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Florestas perdem 89 milhões de hectares no Brasil desde 1985; agropecuária ocupa 31% do país

O Globo, Sociedade, p. 24
29 de Ago de 2019

Florestas perdem 89 milhões de hectares no Brasil desde 1985; agropecuária ocupa 31% do país
Brasil perdeu '20 Estados do Rio' de áreas naturais
Desmatamento consumiu área equivalente a 20 vezes a do Estado do Rio; pastos e plantações ganharam 86 milhões de hectares no mesmo período
País perdeu área florestal equivalente a 20 vezes a do Estado do Rio desde 1985

ANA LUCIA AZEVEDO E JOHANNS ELLER*
sociedade@oglobo.com.br

De 1985 a 2018, o Brasil perdeu 89 milhões de hectares de cobertura natural, o equivalente a 20 vezes a área do Estado do Rio. Em movimento contrário, o território usado para a atividade pecuária ganhou 86 milhões de hectares. As informações são do projeto MapBiomas.
Desde 1985 até 2018, o Brasil perdeu 89 milhões de hectares de áreas naturais em todo seu território, algo como 20 vezes a área do Estado do Rio. Essa perda acompanhou o ritmo dos rebanhos, pois a abertura de pastos é o principal motor do desmatamento: no mesmo período, a área destinada à agropecuária teve um aumento de 86 milhões de hectares.
Os dados, obtidos por satélites e geoprocessamento, foram apresentados ontem pelo MapBiomas -um projeto colaborativo de universidades, empresas de tecnologia e ONGs para mapear e monitorar a cobertura e uso da terra no Brasil.
Maior foco de atenção por conta de sua extensão e biodiversidade, a Amazônia ilustra o problema nas áreas desmatadas: de cada dez hectares da floresta que são derrubados, três são abandonados, seis viram pasto e um é empregado na agricultura e demais usos, como urbanização e mineração.
- É um retrato do desperdício e da degradação causada pelo desmatamento - afirma o coordenador do MapBiomas, o engenheiro florestal Tasso Azevedo.
A abertura de pastagens tem se reduzido no resto do país, segundo o MapBiomas, mas não na Amazônia Legal. Em 2005 havia 45 milhões de hectares de pastagens lá. Em 2018 essa área cresceu para
53 milhões de hectares.
- A pastagem avança sobre a floresta, e a agricultura, sobre a pastagem. Mas, na Amazônia, a pastagem continua a crescer, com abandono de áreas e baixa produtividade -salienta Azevedo. -Temos cerca de uma vaca por hectare ou mata transformada em pasto do tamanho de um campo de futebol na Floresta Amazônica. É uma produtividade baixíssima e um péssimo uso da terra.
Segundo o climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas do mundo em Amazônia, essa dinâmica é o método principal da pecuária na floresta.
-A mata é queimada e ocupada por uma pecuária de baixa tecnologia, que não faz manejo de pasto. Os nutrientes vão todos embora e surgem problemas como erosão. Depois, novas plantas começam acrescer,oprodutorbotafogo de novo e recomeça o ciclo. Dezou11anosdepois,amaioria abandona essas terras e desmata novas áreas.
Ainda de acordo com Nobre, essa prática pecuária, de baixíssimo rendimento, atende a outros interesses.
- É um modelo de ocupação do espaço florestal na Amazônia que tem muito mais a ver com a posse de terra e outros valores culturais, em um modelo expansionista.
REGENERAÇÃO ENGANOSA
A nova coleção de dados do MapBiomas mostrou o tamanho das áreas regeneradas no país -classificação que engloba as capoeiras, áreas de campo sujo, vegetação rasteira e florestas secundárias, com espécies de pouca exigência e baixa diversidade. Um retrato de uma natureza degradada, que, no Brasil, cobre 44 milhões de hectares.
- A tragédia é o tamanho das chamadas áreas em regeneração. É uma enormidade -afirma Azevedo.
Na Amazônia, segundo os novos dados, a composição florestal é de 66% de mata primária -ou seja, a Floresta Amazônica original- e 26% de vegetação secundária, sem o mesmo valor ecológico. Todas são verdes, parecem a mesma coisa a um olhar desavisado, mas só uma delas é preciosa.
Dentro dessa vegetação secundária estão também as áreas desmatadas, abandonadas e onde o mato tomou o lugar de gigantes da Amazônia, como mogno, massaranduba, cedro e ipês.
Diferentemente da Mata Atlântica, onde há alguns projetos de reflorestamento, quase a totalidade das áreas em regeneração na Amazônia e no Cerrado são aquelas onde a vegetação cresceu por si própria, explica Azevedo.
- E, ainda assim, só conseguimos mostrar áreas em regeneração há mais de seis anos, quando a cobertura vegetal já pode ser diferenciada com mais precisão pelos satélites. Áreas recém-desmatadas não aparecem nessa conta. Desmatar é à vista. Mas regenerar e, sobretudo, recuperar é a prazo -destaca ele.
AVANÇO DA AGRICULTURA
No Brasil, as pastagens pararam
de crescer a partir de 2005. As áreas de agricultura, por sua vez, estão em crescimento. É um processo de transformação de áreas de pastagem em áreas de agricultura.
Para Azevedo, no atual ritmo de perda de florestas o país não conseguirá cumprir suas metas voluntárias:
- Temos um compromisso do Acordo de Copenhagen, que é a meta de reduzir 80% do desmatamento ilegal na Amazônia em relação à média do que se registrou entre 1996 e 2005. Isso significaria que o desmatamento em 2020 não deveria passar de 3.800 km².
Segundo o pesquisador, o mais próximo que o país chegou dessa meta foi em 2012, quando foi aproximadamente 4500 km². No ano passado
foi tivemos 7800 km², esse ano, os números parciais indicam que teremos mais.
Das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, cerca de 70% a 72% provêm do chamado uso da terra. O desmatamento sozinho responde por cerca de metade das emissões brasileiras.
*Estagiário, sob orientação de Cristina Fibe

O Globo, 29/08/2019, Sociedade, p. 24

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