O Globo, Economia, p. 51
Autor: Ana Lucia Azevedo
28 de Out de 2018
Floresta em pé vale mais que terra para cultivo
Cálculo de economista estima que cada hectare de floresta preservada gera, ganhos de R$ 3,5 mil na Amazônia e R$ 2,3 mil no Cerrado com serviços ambientais como água e regulação do clima, bem mais do que a soja ou pecuária
Ana Lucia Azevedo
Em meio ao debate de ruralistas e ambientalistas levantado por declarações do candidato à Presidência do PSL, Jair Bolsonaro, no sentido de enfraquecer o licenciamento ambiental e a fiscalização do Ibama, estudos indicam que a floresta em pé vale bem mais do que a terra desmatada. Análises do economista Bernardo Strassburg, diretor do Instituto Internacional para a Sustentabilidade e professor da PUC-Rio, mostram que os serviços ambientais proporcionados pela Amazônia e pelo Cerrado geram mais recursos econômicos que a substituição da vegetação nativa por culturas como a soja ou a pecuária.
São chamados serviços ambientais - ecossistêmicos, no jargão técnico - a oferta de água, a regulação do clima, a manutenção da fertilidade do solo, a prevenção da erosão e a polinização das culturas. Pelos cálculos de Strassburg, um hectare de floresta em pé na Amazônia presta serviços precificados em R$ 3.500 por ano. No Cerrado, a vegetação gera de R$ 2.300 anuais. O mesmo hectare desmatado para a pecuária daria um lucro de R$ 60 a R$ 100 por ano. Se usado para soja, o valor será de R$ 500 a R$ 1 mil por ano. Outros serviços que podem ser precificados, mas não estão nesse cálculo, são o impacto na saúde, o turismo e a biodiversidade em si. Cerca de 40% dos produtos farmacêuticos dependem da riqueza biológica desses biomas brasileiros.
O estudo do valor do capital natural surgiu nos anos 1980 e amadureceu ao ponto de ser usado para fundamentar negócios hoje em dia. Do ponto de vista do país, não faz o menor sentido desmatar mais do que já foi feito até hoje, assegura Strassburg, único integrante brasileiro do painel de valoração do capital natural da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, com 127 países membros. O Brasil tem mais de 50 milhões de hectares em terras degradadas e sem uso.
A questão é que os serviços ambientais são benefícios para o agronegócio de forma geral e para toda a sociedade, numa perspectiva de longo prazo. Já os ganhos da pecuária e agricultura são imediatos e vão diretamente para o bolso do proprietário de terra, o que aumenta a pressão pelo desmatamento. Mas existem formas de compensar. Há pagamentos por serviços ambientais e mecanismos de compensação em tratados internacionais, como o Acordo de Paris.
Restrições comerciais
O Fundo Amazônia, por exemplo, capta doações para o combate ao desmatamento no Brasil. Petrobras, Noruega e Alemanha são os principais doadores e os valores oscilam em função do tamanho da área desmatada no país - quanto menor, maiores os recursos. Em dez anos, o fundo recebeu US$ 1,2 bilhão. Strassburg observa que a Noruega acena com a ampliação das doações para o Cerrado, que entrou no radar dos investidores internacionais devido à pressão da expansão das commodities agrícolas.
- É o governo brasileiro que decide para onde esse dinheiro vai, não há ingerência estrangeira. Hoje é usado, principalmente, em unidades de conservação e monitoramento. Mas também poderia, se o governo quisesse, ser empregado em parte para compensar proprietários de terra que abrissem mão de desmatar áreas legais - diz o economista.
Derrubada, a floresta se torna um prejuízo dividido por todo o país. A França, por exemplo, começa a implementar um plano que incorpora o desmatamento relacionado à produção de suas importações às emissões francesas. Isso significará o fechamento do mercado francês a produtos do agronegócio de países sem controle da perda de vegetação. Outros países da União Europeia (UE) caminham na mesma direção. E o Brasil é o maior exportador de commodities agrícolas para a UE.
- Desmatar é péssimo negócio - observa Strassburg.
Não sem motivo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, que reúne as maiores traders de soja, como Cargill e Bunge, reiterou o compromisso com ações de combate ao desmatamento ilegal. A presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, diz que a organização defende zerar o desmatamento líquido e aumentar as taxas de reflorestamento.
Linha de cosméticos
Como exemplo dos ganhos da preservação da biodiversidade, o CEBDS destaca o caso da Natura. A empresa fez da colheita de sementes da ucuubeira, uma espécie da Amazônia, uma linha de cosméticos que gera renda três vezes maior para comunidades da floresta que o que viria da derrubada da árvore, que só pode ser feita uma vez e não rende mais do que R$ 20 por unidade. A linha de produtos da floresta da Natura movimentará R$ 1,2 bilhão entre 2010 e 2020, 22% a mais que o previsto inicialmente.
Um debate sobre possibilidades de novos investimentos em áreas como clima, água, florestas e energia reuniu na semana passada em São Paulo representantes de fundos, bancos, empresas e especialistas em meio ambiente. O evento "Caminhos para 2050" foi promovido pela Associação dos Analistas e Profissionais do Investimento de Mercado de Capitais e o PRI (Principles for Responsible Investment), rede que tem entre seus membros dois mil dos maiores gestores de investimento e fundos de pensão do mundo.
Durante o debate, Peter van der Werf, da Robeco, uma das gigantes globais de gestão de investimentos, explicou que o desmatamento foi incorporado às análises da gestora porque impacta a sustentabilidade das empresas a longo prazo. Em sua apresentação, Álvaro Dilli, diretor de RH e Sustentabilidade da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do mundo, disse que a empresa busca alternativas ao desmatamento e que só 1% de suas lavouras tem menos de três anos.
- O evento mostra o interesse do setor financeiro na sustentabilidade de toda a cadeia produtiva e do valor das florestas em pé - afirma Danielle Carreira, gerente sênior de meio ambiente do PRI.
O Globo, 28/10/2018, Economia, p. 51
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