CIR-Boa Vista-RR
30 de Abr de 2003
O cinegrafista do Conselho Indígena de Roraima - CIR, Dávison Buckley Wapichana, e o vice-coordenador, Noberto Cruz da Silva, registraram três crimes ambientais praticados pelos invasores da terra indígena Raposa Serra do Sol. Eles estavam, nesse fim de semana passado (25, 26, 27), em Uiramutã acompanhando e registrando a festa do "Ou Vai ou Racha" quando receberam denuncia da presença de balsas e garimpeiros no rio Maú, um lixão a céu aberto em Uiramutã e a mortandade de peixes no igarapé Parueni, na região de Surumu.
Em plena paisagem belíssima das montanhas da região serrana de Raposa Serra do Sol, a prefeitura de Uiramutã, recentemente homenageada com o "Prêmio Sebrae de Prefeitura Empreendedora", instalou uma lixeira pública que compromete mananciais de água que abastecem o rio Maú, fronteira do Brasil da Guiana. Toneladas de lixo, inclusive hospitalar estão sendo despejadas em uma vala de erosão natural, a pouco mais de um quilômetro da aldeia Uiramutã.
Na lixeira estão depositados plásticos, seringas, vidros, ferro velho, latas enferrujadas, pneus, resto de material de construção e até a carcaça de um carro. Segundo os índios, de dois em dois dias, um trator da prefeitura transporta o lixo proveniente do vilarejo de Uiramutã. "O pior ainda é que o lixo mal alojado no transporte, durante o trajeto vai se espalhando à beira do caminho", comenta Osmário Lima, Agente Indígena de Saúde da aldeia.
Embora aparentemente não exista por estar escondida entre dois morros, de longe se sente o mau cheiro e se observa a presença de urubus sobrevoando o local. Com as primeiras chuvas desse inverno aumentam os danos ambientais e pode comprometer a saúde dos povos indígenas que moram próximo às margens do rio, principalmente os das malocas Camararém, Caxirimã, Tabatinga, Lilás, Maturuca abastecidas pelo Maú.
Osmário Lima cobra punição aos responsáveis pela degradação ambiental. "Fico triste porque quem mais vai sofrer com a contaminação do rio, somos nós que já sofremos as conseqüências da presença de garimpeiros e dos militares em nossa região", comenta. Ele ainda denuncia que óleo queimado está sendo derramado no quartel 6o. Pelotão Especial de Fronteira e que em breve as águas das chuvas levarão os resíduos para os igarapés contaminando mais ainda as águas que abastecem a maloca.
Garimpeiros - Uma balsa completa com maquinário de garimpo e quatro garimpeiros foram flagrados em plena atividade mineraria no rio Maú, no dia 26 às duas horas da tarde. Intimidados com a presença da equipe do CIR, no momento acompanhada por um servidor da Funai, o garimpeiros ancoraram a balsa na margem esquerda do rio, do lado da Guiana.
Há suspeita de que os garimpeiros são brasileiros porque um deles usava a camiseta de propaganda eleitoral do candidato a governador, Flamarion Portela, eleito no último pleito. Do outro lado do rio eles continuaram tranqüilamente a prospecção e lavra de cascalho e, segundo os indígenas, usam o vilarejo de Uiramutã como ponto de apoio para suprimento de mercadorias necessárias para a atividade ilegal que exercem.
Mortandade de peixes - O início do período chuvoso começa e expressar com maior evidência os crimes ambientais conseqüências do uso exagerado e indevido de agrotóxicos nas plantações de arroz na região de Surumu, parte integrante de Raposa Serra do Sol. Vários peixes, identificados pelos índios como sendo da espécie Pirandirá, foram encontrados mortos nesse fim de semana, no igarapé Parueni próximo da invasão denominada "fazenda Canadá", onde é cultivado ilegalmente as plantações do arroz Faccio.
A intensidade das chuvas faz a água escorrer das lavouras para o igarapé levando consigo insumos e agrotóxicos depositados nas plantações de arroz irrigado. Quando o cinegrafista filmava os peixes mortos, um avião do rizicultor sobrevoava a área lançando um pó branco com cheiro forte que a equipe identificou como sendo defensivo agrícola.
O crime ecológico compromete a vida dos povos indígenas das comunidades que estão no entorno das plantações ou que necessitam das águas do igarapé Paraueni, Táxi ou mesmo do rio Surumu que recebe água dos dois. Quem descobriu a matança indiscriminada de peixes foi um grupo de pescadores da aldeia Canta Galo, que quando foram pescar, observaram os peixes boiando na água.
Providências - O CIR através da assessoria jurídica encaminhou a denúncia os crimes ambientais à Funai, Ministério Público, Ibama e Delegacia Federal da Agricultura. Os tuxauas da região das Serras vão se reunir com líderes das comunidades macuxi da Guiana para discutir a fiscalização da presença de garimpeiros no Brasil e Guiana, pois já existe um acordo firmado entre as aldeias para coibir a garimpagem na região.
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