Valor Econômico, Especial, p. F2
21 de Mar de 2014
Fontes de abastecimento ficam cada vez mais longe
Por Andrea Vialli
De Registro (SP)
"Lata d'água na cabeça, lá vai Maria" - os populares versos do samba dos compositores Luís Antônio e Candeias Jota Jr, escritos na década de 1950, não poderiam ilustrar melhor a precária situação do abastecimento de água na Grande São Paulo. A crise no sistema Cantareira evidenciada pelo verão mais seco e quente das últimas sete décadas desnudou a forte dependência da maior metrópole brasileira da água que vem de fora de seu perímetro urbano. E cada vez mais a água que abastece os lares paulistanos tem de vir de mais longe.
A principal empreitada do governo de São Paulo para os próximos anos é buscar água na bacia do Rio Ribeira de Iguape, no sul do Estado. O sistema produtor São Lourenço, que está em construção por meio de uma parceria público-privada, aportará 4,7 m3 de água por segundo ao fornecimento da Grande São Paulo a partir de 2018, um investimento orçado em R$ 2,2 bilhões. Captará a água na Represa Cachoeira do França, no Rio Juquiá, que será transportada até Cotia por uma tubulação de 82 km. O objetivo é tornar a Região Metropolitana de São Paulo menos dependente do sistema Cantareira.
Na prática, o projeto vai repetir o padrão de buscar água no interior do Estado para abastecer a capital - modelo já adotado com o próprio Cantareira, que recebe a água da bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), situação que chegou a níveis críticos e tem causado uma verdadeira disputa pelas águas entre região metropolitana e interior.
A diferença é que o Vale do Ribeira é uma região que tem ainda grande disponibilidade hídrica, pois concentra a maior área de Mata Atlântica preservada do Estado e tem baixa densidade populacional. A transposição das águas da bacia do Ribeira para São Paulo nos volumes já autorizados não deve levar a um cenário de escassez hídrica para a região, na avaliação de Sérgio Pompéia, consultor ambiental e idealizador da Reserva Betary, centro de pesquisas da biodiversidade em Iporanga, na região. "Nos níveis que se pretende, é plausível captar essa água para abastecimento da Grande São Paulo sem prejudicar o abastecimento de água local. Mas os impactos na bacia precisam ser muito bem monitorados", afirma Pompéia.
O governo paulista quer mais do que os 4,7 m3 por segundo previstos na primeira etapa do sistema São Lourenço. Há planos de aumentar os volumes para 20,7 m3 por segundo até 2035. Essa água do Ribeira abasteceria também parte dos municípios de Campinas e Sorocaba - o que já preocupa o Comitê de Bacia Hidrográfica do Ribeira de Iguape e Litoral Sul, que quer mais estudos sobre a questão.
"Buscar água do Baixo Juquiá com uma adutora de quase 100 km a um custo de R$ 2,2 bilhões é como construir um novo aqueduto romano", afirma Ivanildo Hespanhol, presidente do Centro Internacional de Referência em Reuso de Água (Cirra), ligado à Poli-USP. "Estamos repetindo o padrão de buscar água cada vez mais longe. A resiliência do nosso sistema é zero, pois dependemos cada vez mais de água importada", completa. O governo do Estado também já pleiteia junto à Agência Nacional de Águas (ANA) a construção de um canal de 15 km para interligar o sistema Cantareira à represa de Igaratá, no Vale do Paraíba. Segundo Hespanhol, as soluções mais adequadas para a crise do atual sistema de abastecimento de água são a redução das perdas na rede de distribuição e o investimento no tratamento dos efluentes para fins potáveis. "Temos que eliminar esse paradigma dos aquedutos romanos e enxergar a conservação e o reúso como instrumentos de gestão de recursos hídricos."
Sérgio Pompéia vai além: se o governo paulista quer aumentar a captação no Vale do Ribeira, precisa criar mecanismos de pagamento por serviços ambientais que beneficiem a região, que possui o menor IDH do Estado. "A água da bacia do Ribeira é resultado da conservação das florestas e dos mananciais, e seria justo imputar um valor econômico a essa riqueza natural, beneficiando a população da região", diz.
Valor Econômico, 21/03/2014, Especial, p. F2
http://www.valor.com.br/brasil/3488114/fontes-de-abastecimento-ficam-ca…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.