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Forças Armadas terão mais R$ 1 bi para reequipamento

OESP, Nacional, p. A12-A13
08 de Ago de 2004

Forças Armadas terão mais R$ 1 bi para reequipamento
As dotações de investimentos na área militar devem superar os R$ 7,3 bilhões no próximo ano

Roberto Godoy

O Ministério da Defesa vai receber R$ 1 bilhão de aumento no orçamento de 2005 para investir prioritariamente no programa de blindagem da Amazônia e no reequipamento geral.
As Forças Armadas do Brasil estão intensificando a proteção do território e do espaço aéreo no Norte, Noroeste e Oeste por meio da instalação de novas bases, transferência para a região de tropas do Sul-Sudeste e expansão da flotilha fluvial da Marinha.
O contingente atual, de 27 mil homens, chegará a 30 mil militares entre 2005 e 2006.
As dotações de investimentos na área militar devem superar os R$ 7,3 bilhões no próximo ano. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou a suplementação no dia 21 de julho.
O ministro do Planejamento, Guido Mantega, que montou a operação de expansão dos recursos, recebeu na mesma semana a Medalha do Pacificador, concedida pelo Comando do Exército.
O dinheiro será destinado a atender às necessidades do programa de segurança da Amazônia e para dar início ao processo de reequipamento das forças. A estimativa é de que até 2010 sejam aplicados de US$ 7,2 bilhões a US$ 10,2 bilhões na área de Defesa.
Bases - As decisões mais recentes envolvendo o arco da fronteira norte, noroeste e oeste definiram que o Comando Militar da Amazônia (CMA) vai instalar três novas bases no Acre entre os distritos de Foz do Breu, Pé de Serra e Foz do Moa, todos integrantes do município de Marechal Taumaturgo. Há dois anos já havia sido anunciada a criação de cinco outras unidades no Amazonas e no Amapá.
Em 2005 uma brigada completa, atualmente instalada em Niterói - com aproximadamente 4 mil soldados - será deslocada para a linha de divisa com a Colômbia.
O Comando da Aeronáutica está montando na região dois centros avançados de operações aéreas em Vilhena (RO) e Eirunepé (AM). Atualmente a aviação militar dispõe de bases em Manaus (AM), Porto Velho (RO), Boa Vista (RR) e com certas limitações, em Rio Branco(AC).
Na estratégica São Gabriel da Cachoeira (AM) - de onde em 1999 guerrilheiros das Farc se retiraram depois que foram flagrados por tropas do CMA quando esperavam a entrega de um lote de armas, na pista de pouso do município - está sendo construída a maior das bases da Força Aérea Brasileira (FAB). Na serra do Cachimbo, onde a FAB mantém um centro de testes, também haverá uma pista.
Os primeiros aviões de combate A-29 Supertucano operacionais, braço armado do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), foram entregues há dois dias pela Embraer, em São José dos Campos.
O recém-criado Comando Naval da Amazônia, com sede na Ilha de São Vicente, abrange um longo eixo, da Ilha de Marajó até Mato Grosso, passando pelo Acre e por Rondônia.
Com cinco navios-patrulha fluviais e três navios hospitais, a flotilha é pequena e tecnologicamente defasada.
De acordo com relatório do Comando da Marinha encaminhado em março de 2002 ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a flotilha precisaria dispor de pelo menos mais dez embarcações pesadas, lanchas rápidas e helicópteros.
O documento destaca: a partir do momento em que é autorizada a construção de um navio, o prazo para seja construído e entre em operação é, em média, de três a cinco anos.

Ordem é de tolerância zero com Farc

O governo do Brasil está preocupado em manter distante do território da Amazônia a guerrilha das Farc, os vôos do narcotráfico, os contrabandistas de armas e os intrusos em geral. Para os rebeldes colombianos o regime é de tolerância zero. Segundo o ministro da Defesa, José Viegas Filho, "se entrarem em território nacional serão tratados como fração de força invasora - e não poderão fazer isso sem ser notados".
Os traficantes de drogas e de armamento pesado, responsáveis talvez por 1.800 dos 3 mil vôos clandestinos registrados pela FAB em 2003 (um crescimento de 20% em relação a 2002) serão primeiro interceptados pela FAB e, depois, advertidos por meio de nove diferentes procedimentos definidos em lei federal para forçá-los a pousar. Se mantiverem a atitude hostil, vão ser abatidos a tiro.
Os outros intrusos "são novos personagens no cenário, os biopiratas e os prospectores de riquezas", de acordo com o ex-embaixador Pedro Pedrini, diretor da Fundação para Integração das Nações da Amazônia (Fina), com sede em Lima, Peru. Pedrini acha que "muitas pessoas são pagas por interesses estrangeiros e devem ser interpeladas pelas forças armadas".
Inteligência - O ponto de sustentação da política brasileira de defesa para a área é o Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia (Sivam/Sipam) uma rede de radares, sensores, satélites e aviões especiais que custou US$ 1,3 bilhão e está sendo gradualmente ativada desde julho de 2002. O conjunto cobre 5,2 milhões de quilômetros quadrados - o equivalente à Europa Ocidental.
Uma das operações fundamentais do Sivam/Sipam é a coleta de informações de inteligência por meio de grandes jatos R-99A e R-99B, versões militares do ERJ-145 da Embraer, que monitoram, por exemplo, as comunicações das colunas das Farc até considerável distância da linha de fronteira.
Na noite de quarta-feira, dia 4, Carlos Bernardes, um porta voz da guerrilha colombiana, fez uma ligação de três minutos usando um telefone via satélite.
Respondeu a quatro perguntas de um repórter venezuelano enquanto o carro em que viajava rodava a impossíveis 120 quilômetros por hora pelos precários caminhos de terra da região de Mitu, um ponto ao norte bem próximo da fronteira com o Brasil.
Foi um diálogo rápido entre o jornalista e o guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. O Estado teve acesso à transcrição da gravação.
Transmitida ao vivo pela rádio comunitária do Centro Bolivariano de Caracas, a entrevista foi acompanhada em tempo real por dois aviões de informações e vigilância.
Um deles, um EC-135 da Força Aérea dos EUA, lançado da base de Manta, no Equador, arrendada ao Pentágono.
- Por que Chávez (Hugo Chávez, presidente da Venezuela) se nega a qualificar as Farc de terroristas?
- Porque não somos terroristas.
- Muita gente diz o contrário...
- O presidente americano acusa todo mundo de ser terrorista.
- Mas as Farc tem algum apoio de Chávez, mesmo que seja para atender doentes?
- Não necessitamos de petróleo, que é o que a Venezuela tem. Carecemos de barcos e aviões. A nossos enfermos, temos onde curá-los. Construímos hospitais na selva. Não os transportamos para Venezuela ou Cuba.
- Não foi recebida em julho uma aeronave com armas para as Farc vinda do Brasil?
- Sempre há gente que quer ganhar dinheiro. Aparecem particulares, sem vínculos com as autoridades, que introduzem armamento na Colômbia.
Apresentam-se com determinada quantidade de fuzis e munição. Não lhes fazemos perguntas. Apenas pagamos.
O tempo curto da chamada e a alta velocidade são parte da tentativa de driblar os sensores de rastreamento dos aviões eletrônicos - brasileiros, colombianos e americanos - que mantém vigilância o tempo todo sobre a área de risco da Amazônia.
Os equipamentos de captação de informações de inteligência embarcados precisam de pouco menos 90 segundos para invadir as redes de comunicações. A localização precisa da emissão - o tipo de operação que permite à aviação israelense atacar com mísseis ar-terra veículos usados por líderes dos movimentos radicais palestinos - exige cerca de quatro minutos. Com a fonte em deslocamento rápido - cerca de 120 km/hora - são necessários pelo menos 10 minutos para estabelecer um padrão e definir as coordenadas de posicionamento. (Roberto Godoy)

OESP, 08/08/2004, Nacional, p. A12-A13

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