VOLTAR

Floresta amazônica está sendo destruída pelas bordas

Página 20-Rio Branco-AC
Autor: Romerito Aquino
27 de Fev de 2004

Reportagem de Veja assinala que a borda oeste, onde está o Acre, é ameaçada pela guerrilha e o tráfico de drogas

A floresta da Amazônia, considerada o mais vigiado, precioso e cobiçado tesouro ambiental do planeta por sua diversidade biológica, manancial de água potável e poder regenerador da biosfera, está sendo comida rapidamente pelas bordas. Essa situação é provocada pela ação das guerrilhas e do narcotráfico dos países vizinhos na parte oeste da floresta, onde se encontram os estados do Acre e do Amazonas; pela crescente urbanização da população na sua parte Norte, representada por Roraima, Amapá e Amazonas; pelo avanço das madeireiras no lado leste, nos estados do Pará e Tocantins; e pela forte expansão da soja, da pecuária e das derrubadas ilegais de madeira na parte sul, nos estados do Mato Grosso e Rondônia.

O diagnóstico acima consta de ampla reportagem publicada esta semana pela revista Veja, que mostra que as campanhas ecológicas, a ação dos governos e o isolamento preservaram até agora o núcleo da Amazônia, mas as pressões vindas de fora, impostas pela iniciativa privada, são uma ameaça crescente ao equilíbrio ambiental da região que detém a maior floresta tropical do planeta. Trazendo opiniões de governos, pesquisadores e cientistas, a revista faz um mapeamento dos perigos que a floresta amazônica enfrenta atualmente em termos de devastação, que pode implicar, nos próximos 20 anos, na derrubada da mesma quantidade de floresta que foi abaixo nos cinco séculos de existência do país.

De 1990 a 2002, foram derrubados, só na Amazônia, cerca de 22 milhões de hectares de floresta, área equivalente aos territórios somados da Bélgica, Dinamarca, Holanda e Portugal. A reportagem de Veja assinala que na borda Norte da floresta, onde estão o Acre e o Amazonas, o risco ambiental para a floresta é ainda desprezível porque o governo brasileiro, através do Exército, tem aumentado o contingente militar para combater as atividades de guerrilha e do narcotráfico. Segundo a revista, 45% da cocaína produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia - os dois últimos vizinhos do Acre - passa hoje pela Amazônia brasileira. "Como guerrilheiros colombianos são vistos com freqüência na fronteira, o Exército aumentou em 30% o número de soldados na última década. O risco ambiental, no entanto, é ainda desprezível", assinala a revista.

Pelos cálculos do governo estadual e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento no Acre não ultrapassou os 11% dos seus 15,5 milhões de hectares, contra pouco mais de 5% de desmatamento nos estados do Amazonas, Amapá e Roraima, os mais preservados na região. A reportagem destaca ainda que na borda norte da Amazônia, a situação da devastação também não é ainda muito preocupante. Além dos conflitos entre índios e produtores rurais serem considerados uma séria questão social, a ameaça maior nessa região é a crescente urbanização da população, que tende a ser minorado pela proximidade com a Venezuela e suas cidades fronteiriças, onde muitos brasileiros da região Norte se abastecem de alimentos e outros produtos.

A matéria assinala, no entanto, que os graves prejuízos causados nas bordas da Amazônia se situam nas suas partes leste e sul. "O impacto maior vem do leste, com as madeireiras e os pecuaristas. Vem também do sul pelo vigor de um ciclo de avanço recente impulsionado pelo sucesso das plantações de soja no Centro-Oeste e sua adaptação para cultivo em regiões cada vez mais próximas da linha do equador, o que ameaça a área de transição entre o cerrado e a floresta densa", destaca a matéria. Outros números da reportagem assinalam que sete de cada dez árvores cortadas na Amazônia brasileira tombam nos estados de Mato Grosso, Pará e em Rondônia, onde a soja também avança em direção ao sul do Amazonas. Outro ponto destacado é que, com dinheiro na mão, o agricultor de soja no Mato Grosso compra áreas antes ocupadas por pecuaristas que, por sua vez, compram terras de madeireiros que se aventuram sobre terras devolutas. "No Sul do país, onde as terras valem até vinte vezes o que custam nas fraldas da Amazônia, o plantador de soja tem de se contentar em aumentar seus ganhos melhorando a produtividade da área plantada. Na vizinhança da floresta é diferente. Ali é mais econômico comprar mais terras de pecuaristas. Dessa forma, o ciclo de desmatamento avança para o norte", destaca a reportagem.

Valorizar a mata muda o futuro sombrio

Se nada for feito para conter a devastação nas grandes bordas da Amazônia, as perspectivas para a floresta, segundo a revista Veja, são as mais sombrias. Estudos indicam que o clima da região ficaria entre 5% e 20% mais seco, o período de estiagem poderia ser ampliado em até dois meses, a temperatura subiria de 1,5 a 2,5 graus e o ciclo de chuvas seria reduzido em 20%. Com isso, as regiões ao sul e a leste da atual floresta se transformariam em savanas. Para evitar tais problemas, que iriam piorar em muito a qualidade de vida dos 21 milhões de brasileiros que moram nos estados da Amazônia, a reportagem revela que um conjunto de medidas preventivas poderia reduzir em até 40% o índice de devastação esperado ao longo de um período de duas décadas. Isso representaria, em termos absolutos, evitar o equivalente a 22 anos de desmatamento em Rondônia.

São as seguintes as medidas preventivas aconselhadas pelos pesquisadores para se diminuir o ritmo do desflorestamento na Amazônia:
Intervenção preventiva - Ampliar a velocidade de intervenção preventiva, já que hoje as autoridades só chegam depois do problema consumado;
Regularização fundiária - Executar a regularização fundiária na região, que está na vanguarda da derrocada da floresta, para evitar a ação de grileiros;
Uso do solo - Intensificar o uso do solo, uma vez que no uso extensivo, mais comum na região, a produtividade é pequena;
Fiscalização de terras - Fiscalizar o desperdício de terras, pois a estimativa é que 20% das áreas desmatadas são abandonadas;
Valorizar a floresta - Adotar políticas e estratégias para aumentar o valor da mata, de modo que ela tenha mais importância de pé do que cortada. Este item vem se tornando uma das bandeiras mais funcionais dos ambientalistas e de alguns governos da região, como o do Acre, que trabalham para inverter a equação preponderante hoje de que a floresta vale mais derrubada e destruída do que em pé e exuberante. Esses governos trabalharem para inverter essa equação é vital para impedir que os piores cenários sejam também os mais realistas.

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.