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Fogo na Amazonia ameaca chuvas no Sudeste

O Globo, Mundo:Ciencia e Vida, p.42
18 de Jul de 2004

Fogo na Amazônia ameaça chuvas no sudeste
Conferência mundial de clima em Brasília mostrará o impacto da destruição da floresta sobre o resto do país

As já poluídas grandes cidades do Sudeste e Sul do país podem se tornar ainda mais inóspitas. Cientistas prevêem uma possível redução no regime das chuvas. A origem do problema não está nas chaminés das indústrias ou nos escapamentos de carros, mas bem mais longe, na maior floresta do planeta, a Amazônia. As queimadas que comem a Amazônia pelas bordas já começam a alterar o regime de chuvas localmente, mas estudos sugerem que em algum tempo, o impacto será sentido no Sudeste e no Sul.

A Amazônia pode não ser o pulmão do mundo. Tampouco contribui significativamente para a absorção de dióxido de carbono (CO2). De fato, as queimadas a transformaram numa grande emissora de CO2. Mas a floresta é fundamental para regulação das chuvas, não só no Brasil.

O muito estudado e ainda pouco compreendido clima amazônico será tema na próxima semana de uma das maiores conferências sobre a floresta já realizadas e um dos principais eventos de climatologia do ano. A III Conferência Científica do LBA (sigla para Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia) reunirá em Brasília alguns dos maiores especialistas brasileiros e estrangeiros.

— O clima está mais instável. A conferência apresentará dados que sustentam esse cenário de desequilíbrio. A Amazônia é fundamental como fonte de vapor dágua e calor na atmosfera global. É extremamente significativa para o controle das chuvas. Há fortes indícios de que as queimadas e, o desmatamento de forma geral, podem reduzir as chuvas em toda a América do Sul — disse Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo, um dos organizadores da conferência.

Grande senhora das águas sofre com o fogo

Os primeiros impactos já aparecem nas telas dos computadores que simulam os efeitos do clima e em análises feitas em campo. São pesquisas como as conduzidas por Maria Assunção Faus da Silva Dias, coordenadora-geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) e da USP. Ela explica que a conseqüência mais imediata do desmatamento é um aumento temporário da incidência de chuvas. Isso ocorre porque a temperatura aumenta localmente devido à perda de mata. Mas, à medida que o desmatamento avança, a estação seca torna-se mais severa e provoca uma mudança para um clima como o do Cerrado.

— No sul, sudeste e leste da Amazônia, no chamado Arco do Desmatamento, o clima já se parece com o do Cerrado — diz.

E é aí que podem começar os problemas para o resto do país. Ventos da Amazônia transportam todos os anos umidade que alimenta o regime de chuvas das regiões Sul e Sudeste. Com menos umidade, haveria menos chuva. Os estudos estão no início e são baseados principalmente em análises computacionais. Os cientistas dizem que novos dados emergirão com o prosseguimento das pesquisas na própria floresta.

O Globo, 18/07/2004, p.42

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