O Globo, Ciência e Vida, p. 37
11 de Mar de 2004
Floresta amazônica está em transformação
Mudanças bizarras estão em curso no interior da floresta amazônica, mesmo nas áreas mais remotas e intocadas. Pesquisadores brasileiros e americanos descobriram que as árvores de espécies gigantes passaram a crescer ainda mais depressa e aquelas que já eram menores por natureza tiveram seu ritmo de desenvolvimento reduzido.
O ritmo de vida e morte na Amazônia mudou, e árvores crescem e morrem mais rapidamente, dizem os cientistas, num estudo publicado na edição desta semana da revista britânica "Nature".
Os pesquisadores suspeitam que por trás das transformações na maior floresta do planeta esteja aquele que é apontado como o maior vilão do clima: o aumento das emissões de dióxido de carbono (CO2). A pesquisa foi coordenada pelo americano William Laurance, do Smithsonian Tropical Research Institute, no Panamá. Laurance realizou o estudo com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), em Manaus, onde ele mesmo já trabalhou, e da Universidade de São Paulo (USP).
O trabalho é fruto de 20 anos de observações criteriosas na Amazônia Central, em áreas de mata virgem não atingidas por queimadas ou desmatamento. Os cientistas analisaram o destino de cerca de 14 mil árvores numa área de 310 quilômetros quadrados. Laurance observou que as mudanças na floresta ocorreram num período em que as emissões de gás carbônico aumentaram significativamente.
O CO2 regula a vida da floresta, já que as plantas extraem o gás do ar para fazer a fotossíntese. Os cientistas suspeitam que a elevação da concentração de CO2 fertilizou a floresta e aumentou a competição por luz, água e nutrientes do solo. Num ambiente assim, árvores de espécies maiores e que crescem mais depressa levam vantagem sobre as menores.
Mudanças como a registrada agora rompem o frágil equilíbrio da floresta, afetando plantas e animais raros. E, como a floresta amazônica é uma peça importante no ciclo mundial do CO2 e, portanto, da regulação do clima, os autores do estudo suspeitam que as alterações na floresta tenham implicações globais. Os cientistas acreditam que a mata teve reduzida sua capacidade de absorver CO2.
- É assustador ver que as florestas podem mudar tão dramática e rapidamente. E mudanças na Amazônia podem afetar qualquer um - disse Laurance.
A composição da floresta está em transformação. "Há claramente vencedores e perdedores", disse outro integrante do estudo, Alexandre Oliveira, da USP.
O Globo, 11/03/2004, Ciência e Vida, p. 37
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