram tudo. É impossível evitar que essa garra deixe de existir, mas cabe ao Estado brasileiro reconhecer que temos de encontrar um caminho de equilíbrio nessa relação entre desenvolvimento e todos os outros potenciais que tem a nação".
Discurso Nacional
Para Mércio, deveria haver um discurso nacional em defesa da questão indígena. "Os índios não são só a raiz, mas também o futuro do país", afirmou. Defendeu a demarcação de terras e disse que gostaria de conclui-la no governo Lula. O pedaço da Amazônia destinado aos índios corresponde a 22% do território total da região (O Ibama tem 10%). Para ele, no entanto, existe um fosso "entre o ser índio e o ser brasileiro", um sentimento de marginalidade nas populações indígenas que enxergam na Funai o único intermediário com que podem contar. "O país precisa concluir sua tarefa de garantir e assegurar terra aos índios, conforme vem sendo prometido desde Dom João VI. É, na verdade, a garantia de uma casa para uma população que cresce à taxa de 4,5% ao ano e ganha cada vez mais imunidade".
O antropólogo, entretanto, está longe dos discursos radicais das ONGs de defesa dos índios. Ele é favorável à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu. "É impossível de ser evitada porque tem eficácia na relação entre área imundada e potencial energético. Ninguém vai deixar de construí-la. Mais tarde, vai abastecer o Nordeste", avalia. Mas são os índios, diz ele, são os grandes preservadores da Amazônia. "Peguei um avião e sobrevoei parte da Amazônia. Só se vê devastação. De repente, se enxerga um tapete verde: é terra indígena. É a maior garantia que temos e também um patrimônio do qual o país deve se orgulhar".
Conflitos
Mas o tema é complexo, admite. Atualmente, informou, existem cinco grandes conflitos envolvendo os índios em todo o Brasil. Na manhã desta quarta-feira, o antropólogo viajou para São Félix do Araguaia com o desafio de administrar a briga entre os Xavante, que reconquistaram uma área que havia sido comprada pela empresa italiana Agip, e fazendeiros que entraram na terra. "No momento, tem 380 índios, 10 pessoas da Funai e 15 policiais federais. Um posseiro já foi morto pelos colegas porque foi conversar com os índios". Em Cacoal (RO), cinco mil garimpeiros da maior mina de diamante à flor da superfície do mundo foram retirados de uma área indígena, "mas existem hoje 400 garimpeiros com o apoio do governo do Estado ao redor da reserva querendo forçar uma barra (para explorar o subsolo)".
O deputado Agnaldo Muniz (PPS-RO), argumentou que os diamantes estavam saindo ilegalmente do país por meio da ação de comerciantes, com a participação de policiais federais, e defendeu a liberação da mineração em área indígena. Mércio avisou que sua posição é contrária. "Não há a mínima chance de a Funai abrir a exploração de garimpo em terra indígena, embora haja uma pressão muito grande do governador (de Rondônia, Ivo Cassol) e dos garimpeiros". A obrigação da fundação, ressaltou Mércio, é para garantir a integridade do território dos índios.
Com a mesma franqueza, Mércio avisou à deputada Maria Helena (PPS-RR) que o governo federal não vai retroceder na demarcação da área da reserva Raposa Terra do Sol. A parlamentar havia pedido que a Funai reconsiderasse a decisão de retirar a população branca de dentro da terra porque a medida tem causado desemprego, pobreza e favelização. "Raposa Terra do Sol já está demarcada. Seria uma desmoralização para o governo voltar atrás. Da minha parte, não haverá revisão", declarou.
Ao deputado Rogério Silva (PPS-MT), que pediu liberação de R$ 300 mil para assistência a índios do Estado, disse que o governador Blairo Maggi (PPS) estava tomando decisões inteligentes, ao ajudar a população indígena, com a doação de sementes, por exemplo. Alertou, entretanto, para o problema da soja em matas ciliares no Mato Grosso. "Vou batalhar por essa preocupação. O Brasil tem que pensar o homem e o desenvolvimento".
O deputado federal Cézar Silvestri (PPS-PR) elogiou a política indigenista que vem sendo adotada por Mércio Gomes e lembrou que, quando deputado estadual, foi autor de uma lei que garantiu vagas no ensino superior para os índios do Paraná.
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