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Funai pede à PF que investigue canibalismo

FSP, Brasil, p. A9
12 de fev de 2009

Funai pede à PF que investigue canibalismo
Apoiado nos relatos de duas testemunhas, delegado de Envira vai pedir a prisão preventiva de cinco índios suspeitos do crime
Chefe do posto da Funai diz que o rapaz e os índios estavam embriagados, e que uns "falam que a vítima mexeu com um garota"

Cíntia Acayaba
Da agência Folha
Kátia Brasil
Da agência Folha, em Manaus

A Funai vai pedir à Polícia Federal que assuma as investigações sobre o assassinato de um jovem não-índio de 21 anos em uma aldeia da etnia culina, em Envira (AM). O procurador da Funai em Manaus já está elaborando o pedido à PF.
A polícia afirma que ao menos cinco índios culinas são suspeitos de matar o jovem e de comer seus órgãos. Outros dois índios disseram à polícia que testemunharam o crime. O delegado de Envira disse que pedirá a prisão preventiva dos suspeitos até o final da semana.
No último dia 3, a vítima, Océlio de Carvalho, conduzia um boi quando foi convidado pelos índios para ir até a aldeia Cacau, a 5 km do centro de Envira, de acordo com relato de testemunhas ao sargento da PM José Carlos da Silva, que exerce a função de delegado.
Segundo Silva, os índios disseram que o jovem levou no mínimo 80 facadas. Depois, os culinas partiram o corpo em dois e comeram o fígado, o coração e parte da coxa: "Dois índios que se recusaram a matar disseram que os órgãos foram comidos com uma espécie de farofa. Um desses índios pediu para que não matassem o rapaz, e está sendo ameaçado de morte".
O relatório do chefe do posto da Funai de Eirunepé (150 km de Envira), Paulo Rodrigues Hayden, que afirma ter ido à aldeia no dia seguinte ao crime, diz que no local "foram encontrados restos mortais da vítima". Segundo o relato de Hayden, "o cacique estava muito triste com o acontecimento e que todos falaram os nomes dos envolvidos no assassinato".
De acordo com o relatório, os índios e a vítima "estavam embriagados, e a vítima costumava estar sempre junto a eles em tragos de bebida". Sobre o possível motivo do crime, Hayden diz que uns "falam que a vítima mexeu com um garota e falaram de vingança": "Também levantaram a hipótese de que estariam fazendo isso para chamar a atenção do governo federal para o descaso e abandono".
Segundo a Funai, não existe a prática de antropofagia entre os povos indígenas no Brasil contemporâneo: as únicas referências datam da era colonial. Os culinas não são considerados isolados e têm contato com não-índios desde o século 19.
Ontem, o sargento pediu reforços à Secretaria da Segurança: o município, de 16,4 mil habitantes, só tem cinco policiais. Silva alega que há um clima de revolta após o crime. Desde outubro a cidade não tem juiz.

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Antropofagia era adotada pelos tupis

Da Redação

A antropofagia era adotada por alguns povos indígenas do Brasil, como os tupis, em rituais de vingança contra os inimigos.
Em 1556, d. Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil, foi devorado por caetés na costa de Alagoas. Com a difusão do cristianismo pelos missionários, a antropofagia desapareceu. Restaram práticas como a dos ianomâmis, que misturam cinzas funerárias a um mingau, que é tomado pelos parentes do morto.
No Brasil, a antropofagia era praticada em pequena escala -como ocorria em muitas etnias das Américas. No caso dos astecas do México, porém, havia sacrifícios em massa, o que levantou suspeitas de que o ritual era utilizado para compensar a falta de proteínas animais.
Esse tipo de canibalismo persiste ainda hoje. Em 1994 descobriu-se que moradores dos bolsões pobres de Olinda (PE), forçados pela fome, consumiam carne humana proveniente de lixo hospitalar.

FSP, 12/02/2009, Brasil, p. A9

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