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Fome cresce no mundo, mas recua no Brasil

O Globo, O Mundo, p. 32
26 de Nov de 2003

Fome cresce no mundo, mas recua no Brasil
ONU diz que fome cresce no mundo mas recua no Brasil

ROMA. O mundo está perdendo a luta contra a fome, alertou a Organização para Alimentos e Agricultura da ONU (FAO, na sigla em inglês). Segundo o novo relatório da agência, divulgado ontem, o número de famintos cresceu em 18 milhões na última década, chegando a 842 milhões em 2001. De acordo com a FAO, apenas 19 países conseguiram reduzir as estatísticas de fome, entre eles o Brasil. A Aids, o aumento da pobreza e o crescimento populacional são apontados como as maiores causas do recrudescimento da fome mundial.

O relatório diz que entre 1990 e 1992, 18,6 milhões de pessoas passavam fome no Brasil, o equivalente a 12% da população. Na nova pesquisa, que apresenta dados referentes ao período de 1999 e 2001 (no governo anterior), as pessoas que passavam fome no Brasil somavam 15,6 milhões ou 9% da população. "A única região que mostrou progressos na luta contra a fome foi América Latina e Caribe", afirma o documento.

Falta vontade política para combater a fome, diz ONU

O programa Fome Zero, lançado pelo atual governo, é citado no relatório - ao lado de iniciativas dos governos de Vietnã e Tunísia - como exemplo de comprometimento com o combate ao problema. O relatório informa que o programa do governo brasileiro se destaca por combinar intervenções emergenciais (com o objetivo de garantir o acesso de pessoas famintas a alimentos) a iniciativas destinadas a aumentar a oferta de empregos, reduzir a pobreza e estimular a produção de alimentos.

De maneira geral, entretanto, o tom do documento é pessimista. Segundo o relatório, uma em cada sete pessoas é desnutrida e a meta de reduzir à metade a quantidade de famintos no mundo até 2015 está cada vez mais difícil de ser alcançada.

- Nós sabemos o que precisa ser feito, mas não conseguimos fazer - afirmou Ali Gurkan Arslan, editor do relatório anual sobre a fome, referindo-se à necessidade de mais determinação política para que aumentem os investimentos em agricultura, o crescimento econômico e o combate à crise alimentar.

Aids agrava o problema em países da África

Do total de 842 milhões de subnutridos, 738 milhões vivem nos países em desenvolvimento. A situação é mais séria em países da África, onde a epidemia da Aids contribui para o agravamento do problema. Estima-se que até 2020 a doença terá matado um quinto da força de trabalho agrícola dos países da África meridional.

- Se os membros mais produtivos da comunidade não podem trabalhar por causa da Aids, a renda potencial e o acesso à comida ficam perdidos - afirmou Gurkan.

"A fome e a Aids são companheiras mortais", destaca o documento. "A fome não pode ser combatida eficazmente nas regiões assoladas pela Aids, a menos que as intervenções levem em conta as necessidades específicas dos lugares afetados pela enfermidade e incorporem medidas tanto para prevenir quanto para reduzir a propagação da doença".

Meta do governo é erradicar a fome

Bernardo de la Peña

BRASÍLIA. O ministro da Segurança Alimentar, José Graziano, comemorou ontem os elogios ao programa Fome Zero feitos pela Organização de Alimentos e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) da ONU. Em relatório divulgado ontem, a agência destacou a vontade política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de lutar contra a fome e citou o programa como um exemplo de um país que obteve avanços. Para Graziano, é muito importante que o Brasil colabore com as Metas do Milênio, estabelecidas internacionalmente.

- A redução pela metade da pobreza extrema e da fome é uma meta muito importante, uma meta realmente que condiciona as outras. Não adianta nem pôr criança (com fome) na escola porque ela não aprende - afirmou Graziano. - Nossa missão é mais radical ainda. Estamos propondo acabar com a fome no Brasil, porque é difícil responder àquela pergunta que fica quando você se propõe a reduzir a fome pela metade: o que vamos dizer para a outra metade?

Para Graziano, os elogios da FAO mostram que o programa está no caminho certo. Ele disse que não se incomoda com as críticas internas que foram feitas ao Fome Zero, mas classificou algumas delas como eleitorais.

- Acho que há críticas e críticas. Temos recebido muitas críticas que constróem, mas recebemos também muitas que são disputas eleitorais, disputas político-partidárias. Estas muitas vezes não ajudam.

Programa é um dos mais elogiados, diz ministro

Segundo Graziano, desde a primeira pesquisa de opinião sobre o governo Lula, o Fome Zero tem sido o programa mais bem avaliado. E se mantém nessa posição até hoje.

- Três em cada quatro brasileiros consultados têm dito, invariavelmente, que o governo está certo ao priorizar a questão da fome.

O ministro disse que a direção da FAO veio ao Brasil em fevereiro, quando foi assinado um acordo de cooperação entre a entidade das Nações Unidas e o governo brasileiro, que deve ser renovado na semana que vem.

- Vou na próxima semana à reunião anual da FAO, dos ministros, para expressar o apoio brasileiro ao Programa Mundial de Combate à Fome e também gostaria de expressar o nosso inteiro apoio a essa meta de estender a luta contra a fome a todos os países do mundo em que a FAO tem liderado.

Graziano lembrou que esta é a segunda vez que o programa é reconhecido internacionalmente neste mês. Segundo ele, o Unicef - Programa da ONU para infância e adolescência - também apontou o Fome Zero como um modelo para o resto do mundo.

O Globo, 26/11/2003, O Mundo, p. 32

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